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Dezembro
/ 2002
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DAS
ANCAS DE ELVIS A 2002
Por
Mário Lopes "The King" não foi, como alguns historiadores à "Big Brother" de Orwell querem fazer crer, o pai do rock'n'roll. Antes dele, já Little Richard editava singles e percorria os States com o seu piano endiabrado e, apenas para citar mais um, Fats Domino havia há muito saído de New Orleans para espalhar o boogie woogie pelos 52 estados americanos. Se quisermos ser mauzinhos, até podemos dizer que Presley nem foi o primeiro rock'n'roller branco. Pois é, "Rock Around The Clock", de Bill Haley & The Comets já percorria as ondas do éter quando Presley perguntava a Sam Phillips, o dono dos Sun Studios, se era possível gravar uma canção para a mãezinha. Tudo isto é inegável. Como também é inegável que foi Presley o primeiro a convocar, num nome e num corpo, uma ideia de rebeldia que ultrapassava a dança descontrolada, em matinés regadas a limonada, para se tornar anseio de mudança. Antes dele, o rock'n'roll era a "música barulhenta" que os pais sabiam que os filhos e os amigos dos filhos adoravam ouvir. Uma gritaria de adolescente que, na geração anterior, havia sido feita ao som das big-bands da época áurea do swing. Depois das ancas em directo na TV, tudo se alterou. O potencial subversivo tornava-se evidente quando os câmaras são obrigados a fixar Elvis apenas da cintura para cima. Nesta altura, quando o fenómeno pop dava os seus primeiros passos, o alcance político do rock'n'roll prendia-se na sua simples existência. No facto de um som novo e agressivo, sexy e urbano, estar a "mexer" tão notoriamente com milhões de jovens. Como o tempo veio a provar, Presley não tinha certamente total consciência do alcance daquilo que despoletava. O homem que em meados de 50 era símbolo de liberdade (alienada e, provavelmente, inconsciente), é o mesmo que, quando os Beatles visitam os Estados Unidos, "corre" a avisar Nixon que acha os Fab Four nocivos para a juventude americana. "E, senhor Presidente, parece-me que eles se drogam", acrescentou, devidamente redneck. Elvis foi portanto, no caminho para o desejado estrelato, despoletador e cristalização icónica. Foi para o rock'n'roll, passe o exagero, o mesmo que uma das mais famosas fotos de '68 foi para o Maio da Paris daquele ano. Nela, uma rapariga, às costas de um manifestante, agita a bandeira socialista. A imagem ilustrava, pungente, um anseio de revolução onde a beleza da figura destacada se aliava à força e urgência da multidão em volta. Entrevistada anos depois, a "tal" rapariga confessava a sua total inocência. Não sabia o que estava em jogo naquele dia. Acompanhando um amigo, encavalitou-se nas suas costas para melhor aperceber o que a rodeava. Passaram-lhe a bandeira para a mão, captou a atenção de um fotógrafo que passava e, clic!, um ícone estava criado. Bébés
e ácidos: sonhar diferente Aqueles já não eram, contudo, os anos de calmaria e prosperidade do pós-guerra. Os Estados Unidos entravam na amarga "aventura" vietnamita e lidavam, entre portas, com a luta dos negros pelos direitos civis e dos estudantes por uma nova construcção social (o que, obviamente, estava directamente ligado com as restantes convulsões). No Reino Unido, a nação descobria, chocada, uma nova geração que não queria a típica gabardine e chapéu de chuva cinzentos, o chá das cinco ou a ideia imperial de Commonwealth. Alimentados a Elvis e Chuck Berry, os baby-boomers chegaram à faculdade, descobriram Howlin' Wolf e Muddy Waters, Pete Seeger e Woody Guthrie e depararam-se, em primeira mão, com um jovem cantor que, sentido consonante com o recém-criado espectro pop, se aventurava por terrenos até então inexplorados. Com "The Times They Are A' Changin'", "Subterranean Homesick Blues" ou "It's Alright Ma (I'm Only Bleeding)", Bob Dylan dá ao público e aos músicos a noção que há todo um mundo por explorar. A noção que uma música feita maioritariamente por adolescentes não tem necessariamente que se restringir às temáticas até então definidas como adequadas. Os "tais" universitários percebem então que o rock'n'roll pode ser, sem restrições, o seu veículo ideal de expressão porque é património exclusivamente seu; porque é, por si só, a antítese do mundo a "eliminar": o legado "adulto". Por isso se aventuram em experimentação, por isso muitos se tornam abertamente políticos. Nos Estados Unidos os Jefferson Airplane gritam "Time to revolution"; os MC5 apelam à população: "Kick out the Jams!"; os Country Joe & The Fish candidatam-se à Casa Branca e, em "Superman", ameaçam Lyndon Johnson: "Vamos dar-lhe ácido, fazê-lo comer flores, beijar bébés". Do outro lado do Atlântico, os Stones falam de um "Street Fightin' Man", os The Who compactam o sabor dos tempos numa frase "Hope I die before I get old" e os Beatles anunciam, em "Tomorrow Never Knows", a nova atitude e o sonho de uma nova vida: "Open up your mind / Relax and flow downstream". Contraria-se Marx e o intervencionismo reúne-se, num só, ao desejo de alienação. Isso mesmo pregava, em Londres, a