19.05.04

Prazeres conhecidos

Por Juliana Zambelo

Era inevitável que, muito rapidamente, o Novo Rock deixasse de ser novo. Esperava-se que um nome surgisse para substituir esse insosso rótulo provisório. E cá estamos nós, três anos após a descoberta dos Strokes, sem saber direito qual expressão usar para resumir todas as bandas que continuam a nascer graças a essa conjuntura.

A culpa é da mistura não muito especial de diversidade com superficialidade feita por essa nova geração. Uma seqüência de álbuns de estréia que manipulam pobremente uma grande variedade de influências e hits que puxam para a new wave, o punk e o rock de garagem, o shoegazer e chegam até o metal farofa. Às vezes, tudo dentro do mesmo disco.

No meio disso, existe um nicho de grupos que vem buscando recriar um momento específico. Eles não formam uma cena, mas enfileira-los é enfrentar novamente o início dos anos 80. No entanto, se na época parecia absurdo colocar Blondie e Gang of Four lado a lado, hoje tudo é possível. E é especialmente nos momentos em que coisas assim acontecem que as novidades têm soado mais valiosas.

Roupas pretas e delineador
O pós-punk como influência da nova geração começou a aparecer com o Interpol. O álbum de estréia desses americanos, Turn On The Bright Lights, foi lançado em 2002 e trouxe de volta à pauta o dark como resultado da chuva de comparações a Joy Division e Echo and the Bunnymen. Desde então, com gravadoras procurando novos Interpols, nomes como The Stills, French Kicks e Elefant ganharam espaço por ressuscitar elementos que marcaram a Inglaterra nos últimos suspiros dos anos 70.

Os pupilos, no entanto, reproduzem apenas as características mais externas do movimento. Como um totem de banca de jornal, olhados de frente, está tudo ali: a voz grave e séria, o baixo destacado, carregando a música, a guitarra direta e econômica. Já quando vista de perfil, a coisa perde um pouco da graça. Nas dez faixas da estréia do Elefant, por exemplo, há um vazio poético. A melancolia é forjada com muito esforço e com uma variedade temática tão pequena que faz pensar: não existe mais tristeza genuína hoje em dia ou faltam instrumentos (educação, leitura) para transformar isso em boas canções?

Talvez ainda como herança da cultura clubber nos anos 90, o hedonismo transportado para o cenário indie parece uma alternativa levada a sério. O ambiente das canções é a casa noturna, o objeto é uma garota dançando. Assim, para alimentar esse mundo cheio de pistas de dança e pufs confortáveis, a nova mania dark é mais dançável do que Ian McCulloch jamais tencionou ser.

Não apenas por ser o primeiro a aparecer, Interpol é quem mais interessa. É o álbum mais consistente, com as canções mais fortes, os músicos mais criativos e o vocalista mais potente. Criam climas que se sustentam e saem também ganhando no que diz respeito a letras. Ainda que não seja um padrão mantido em todo o disco, eles se esforçam para escapar de frases feitas e isso resulta em momentos inspirados: "Eu tinha sete faces, pensei saber qual delas usar / Estou cansado de passar essas noites solitárias treinando para não me importar". Não é Byron ou Rimbaud, mas Robert Smith também não acertou em cheio no primeiro disco.

Hits truncados para pistas lotadas
Em janeiro deste ano, um álbum chegou às lojas laureado. Ele foi feito por um quarteto de jovens de partes diferentes do mundo que se encontraram em Glasgow e, acessando as partes eruditas de seus cérebros de estudantes de artes, resolveram batizar sua banda como Franz Ferdinand, o arqueduque que blá blá blá (ninguém agüenta mais ouvir essa história).

A garantia de sucesso do álbum foi o single lançado pouco antes: "Darts Of Pleasure", uma bomba pronta para explodir nas pistas de dança. A música que provavelmente será para 2004 o que "House Of Jealous Lovers" foi para 2003, o hit global aglutinador de públicos. Por isso, não foi mera coincidência que juntou Rapture e Franz Ferdinand em uma turnê pela Inglaterra. Cada um com sua própria cara, esses são os dois nomes mais expressivos do ressurgimento de outra ramificação do pós-punk, o das experimentações do Public Image Ltd. e da agressividade do Gang of Four. Gente como os canadenses do Hot Hot Heat e os californianos do !!! reforçam a retomada.

