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Abril
/ 2003
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A vitória do menino franzino Por Katia Abreu
"I want to be in a band when I get to heaven / anyone can play guitar and they won't be a nothing any more". Quando Thom Yorke escreveu esses versos em "Anyone Can Play Guitar", de Pablo Honey, inaugurando a discografia do Radiohead, não sabia que se tornaria líder de uma das mais celebradas, cultuadas e mal compreendidas bandas da virada do século. O menino franzino, que se juntou a mais quatro amigos - Ed O'Brien (guitarra), John Greenwood (guitarra e teclados), Colin Greenwood (baixo) e Phil Selway (bateria) - em sua cidade natal, Oxford, para tocar rock no começo da década de 90, se tornou um dos melhores letristas de nosso tempo e o Radiohead um dos melhores grupos da atualidade. Seus versos falavam da sensação de "não-pertencimento", de inadequação à realidade imposta. "Creep", primeiro single, se tornou uma espécie de hino loser ao estourar nas rádios de todo o mundo e mostrou a diretriz que a poética do grupo seguiria ("I'm a creep / I'm a weirdo / What the hell I'm doing here / I don't belong here"). Entretanto, a sonoridade mudou muito da estréia da banda em 1993 até Hail To The Thief, sexto álbum do Radiohead, com lançamento previsto para junho, mas que já está ao alcance de qualquer um na internet. Pablo Honey foi uma boa estréia, mas é um disco apenas regular. Rock básico, mais próximo de referências do underground americano como Nirvana, R.E.M. e Pixies, sem muito rebuscamento, foi meio esquecido pela imprensa britânica que vivia em êxtase com o britpop. O sucesso de "Creep" levou alguns críticos a afirmarem que Radiohead seria uma "one hit wonder" (banda de um hit só, em uma tradução livre). O desmentido veio com The Bends, em 1995. O segundo disco do quinteto de Oxford trazia melodias lindas, tristes e melancólicas, e mais bem elaboradas e sofisticadas do que as anteriores. Novamente a influência vem do novo continente, especialmente de Jeff Buckley, que havia lançado o excelente Grace um ano antes. A voz de Thom Yorke começa a brincar com os agudos e agrada muito aos que dão atenção a esse belíssimo registro sonoro, em um ano que os holofotes estiveram voltados para a disputa entre What's The Story (Morning Glory), do Oasis, e The Grate Escape, do Blur. Ainda assim, The Bends rendeu três singles bem sucedidos: "Fake Plastic Trees", "High & Dry" e "Just". O introspectivo Thom, que já havia dado boas provas de sua competência nas doze faixas de The Bends, entra definitivamente para o rol de gênios da música pop com Ok Computer, álbum em que o Radiohead "desconstrói" a fórmula tradicional de canção pop (estrofe/refrão/estrofe 2/ponte/refrão e suas poucas variações), choca o público com a ruptura em seu estilo (menos guitarras, mais teclados e sintetizadores) e deslumbra a crítica, que elege o disco como o melhor do ano. A tristeza permanece lá. Thom continua se sentindo um outsider, como nos versos de "Let Down" ("and one day, I'm gonna grow wings / a chemical reaction / hysterical and useless / hysterical and... / let down and hanging around / crushed like a bug in the ground"). Mas a timidez e o conformismo cedem espaço a um discurso mais duro contra a tal da realidade imposta em "Filter Happier", que mais parece uma prece contra o sistema de valores da sociedade burguesa. Dois anos mais tarde, depois de terem sido comparados a Pink Floyd, pela inovação que traziam à música e também por alguns conceitos e estruturas usados pela banda, o Radiohead saciou a sede de seus fãs e da imprensa, todos ansiosos para saber o que viria depois da obra-prima Ok Computer. Veio Kid A, e com ele certa decepção de uma parcela dos admiradores da banda. Os meninos magricelos de Oxford realmente queriam experimentar coisas novas e praticamente aposentaram as guitarras neste quarto álbum. Choveram críticas ferozes contra o disco. Gente falando que Kid A era uma pá de cal em cima do rock, que vinha sendo dado como morto por setores mais reacionários da imprensa há já algum tempo. As comparações com o grupo de Sid Barrett continuavam, com o termo "neo-progressivo" usado de maneira um tanto dúbia, podendo ser entendido como experimental e/ou chato. Mas eles não se importaram com isso. Aquele mundo a quem eram tão estranhos queria que eles se adequassem a seu modus operandi? Sem entrevistas, sem clipes na MTV. Sem singles e sem shows. Apenas aquele álbum cabeçudo, que serviu como uma peneira para saber quem de fato estava preparado para a(s) proposta(s) da banda. A Kid A seguiu-se, alguns meses depois, Amnesiac, com músicas gravadas nas mesmas sessões de estúdio. "Sobras", "um Kid B" alarmavam os semanários ingleses, receosos do que viria pela frente. Mas Amnesiac, além daquele monstrinho simpático na capa, trazia de volta as