23.02.04

Próxima parada: Brasil

Por Juliana Zambelo

A árvore genealógica da cena musical em Glasgow é tão cheia de braços independentes quanto de cruzamentos e intersecções - parcerias, colaborações, amizades. Um dos encontros de linhas aconteceu por volta de 1989, quando Stephan Pastel (ícone local, líder da banda The Pastels) trabalhou com o artista americano Jad Fair dentro dos estúdios dos jovens rapazes do Teenage Fanclub. Dez anos depois, a sintonia entre os reis do power pop TFC e o homem multi-projetos Fair despertou e acabou rendendo algumas jam sessions. O resultado foi o álbum Words Of Wisdom And Hope, lançado em 2002 pela gravadora de (intersecção) Pastel.

Demorou um pouco, porém o disco registro da parceria está chegando ao Brasil através do selo Slag. Jad Fair assina as letras e os vocais, deixando as músicas ficarem a cargo dos escoceses. A sonoridade não difere muito daquela presente em Howdy!, com canções que fluem calmas, aconchegantes, com as guitarras limpas em baladas melodiosas para dias frios. Mas Jad Fair não é exatamente um cantor. O que ele faz é ir falando, mais ou menos no ritmo, suas letras excêntricas ("You're the apple Of my eye / Apple without a worm / And I'm a happy guy"). O resultado pode causar estranheza a quem está acostumado às vozes simpáticas e aos versos sensíveis de Gerard Love, Norman Blake e Raymond McGinley, mas ainda assim esse é um CD curioso e agradável.

Mais agradável, contudo, é saber que ainda este ano o que deve desembarcar no país é o próprio Teenage Fanclub, em carne e osso. A notícia, capaz de trazer lágrimas aos olhos de muita gente, tem circulado por algum tempo com status de boato, mas tudo indica que a confirmação realmente virá muito em breve.

Com a desculpa do lançamento do CD e da quase garantida vinda ao Brasil, aproveitamos para conversar com o baixista Gerard Love sobre os rumos atuais da banda, o próximo álbum e algumas velhas história de uma das bandas mais consistentes e adoradas do rock independente.

Words Of Wisdom And Hope foi gravado na mesma época em que Howdy!, e é tão "acústico" quanto. Isso foi uma fase da banda ou foi uma evolução que veio para ficar?
Gerard Love: Nos últimos anos nós temos caminhado para um som mais tranqüilo, mas existem algumas músicas em Words Of Wisdom And Hope bem agitadas!

O que podemos esperar do próximo disco?
É difícil dizer no momento porque nós não fizemos o disco ainda, mas eu acho que não vai ser tão calmo. Eu imagino que vá ser levemente mais energético e mais simples. Nós estamos fazendo o disco com John McEntire [do Tortoise], tenho certeza que vai ficar bom.

O site da banda diz que Words Of... foi gravado em alguns dias. Foram quantos dias, exatamente? Como foram as gravações?
O disco foi todo gravado em cerca de sete dias, o que é incrivelmente rápido para nós - às vezes nós gastamos três dias só para afinar nossas guitarras! As gravações foram livres e fáceis; alguém pegava um instrumento e começa a brincar, eventualmente achava um movimento e então todo mundo se envolvia. Quando tínhamos duas ou três partes diferentes, nós dizíamos que era uma música e Jad cantava em cima. Foi simples e improvisado. O mais legal para nós foi que nos permitiu tocar qualquer instrumento que quiséssemos, não havia regras. No Teenage Fanclub nós geralmente ficamos com um único instrumento.

O jeito de Jad Fair cantar não é nem um pouco melódico, então é bastante diferente dos vocais dos membros do Teenage. Como foi escrever músicas para um cantor tão incomum?
Foi diferente. Foi muito mais fácil porque você não tem que pensar na melodia, ou mesmo na progressão das notas. O fato de Jad poder cantar em cima de qualquer coisa foi muito libertador.

Esse foi o álbum do grupo que menos agradou à critica. Como vocês encaram isso? Vocês costumam ler o que sai na imprensa?
É engraçado, mas Words Of... foi muito elogiado em revistas que nunca iriam falar de Teenage Fanclub. Nos deu uma exposição a grupos de pessoas que nunca tinham lido sobre nós antes. Alguns críticos realmente amaram o disco e alguns não estavam interessados, mas a experiência de fazer o álbum foi tão agradável e satisfatória que não importou o que as pessoas pensaram.

Nós costumamos ler o que é escrito sobre nós, isso pode ser divertido, mas não nos afeta. No fundo você sabe se seu trabalho é bom, se você fez um bom trabalho - você não precisa ouvir isso de outra pessoa. No final, as opiniões de outras pessoas não mudam a verdade.

