19.11.04

Entre Bonos e Freddie Mercurys

Por Juliana Zambelo

A região do ABC Paulista foi, durante os anos 80, uma área de concentração punk. Na década seguinte, predominaram os carecas. No entanto já faz algum tempo que, para a juventude classe média, o que pega é o classic rock e as bandas cover. Dos tradicionais U2 e Queen a nomes novos como Creed, os bares locais têm sua programação preenchida por imitadores de nomes ilustres.

O Sufrågio vem fugindo disso desde 1986. Nascida em São Bernardo, a banda sempre esteve ligada ao pós-punk inglês e mais interessada em mostrar seu próprio material, seguindo a tendência dos artistas da capital paulista. "Estávamos no meio do movimento operário, das mudanças sociais com o fim do bipartidarismo e a chegada do PT, mas queríamos mesmo é soar como os Smiths, Cure, Joy Division", lembra Reinaldo Andreatta, guitarra e voz do grupo. "Esses sons mudaram nossa maneira de pensar e sentir a música".

Hoje, após 18 anos de muita história (demos, cds e shows em todas as casas alternativas paulistanas), o agora quarteto batalha a divulgação de seu trabalho mais recente, o CD People are Just Some Part of Your Head. "Estou super orgulhoso dele. Amo esse disco e sei que é bom, inspirado, bem feito", defende Rey. E não sem razão. Aqui o grupo lembra os ingleses da virada da década, algo shoegazer, com mais peso do que os cures e joys que lhes influenciaram no início. E se em algumas faixas a ênfase nas guitarras distorcidas e "naquela" batida soam datadas, em outras funciona bem. "O Sufrågio tem essa coisa de textura densa, pesada, mas melódica e simples e esse disco tem muito do nosso estilo, que passeia por várias nuances dentro do rock, retro garageiro, pop inglês e outras cositas mas".

People Are Just... é um CD independente até de selos independentes, mas traz qualidade na produção e a beleza do trabalho gráfico chama a atenção . Além disso, a pegada de canções como "Villain" e "It Takes Talent (2003)" fazem as únicas 500 cópias parecerem poucas.

Mas antes mesmo que elas acabem, os próximos vários passos do Sufrågio já foram planejados. Rey conta que um novo álbum está engatilhado, beirando o início das gravações. "Não temos um repertório fechado. Temos umas doze músicas e mais quatro novas, só na minha cabeça, e vamos decidir quais entram". Olhando ainda mais longe, o Sufrågio tem planos para o trabalho seguinte, no qual a banda deverá trocar o inglês pelo português. "Quero fazer um disco em português porque acho que a indústria, mesmo a alternativa, está pedindo isso. Como quero mais visibilidade, vou fazer o que o mercado pede, mas sem me corromper".

Além disso, um CD ao vivo está por vir. "Fizemos um show no Atari e gravamos em 24 canais. Ficou duca. Vamos mixar todas as faixas e lançar, além de colocá-las no site. Também filmamos e vamos fazer um vídeo com o conceito visual retrô do Atari".

Isso tudo deixa muito claro que a banda não tem intenção de descansar tão cedo. "Tenho muitas expectativas. Todas num nível bem tranqüilo, porque acho que o perfil de banda grande nunca nos agradou. Somos pessoas que curtem fazer um som e produzir coisas legais. Efetivamente, quero lançar um disco por ano, no mínimo, fazer shows no circuito alternativo paulista e nacional e, quem sabe, uns shows fora do Brasil também".

 

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