15.08.04

Quanto mais gente melhor

Por Juliana Zambelo

Polyphonic Spree
Ah, os supergrupos! Eles estão com tudo ultimamente. Por todos os lados parece que as pessoas estão se aglutinando em busca de interação, cansadas de solidão e do conforto de tomar decisões sozinhas. Na música, isso acontece tanto no cenário internacional (quantas pessoas mesmo formam o Hidden Cameras?) quanto nas esquinas brasileiras (do elogiado aglomerado hip hop Instituto à celebratória Open Field Church). E acontece porque hoje pode acontecer. Porque houve, em especial graças aos anos 90 e sua mescla de estilos, uma flexibilização dos formatos. Hoje é totalmente bem vinda a idéia de um moleque fazendo um disco sozinho e lançando com um nome de banda (The Streets) ou de um monte de gente trabalhar sob um nome de dupla (Belle and Sebastian).

Neste mês, há dois supergrupos em destaque. São dois álbuns que chegam às lojas com uma enorme lista de créditos e muitas bocas para alimentar. É pouco provável que eles cheguem a fazer fortuna suficiente para enriquecer cada um de seus integrantes, mas a qualidade de Together We're Heavy, do Polyphonic Spree, e do disco homônimo do Concretes é definitivamente proporcional ao número de pessoas envolvidas nesses dois projetos.

Por isso, o Polyphonic Spree sai na frente. Esse coletivo de Dallas conta com mais de vinte membros, que vestem togas e tocam instrumentos como flauta e trombone. A grande massa humana, no entanto, compõe o coral, aquele fator tão estranho ao universo pop que atraiu a atenção do mundo há dois anos.

A figura central dessa família é Tim DeLaughter, que faz as músicas e coordena o grupo. O primeiro trabalho, Beginning Stages Of Polyphonic Spree lançado em junho de 2002, foi gravado sem muita pretensão em poucos dias. Mas resposta foi tão boa que o Polyphonic se viu pressionado a consolidar uma formação e improvisar um repertório para shows. Desde esse momento, e com muito mais cuidado e dedicação, DeLaughter veio preparando o segundo álbum.

As canções do primeiro disco foram compostas por Tim no violão. A base de Together We're Heavy já é outra: um piano que ele aprendeu a tocar ao mesmo tempo em que escrevia as novas músicas. A diferença não foi pequena. Arranjos e melodias ficaram mais complexos e deixaram de seguir a guitarra, que abandonou o papel de destaque para fazer uma ponta na retaguarda. Ela domina brilhantemente a primeira faixa, mas é às custas das mais de dez vozes e de piano, violino, cello e metais que o peso do Polyphonic se mantém em todo o álbum. A harpa aparece nos momentos certos para dar um toque celestial ao disco.

O supergrupo está intimamente relacionado a Beach Boys. Musicalmente, a semelhança está na combinação perfeita de instrumentos, nas melodias cheias de degraus e reveses e na beleza que resulta do uso de elementos sofisticados em canções pop. Além disso, o Polyphonic reprisa a tensão entre otimismo e melancolia, balanceando sentimentos tristes e incômodos com mensagens de esperança.

É quase uma injustiça apontar preferidas entre as dez de Together We're Heavy, um disco especial do primeiro ao último minuto. Mas a seqüência "Hold Me Now" / "Diamonds/Mild Devotion To Majesty" / "Two Thousand Places" é um dos momentos mais inspirados do ano.

The Concretes
The Concretes já é mais simples. A banda tem menos gente ("apenas" oito pessoas) e a música possui menos nuances a serem desvendadas. Eles têm sido relacionados a Belle and Sebastian, mas essa não é uma comparação muito correta, porque esses suecos são muito mais desleixados que os caprichosos escoceses.

Esse, que é o primeiro álbum do Concretes após nove anos de carreira, está mais para Jesus and Mary Chain, com suas melodias doces executadas de modo lo-fi. O diferencial está no uso de instrumentos como sax, banjo, pandeiro e bastante trompete, que são colocados nas canções displicentemente. Mas apesar da aparente preguiça, o resultado tem graça e simpatia - e isso é, provavelmente, a intenção do supergrupo.

A banda se apresenta como uma democracia, mas um destaque natural recai sobre a vocalista Victoria Bergsman. Sua voz, mistura da candura de Nina Persson, do Cardigans, e da infantilidade da Cerys Matthews, do Catatonia, é o que se sobressai desde a primeira audição do álbum. Outro detalhe importante são os teclados cafonas, que dão charme a algumas das melhores canções, como "Warm Night" e a preciosidade pop "You Can't Hurry Love". Só existe voz e um piano martelado irritante em "Foreign Country", uma bobagenzinha deliciosa de menos de dois minutos. E é nas boas "New Friend" e "This One Is For You" que o Concretes mais se aproxima do minimalismo do Mazzy Star e das baladas do Velvet Underground.

O CD foi lançado na Europa pelo selo da própria banda, chamado Licking Fingers, tendo sido acolhido em seguida pela Astralwerks - lar de Beta Band, Chemical Brothers e Placebo. Polyphonic Spree faz parte do elenco do também pequeno Hollywood Records. Não há previsão para lançamento de nenhum desses dois discos no Brasil.

 

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