19.11.04

Receitas pop

Por Katia Abreu

Como na culinária, a mistura de ingredientes pop pode resultar em ótimos pratos, especialmente se os ingredientes forem de qualidade inquestionável. Mas, de nada adianta colocar na mesma panela os melhores condimentos se não houver boas doses de criatividade e de bom senso. Há receitas, que de tão consagradas, já se tornaram clichês e não despertam o apetite de ninguém: servem apenas para matar a fome. (Há também aquelas que chegam a dar enjôos, mas dessas, privaremos o leitor.)

Arroz e feijão - para citar itens presentes na cesta básica do brasileiro. Não há dúvidas de que os dois grãos funcionam muito bem quando postos juntos à mesa. Entretanto, quem é que vai a um restaurante, olha o menu e pede este prato? Arroz e feijão comemos na casa de nossas mães, porque há o tempero familiar, possivelmente, o primeiro à que experimentamos.

Na música o raciocínio é o mesmo. Quem quer ouvir acid jazz noventista, vai direto ao Travelling Without Moving, do Jamiroquai; se quiser ouvir música eletrônica com tempero brasileiro, há um sem número de opções, das quais, das recentíssimas, destaca-se o Zemaria; e a lista poderia se estender ad infinitum, mas paremos por aqui. As 15 faixas de Complexo de Lo-Fi, disco de estréia dos gaúchos do Cabaret Hitec, não trazem nada de novo ao ouvinte. Ora soa como um Jota Quest adicionando alguma mpb a um já requentando acid jazz; ora como um sub-Manu Chao, cantando em espanhol embalado por um pop latino. Complexo de Lo-Fi não chega a fazer mal, a incomodar. Mas é como convidar alguém especial para almoçar e servir o arroz com feijão a que a pessoa está acostumada a comer todos os dias em casa.

Uma boa (e simples) saída para encontros gastronômicos com amigos são massas. São fáceis de preparar e sempre se pode escolher um molho original. A banda baiana Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta apostou nisso em seu EP A Dois. Quatro composições simples e belas, misturando soft rock, blues e mpb. Mesmo quando fazem o crossover mais em voga do pop nacional, samba e rock, em "Obediência", não soam como filhotes de Los Hermanos. Um disco que tem o frescor das estréias, sem a imaturidade adolescente que às vezes as acompanha. Al dente, como se diria da massa.

Há também, na música e na culinária, um certo interesse pelo exótico. Comida indiana, por exemplo, há quem experimente só por ser indiana, sem nem saber o que é. Um disco de rock vindo de Natal, Rio Grande do Norte, nos chama a atenção já pela sua origem, porque nos chega pouca coisa vinda daquelas bandas. E o Bugs, como a comida indiana, não desaponta. É saboroso logo a primeira audição. Rock vigoroso, garageiro, como faziam os Stooges e como fazem os Strokes (referência confessa da banda), mas com pitadas de psicodelia aqui e ali que tiram o eventual cheiro de mofo que o disco poderia ter. Na lista de "inspirações" destes potiguares, há ainda Kubrick e Tarantino, Drummond e Burgess ajudando a construir um universo lírico e, por vezes, surreal. Em poucas palavras, a estréia do Bugs é como se Julian Casablancas e seus amigos tivessem feito seu segundo disco depois de ouvir muito Mutantes, Pink Floyd e outras especiarias do gênero.

 

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