16.09.03

Corações selvagens

Por Juliana Zambelo

Sharin Foo

O assunto é The Raveonettes e seu novo CD. Vamos começar indo direto ao ponto, assim poderemos mudar de assunto. Eles são cópias escancaradas de Jesus and Mary Chain, refazem o que já foi feito em Psychocandy de 1985, são oportunistas sortudos que se deram bem graças a um movimento polêmico de bandas novas. Todos esses argumentos, que serão usados contra esse álbum, são válidos e terão sua importância no futuro da banda. Mas se no presente uma única música realmente boa faria todos eles caírem por terra, frente a um disco ótimo, então, só sobram cinzas.

E Chain Gang Of Love é o disco perfeito para tal serviço: ele é ótimo. Essa é uma certeza que cola em você antes mesmo de acabada a primeira audição. São apenas trinta minutos de músicas, mas dentro desse pouquinho tempo cabem no mínimo 10 hits - e um mundo de possibilidades.

Lançado mês passado, esse álbum fica no meio termo entre ser o primeiro e o segundo da banda. Isso porque há cerca de sete meses o Raveonettes lançou Whip It On, um mini álbum que ninguém sabia dizer direito se era um EP caprichado ou se o CD de estréia era só aquilo mesmo. Na dúvida, acabou-se pendendo para a segunda opção, mas sem muita convicção.

Seja como for, Whip It On foi responsável por apresentar ao mundo a dupla dinamarquesa composta por um homem guitarrista (Sune Rose Wagner) e uma mulher baixista (Sharin Foo). Mostrou o que é o som do Raveonettes, essa mistura de música pop dos anos 50 e 60 e muita distorção. E deixou a pergunta no ar: se esse disquinho, tão pequeno, já era limitado e repetitivo, seriam eles capazes de fazer melhor da próxima vez?

A resposta veio em forma de canções. No novo trabalho, a barulheira continua, permanece o rock alto e cru, mas o estofo das músicas melhorou de uma forma impressionante. Assim como Buddy Holly, The Ronettes, Shangri-Las e Roy Orbison lá num passado remoto, esses dois fizeram pequenas perfeitas canções pop, que conquistam de cara e grudam feito chiclete. Só que com um pouco mais de ênfase na guitarra e um pouquinho de surf music para apimentar. Enquanto isso, a bateria é o elemento menos importante, em geral ficando apenas no prato ou no tamborinzinho.

As letras falam sobre sexo ("My girl is a little animal, she always wants to fuck"), mas principalmente sobre amor e corações partidos ("You could never want me the same way I want you"). São simples, porém chamam a atenção diversas vezes. E todas as músicas são cantadas pela dupla como se eles fossem uma única voz dobrada, que às vezes estranhamente assume um engraçado sotaque caipira-americano.

Outro ponto curioso é a brincadeira - que parece séria - que o Raveonettes vem fazendo com as notas musicais. Porque o primeiro disco, dizem eles, foi todo feito em Si menor e prometia uma seqüência em Si maior. E, dizem eles, a seqüência veio; Chain Gang Of Love seria todo tocado nessa nota. Quem se importa?

O primeiro estouro do álbum, chamariz do lançamento, foi "That Great Love Sound", uma música que reúne as melhores qualidades do CD: é bonita, excitante, cool, melodiosa, tosca, ganchuda. A faixa seguinte, "Noisy Summer", começa só com palmas marcando o ritmo e as vozes soando doces, para de repente estourar em distorção. Depois disso continuam vindo apenas pontos altos, um atrás do outro. Enumerá-los seria como tentar lembrar de todos os hits de Nós Vamos Invadir Sua Praia: é uma lista que parece não acabar nunca...

E para que tudo isso não seja em vão, Chain Gang of Love é cercado de boas notícias. A primeira é que a Sony está lançando esse álbum no Brasil simultaneamente com o resto do mundo. A segunda, ainda mais chocante, é que a qualquer momento um desavisado pode ser surpreendido com uma dessas canções saindo do seu radinho de pilha - a Brasil 2000 já incluiu mais de uma música do Raveonettes na sua nova programação. Para os mais exagerados, essa sorte poderia até parecer conspiração a favor ou uma grande ajuda cósmica. Seja o que for, é melhor não interferir. O cavalo é dado, e olha que dentes bonitos!

 

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