O álbum foi lançado anos depois de ter sido gravado, e está saindo no Brasil dois anos depois de seu lançamento no Reino Unido. Esse atraso prejudica o disco de alguma forma? Existia alguma ligação com o momento em que foi concebido?
Eu não acho que seja um disco ligado a modismo, quer dizer, seu estilo não está relacionado ao ano em que foi feito. Não é trip hop ou skater metal, então o atraso no lançamento não importa.

Essa não foi a primeira parceria da banda. Fale um pouco sobre as outras colaborações que já fizeram, como as parcerias com Frank Black e De La Soul.
A colaboração mais interessante foi com De La Soul para a trilha do filme Judgement Night. Nós estávamos gravando o álbum Thirteen nessa época e o De La Soul veio nos encontrar no estúdio em Manchester. Eles eram um desses grupos que todo mundo adorava, não importava que tipo de música você gostasse, então vibramos por poder trabalhar com eles. Não tínhamos muito tempo então começamos a trabalhar imediatamente. Mase colocou uma batida e os outros dois caras começaram a escrever rimas. Eu coloquei a linha de baixo na batida e então Norman e Raymond começaram a gravar as guitarras. Nessa altura, a composição estava pronta e Pos [Posdnuos] e Dave [Trugoy the Dove] entraram e começaram a rimar. Eles eram inacreditáveis! Cantamos alguns backing vocals, incluímos um pouco de percussão, e Pos resolveu usar um sample de Tom Petty acima de tudo. A música foi chamada "Fallin'" e fizemos o clipe com eles alguns meses depois em Chicago. Foi muito divertido. Eu nunca vi o clipe.

Frank Black era um velho amigo e nos convidou para ser seu grupo de apoio em uma apresentação na rádio [BBC, dentro do programa de John Peel]. Charles (FB) voou para Glasgow e ensaiamos para valer por quatro horas. Fomos para Londres no dia seguinte e ensaiamos por mais seis horas. Foi trabalho pesado, mas uma hora começou a ficar bom. Fomos para o estúdio Maida Vale da BBC em Londres um dia depois para fazer a gravação. Todo mundo estava preocupado, achando que ia errar, as canções eram como equações matemáticas - tantos movimentos para lembrar, muito diferente do nosso som, mas estávamos bem ensaiados, porque Charles nos fez trabalhar bastante. E uma hora a fita começou a rolar.

Vocês nunca trocaram Glasgow por Londres, ao contrário de muitas bandas dessa cidade. Por que fizeram essa escolha e como isso se refletiu na trajetória da banda?
Todos os nossos amigos estão em Glasgow e nunca sentimos que precisávamos de Londres. Nosso primeiro contrato foi com um selo de Nova York, então se fôssemos nos mudar de Glasgow teria sido mais excitante e mais sensato ir para lá. Londres é um lugar ótimo para visitar, mas acho que Glasgow é melhor para viver. O ar é mais puro e as pessoas, mais amigáveis e têm mais tempo umas para as outras. É bom estar próximos dos amigos e das nossas famílias, porque estando em um negócio tão superficial quanto a música, seria fácil perder sua identidade e se tornar egoísta.

Se tivéssemos ido para Londres eu acho que teríamos vendido mais discos e nos tornado mais famosos, mas não acho que ainda estaríamos juntos. A música que fazemos reflete nossa vida em Glasgow e estamos felizes por ainda estarmos aqui. Acho que as pessoas nos respeitam por não termos nos vendido e mudado para o sul.

Foi lançada uma coletânea ano passado. Vocês se envolveram na escolha das músicas? Qual foi o critério?
Sim, nós escolhemos as músicas. Foi fácil, porque nós escolhemos aquelas que ainda tocamos ao vivo, as que ainda são relevantes para nós. É impossível agradar a todos, mas nós estamos contentes com o resultado.

Existem boatos de que vocês vêm para o Brasil esse ano para alguns shows. Você pode revelar se isso é verdade? Como vão ser esses shows?
Sim, é verdade. Estamos finalizando os detalhes e o anúncio oficial é iminente. As músicas que temos tocados são as da coletânea e algumas novas. Vamos para Chicago em fevereiro para começar a gravar o próximo disco. O Brasil vai ter apresentações exclusivas.

Francis McDonald e Belle and Sebastian estiveram aqui, e eles já sabem do interesse dos brasileiros pelas bandas escocesas. Eles contaram a vocês? Estão prontos para uma recepção bem calorosa?
Eles nos disseram e estamos prontos para um pouco de calor.

 

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