26.12.03

Contradição pop

Por Juliana Zambelo

Dizem que as pessoas ficam mais calmas com a idade, diminuem o volume do rádio, dançam mais devagar, tornam-se mais tolerantes. Ainda que não atinja a todos, a realidade dessa transformação afetou um dos principais selos de rock dos anos 90: o Sub Pop. Depois de lançar pesados discos essenciais para a história da década passada (álbuns de Nirvana, Soundgarden, Mudhoney e Afghan Whigs), os melhores artistas do selo são hoje de música pop.

Ao lado da psicodelia light de Beechwood Sparks e Pernice Brothers, outra banda do Sub Pop que tem ganho fãs e elogios é o The Shins. Esse quarteto do Novo México, capitaneado pelo guitarrista/vocalista/compositor James Mercer, traz ainda Dave Hernandez (baixo/guitarra), Jesse Sandoval (bateria) e Marty Crandall (teclados), rapazes já não tão novos ou inexperientes quanto os novos The's de quem se tem falado ultimamente. O grupo foi promovido a projeto principal de seus integrantes em 1999, mas já existia há quase dez anos. E depois da estréia em disco em 2001 (Oh, Inverted World), passou a ser um dos mais reconhecidos nomes do cenário indie pop atual - graças a pérolas como "Girl Inform Me" e "Know Your Onion".

Banda da estirpe de The Thrills - irlandeses perdidos no som californiano de décadas atrás -, The Shins flerta com o pop ensolarado do fim dos anos 60, de Beach Boys, Byrds e Zombies, porém com uma sonoridade mais contemporânea, mais indie rock. A relação com o passado fica na parte melódica, sem necessariamente buscar reproduzir a época em cada instrumento. É uma assimilação do estilo, não uma reverência. Essa atitude, já ensaiada no primeiro disco, foi consolidada recentemente no CD Chutes Too Narrow, lançado nos Estados Unidos há algumas semanas.

O álbum é marcado por uma contradição. Se o som é leve e em geral animado, as letras são, no entanto, forradas de pessimismo e melancolia. Temas como fracasso e decepção permeiam os versos, que se fazem da repetição de palavras como "destino", expressões como "defeitos fatais" e pensamentos de tédio, lentidão, gelo derretendo e trens vagarosos. "Estou tentando não desistir".

Mal-estar à parte, é fácil sublimar a acidez para se deixar levar por músicas como "So Says I", "Young Pilgrims" e "Gone For Good". Ou se encantar pela beleza delicada das baladas ("Pink Bullets", "Those To Come"...). Chutes Too Narrow é meia hora de música que passa boa e fácil, confortável como um tênis velho que foi amaciado com o tempo.

Contudo o indie pop pode ser um círculo perigoso, do qual não se consegue sair depois que se entra. Já engoliu diversas bandas que mereciam ter acontecido para além dessa cena tão restrita. O "destino", tão caro ao The Shins, pode ter separado uma estrada melhor para eles. No Brasil, por enquanto, não. Chutes Too Narrow não foi lançado por aqui.

 

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