guitarras. Uma espécie de "involução" (sem que se agregue à palavra um sentido positivista) do que acontecera de Ok Computer para Kid A e indícios de que ainda havia espaço para o rock na música de vanguarda dos meninos de Oxford. De 2001, quando Amnesiac veio a público, até agora ficaram todos à espera do próximo Radiohead. A banda editou, no início de 2002, o ao vivo I Might Be Wrong (ótimo consolo para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de assistir a um show da banda) - com canções de Kid A e Amnesiac e uma inédita: a balada "True Love Waits". E deram mais uma prova de que as experimentações e os bits eletrônicos produzidos em estúdio levados a palco, traduziam-se em bom rock, não convencional, é verdade, mas cheio de riffs e reverberações e linhas de baixo e percussão muito bem marcados, substituindo com maestria os sintetizadores e outros aparatos tecnológicos. Mantiveram-se afastados dos olhos e ouvidos curiosos, trabalhando nas canções que entrariam em seu sexto álbum de originais. Em julho do ano passado testaram o material em uma dúzia de shows em Portugal e Espanha. E olhar para Thom Yorke em cima do palco é ter a certeza de que o menino franzino que sonhava estar em uma banda para deixar de ser um "nada", conseguiu o que queria. Mesmo sem conhecer 50% das músicas apresentadas durante o show (metade do repertório eram as tais músicas inéditas, que estavam sendo "testadas"), o público se entregou totalmente ao artista, como se estivesse diante de um deus, que com sua voz, suas palavras e, sobretudo, com belíssimas músicas, dava aos presentes por instantes a tal sensação de "pertencimento" que não encontram na realidade.
Tal dois e dois são... cinco, rock, eletrônica, jazz etc convivem harmoniosamente neste disco, sem, necessariamente, se fundirem ou se sobreporem na mesma canção. Thom Yorke compôs melodias tão boas quanto as de The Bends que ora são acompanhadas apenas guitarras, baixo e bateria, com arranjos de rock - como há não faziam desde Ok Computer - , ora por batidas eletrônicas quase dançantes - como as de Kid A - ou pianos, capazes tanto de suavizar quanto de criar uma atmosfera densa e sombria - tal em Amnesiac. É como se estivéssemos diante de uma retrospectiva, só que com fatos novos. "2 + 2 = 5", que abre o disco, é tão rock e com tanto potencial pop quanto as canções de Pablo Honey. Atenção: pode virar hit em pistas de clubes alternativos por aí. "There There", que provavelmente será o primeiro single de Hail..., tem uma levada deliciosa, embalada por uma percussão bem marcada e linha melódica bem guitar. E a voz de Thom, sempre deslumbrante, entoa em um "quase refrão" mais um ótimo verso para o cancioneiro pop: "just 'cause you fell it, doesn't mean it's there". "There There" poderia estar em The Bends - os riffs lembram muito a faixa que dá nome ao segundo disco da banda. O mesmo se pode dizer da balada "Go To Sleep" (similar à "My Iron Lung"). No meio do caminho entre as origens e o passado recente - talvez como uma "Let Down", do Ok Computer - figura "Where I End And You Begin", canção sobre um desencontro, envolta em uma atmosfera etérea, dada, em parte, pelo teremin. Segue-se o clima denso com o piano acompanhado de palmas (sim, palmas) de "We Suck Young Blood" - uma nova "Pyramid Song". Já "I Will" é triste, mas linda e doce, como "True Love Waits". E "Myxomatosis" vem fazer jus ao rótulo de "novo Pink Floyd", postulado pela imprensa há alguns anos. A eletrônica, que permeia com pequenos toques aqui e ali, quase todas as faixas do álbum, dá as cartas na dançante "The Gloaming" (poderia ser mixada pelo Chemical Brothers e fazer par com "The Test" nas pistas de dança). Em "Backdrifts", mergulhamos em um território ainda não pisado pelo Radiohead: o trip hop (impossível não lembrar Massive Attack). E ao que parece os rapazes gostaram das batidas downtempo. Lá estão elas novamente, com um quê de jazz e soul, em "Punch Up At A Weeding" - qualquer coisa muito próxima de um Groove Armada em rotação reduzida e com vocais um tanto sinistros. Dessa viagem ao passado resultou em Hail To The Thief, um disco que pode trazer de volta algumas ovelhas desgarradas que se perderam com Kid A, com riffs cativantes de guitarras. Um disco que entusiasma fãs fiéis por verem a banda repensar sua sonoridade mais uma vez, indo buscar, desta vez, em seus próprios discos matéria-prima para experimentações. Um disco que mostra que o menino franzino e inadequado aos padrões, o freak da turma de colégio, não é mais um "Zé Ninguém". Em tempo: Nigel Godrich manda avisar que as músicas que vazaram na net não são as versões prontas que serão lançadas em junho. Resta-nos esperar até lá para pegar o cd com aqueles encartes tão legais que só os discos do Radiohead têm e ver, afinal, qual será o resultado disso tudo. |
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