A receita aqui é fazer dançar, mas de um jeito diferente - com excessos, quebras, ritmos truncados. De Andy Gill do Gang of Four e do D.N.A. do Arto Lindsay vêm as guitarras estridentes, cortantes quase a ponto de incomodar. A pulsação humana e a experimentação eletrônica partem da esquisitice do PIL. O vocal, desafinado, gritado, vem de todos esses já citados, além de um pouco de The Cure.

A tropa de 79/80 manuseava elementos de punk e música eletrônica de vanguarda, entre outras coisas. Agora a geração 2000 retoma os mesmos materiais, aproveita os aparatos técnicos disponíveis hoje, e atualiza isso tudo. O ouvinte, completamente familiarizado com os mais diferentes usos de sons eletrônicos, aceita de primeira. Uma das manifestações mais caóticas das últimas décadas renasceu para ser pop.

A diferença entre essas duas vertentes tão próximas dentro do Novo Rock é a questão da atualidade. As bandas influenciadas por Ian Curtis e Bunnymen remetem ao passado, deixando lá atrás, com os originais, a sensação de verdade e de timing perfeito. Por outro lado, o segundo grupo circula mais à vontade nas criações sonoras da new wave e no wave e transforma em sua a inspiração deles. Lydon e Lindsay eram atuais: a experimentação era permitida, a honestidade era essencial. Hoje Rapture e Franz Ferdinand são atuais. A melancolia, desacreditada, cedeu lugar ao cinismo, e a mistura criando coisas novas é o objetivo dos principais artistas. Ninguém quer o velho apenas pelo velho, mas como início do novo.

Franz Ferdinand - Dançarinos esnobes
A ironia com que os ingredientes são misturados é puro Talking Heads. A guitarra é Gang of Four na sonoridade e na seriedade. O nível de energia e entrega da performance é punk do melhor. "Come On Home" é a disco music filtrada pelo Blondie. Até Devo esses caras estiveram ouvindo. Franz Ferdinand está no limite entre não ter personalidade ou ter uma que se define pela diversidade extrema. No entanto, a coesão de seu álbum de estréia não deixa dúvidas de que eles sabem o que estão fazendo e essa confiança é excitante. Eles conclamam que se uniram para fazer as garotas dançarem, o que fazem com competência, mas vão além. Sua música parece refletir o espírito dos dias de hoje: um pouco de profundidade disfarçada de esnobismo e inconseqüência romântica e sexual. "The Dark of the Matinee" é um ótimo exemplo. Por essas e outras, apesar de ter saído quando 2004 mal tinha começado, é possível que o álbum do Franz Ferdinand seja mesmo uma das melhores notícias do ano.

The Stills - Miséria diluída
The Stills vem de Montreal. Seu álbum de estréia, Logic Will Break Your Heart, saiu no final de 2003 e deve ter frustrado aqueles que esperavam pelo novo Interpol. Porque Stills é mais leve. As linhas de baixo são mais New Order e as melodias, um pouco Travis. "Nós somos influenciados por muitas bandas britânicas dos anos 80 - basicamente por aquelas que não são alegres, como The Cure e The Smiths", diz o vocalista em entrevista a BBC, mostrando Stills como uma das poucas bandas que aceitam as comparações. Românticos e dados a sofrimentos, fizeram um álbum agradável e convencional, longe da angústia sincera do pós-punk. Ainda assim, "Still in Love Song" é um belo hino pop.

French Kicks - Quase anônimos
Ainda que sem muito sucesso, a banda lançou One Time Bells em 2002, um álbum de estréia interessante, que denuncia um leque grande de influências, mas usa como base o pós-punk. Se eles deixarem de lado as tentativas de soar como os Strokes em algumas faixas, o segundo disco, que está para sair, pode tirá-los do anonimato. O momento é favorável.

 

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