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23.07.03
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Sim, eles querem ocupar seu lugar Por Alex Antunes Entre
os resultados do com:tradição
está o espaço que o festival conquistou na imprensa para
os novos nomes que nele se apresentaram. Além das matérias
que antecederam e anunciaram o com:tradição,
a Folha de S. Paulo publicou uma crítica do jornalista Pedro Alexandre
Sanches, entitulada "A
'nova MPB' quer mesmo ocupar seu lugar ao sol?". Nesse texto,
o autor aponta a ausência de público durante as quatro noites
e uma falta de domínio sobre a platéia por parte dos novos
artistas. Em relação a isso, e a pedido dos músicos
que participaram do evento, o curador Alex Antunes escreveu a resposta
que publicamos abaixo.
Esta não
é uma daquelas típicas réplicas raivosas - na verdade,
até concordo em vários pontos com a crítica de Pedro
Alexandre Sanches (Folha de S. Paulo, 08/07/2003) ao festival com:tradição,
realizado no Sesc Pompéia nos dias 03, 04, 05 e 06 de julho.
Mas, como
diretor artístico do festival, dedicado aos novos talentos da música
brasileira, sinto-me na obrigação de retomar algumas questões
colocadas pelo crítico.
Primeiro,
as concordâncias. De fato, a apresentação de Maria
Alcina com o Bojo foi uma das mais empolgantes. No meu entender, no mesmo
patamar de agradável surpresa de outra cantora convidada, Elza
Soares, no entrosamento com outra banda de inclinação eletrônica,
o Mugomango.
Depois,
quanto ao alegado conservadorismo do público ao exigir a entrada
do ex-Mutante Arnaldo Baptista, na segunda noite. Talvez possamos desculpar
a afoiteza e a idolatria da platéia se lembrarmos que Arnaldo é
nosso anti-herói trágico psicodélico, nosso Syd Barrett
ou nosso Brian Wilson.
Arnaldo,
de resto, deu um pequeno show como nunca tinha dado na fase posterior
ao seu acidente. Ao que consta pela primeira vez em anos, Arnaldo escolheu
um repertório de várias músicas e as cantou e executou
ao piano, sozinho, sem percalços (eu mesmo já vi Arnaldo
fugir do palco sob a pressão de algum anfitrião inconveniente).
Assim, a
relativamente curta interação de Arnaldo com seu simpático
anfitrião Moisés Santana, em duas outras músicas,
se justifica pelas circunstâncias particularíssimas. E o
resultado certamente foi memorável. Vi marmanjo - e não
dos tais fãs obsessivos - se desmanchando de emoção.
As outras
apresentações com convidados se pautaram por suas lógicas
internas: os instrumentistas JT Meirelles e Naná Vasconcelos explorando
climas com o Mamelo Sound System e Instituto, e o trabalho já estabelecido
do Vulgue Tostoi com Jards Macalé dando mais um passo na sua consolidação
- a parceria deve inclusive render um disco.
Foram igualmente boas.
Agora, as
discordâncias. Afirmar que o público foi "sempre ralo"
é injusto. O teatro estava quase lotado na primeira noite, com
os dois lados abertos, e na última, com apenas um lado, ficou gente
de fora, pois os ingressos esgotaram.
A escolha
do teatro, e não da choperia do Sesc Pompéia, foi sugestão
minha. De fato, fiz questão de fugir daquele clima de show de rock'n'roll,
com gente distraída em pé e conversando, palco preto e só
uma voz em off gritando aí galeeera entre as apresentações.
Por outro
lado, ao me chamar de "apresentador falastrão", o crítico
foi discreto e gentil, pois na terceira noite eu estava completamente
lesado, beirando a inconveniência. Coisas da felicidade de ver funcionar
um festival desse tamanho (quatro noites, dezesseis shows, 21 artistas
ou bandas de sete diferentes estados, lançando simultaneamente
sete álbuns por seis diferentes selos).
Concordamos,
eu e o programador do Sesc, Sérgio Pinto, que esta geração
inverteu a tendência antiga: a dos músicos muito hábeis
ao vivo e inábeis em estúdio. Coisa desses tempos nerd e
tecnológicos, talvez, o fato de que vários artistas hoje
aparecem com excelentes gravações, e nem sempre a desenvoltura
ao vivo acompanha o ótimo nível do material gravado.
Mas: a)
não há como treinar essa desenvoltura e criar esse domínio
do público, para usar o termo do Pedro, a não ser dando
a cara para bater; b) ainda acho melhor esse relativo "autismo"
sincero do que a falsa euforia pop do "aí galeeera".
Era essa
mesmo a face tentativa e generosa do festival, tal como ele foi concebido,
ao contrário das apáticas gritarias programadas dos "grandes
festivais" (alguém ainda acredita nisso?) de figurinhas carimbadas
do calibre do Jota Quest.
E os exemplos
pinçados pelo crítico para ilustrar essa tese da incomunicabilidade
beiram a injustiça. Quanto ao experiente produtor Beto Villares,
essa era a sua estréia como artista solo, e ele certamente estava
cuidadoso - mas não creio que isso tenha prejudicado definitivamente
a sua apresentação. Dizem que seu show seguinte, no Urbano,
foi excelente.
Quanto ao
Wado, os aplausos entusiásticos que eu ouvi simplesmente desmentem
o exemplo. (E já que essa era a tal noite da lesação,
fui conferir a gravação do show, e os aplausos entusiásticos
continuam lá!)
Pode-se
gostar mais ou menos de determinadas propostas artísticas mas,
para mim, parece claro e estabelecido que artistas como os citados e como
BNegão (o outro candidato a de melhor show do festival), Karine
Alexandrino, Maurício Negão, Rebeca Matta, Curumin, Donazica
e Mim já provaram que têm algo a dizer - e dizem, cada um
a seu modo.
Guardarei
outros comentários para o CD do com:tradição
que estou compilando.
Mas creio, respondendo a pergunta do Pedro, que os novos querem o seu
lugar sim. |
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