fanzine International Times (responsável por alguns dos eventos mais marcantes da Swingin' London) ou, nos Estados Unidos, os Acid Tests de Ken Kesey, os Free-Festivals de Central Park e o centro libertário de Haight-Ashbury, em São Francisco. A indústria discográfica, ainda sem grande noção do que tem em mãos, segue o que o tempo vai ditando e deixa que músicos e bandas criem relativamente livres de restrições. Underground era ainda um termo praticamente desconhecido, guardado para o futuro como contraponto e demarcação do mainstream notoriamente "pré-fabricado". O que o hippie convicto que o rock'n'roll iria mudar o mundo não esperaria é que o momento seguinte de subversão activa se desse, em grande parte, como reacção aos "revolucionários" seus contemporâneos. Juventude
grisalha São os tempos áureos de um progressivo e sinfónico cada vez mais distantes da revolução inicial podem ter a certeza que, tivessem sido os Emerson, Lake & Palmer a actuar na televisão americana em 1955, todos recordariam o virtuosismo da banda. Por mais impressionante que fosse o movimento de ancas de Greg Lake, ninguém as fixaria como prenúncio de uma nova era. Aqueles são também tempos de ascenção de cantautores (olá James Taylor) que reclamam a herança de Cash, Haggard ou Dylan, mas a recheiam de rebuçado tão docinho, tão docinho que, chupado sofregamente até ao fim, voltamos ao estado inicial. Ao nada. Para ouvir quem colocasse uma voz activa ao serviço de "arquitectura sónica" estimulante, havia que sintonizar rádios onde a música negra fosse rainha. O "grito" da soul havia percebido o incitamento de James Brown ("I'm black and I'm proud!"). Como resultado, são vários os artistas que abandonam a produção em série de editoras como a Motown ou a Stax (séries de luxo, assinale-se), inciando uma busca de expressão individual que dá ao mundo obras primas como "There's a Riot Goin' On" (de Sly & The Family Stone), "What's Goin' On" (de Marvin Gaye) ou "Superfly" (de Curtis Mayfield). Hei de
cuspir-vos nos túmulos A ideia do novo mundo sonhado há uma década atrás tinha sido abandonado pelos seus "trovadores" da pior maneira: assumindo a sua impossibilidade e "ajeitando-se" desajeitadamente às regras e processos do outro lado da barricada. Musicalmente, a nova explosão recuou à rude simplicidade dos primeiros traços pop, sobrepondo-lhe uma agressiva rebeldia que, novidade, a diferenciam da atitude original. No fundo, e voltando às ancas de Presley, falamos da distância que vai dos meneios do "King" aos espasmos e cuspidelas de Rotten. O mundo, no entanto, já estava avisado. Via, relativamente assustado, um novo formato, mas já há muito lhe conhecia os traços originais. O facto de, desta vez, a atitude nascer de uma marcada consciência política (os Clash à cabeça) e da roupagem ser ainda mais "chocante" que a música, não alterava o quadro geral: "São jovens em bandas rock'n'roll. Hão-de crescer e ser iguais a todos os outros". Ver os palavrões dos Pistols em entrevista à BBC, em 1976, e a forma como Bill Grundy os utiliza para despir o grupo, sem hipótese de contra-resposta, de qualquer conteúdo válido, é perceber isso. Como dez anos antes, a revolução estava condenada ao fracasso. Uma vez mais, a capacidade de absorção da indústria e a tendência da universo pop para o mimetismo visual levou a melhor. O punk tornou-se fashion o processo até se iniciou por dentro. Viviane Westwood, anyone? , as editoras perceberam o potencial da marca e deu-se início ao "franchising" em larga escala. Neste caso, contudo, a "derrota" não foi total. Tal como Dylan uma década antes, Ramones nos Estados Unidos e Pistols em Inglaterra estimularam a mudança. Mas fizeram-no diferentemente. Dylan mostrou que, criados os alicerces, havia que partir para a construcção; o punk, que, de regresso à base, era tempo de erigir novas formas. O pós-punk e a new-wave (o maior legado da geração de '76), não tardaram, e a criatividade disseminou-se em mil e uma direcções. Os Gang of Four acoplam alma negra a um corpo que lhe era estranho, os Pere Ubu fazem de art-rock classificação elogiosa e os Joy Division trazem para a irascibilidade punk uma convulsão que é tanto íntimo como sombra pairando sobre o tecido urbano. Como salienta Symon Reynolds, na edição de dezembro de 2001 da Uncut, o pós-punk é um período em que "a música é sobre muito mais que música. (Os músicos) tinham muito mais em mente - interesses e obsessões, da política ao cinema e à literatura". Todos eles concretizaram em discurso activo e organizado o que o irritado turbilhão antecedente apenas sugeria, mas, nessa altura, já não eram tantos a ouvir. O florescimento da cena havia sido apoiado pela aparição de outros agentes musicais unidos pelos mesmos propósitos. As editoras independentes nascem como cogumelos e lançam música em consonância, mas o grande público está já alheado das transformações. "Video Killed the Radio Star", dos Buggles, inaugura a nação MTV e reúnem-se, definitivamente, todos os vectores indispensáveis à actuação da indústria musical como a conhecemos no século XXI (como lidará com o advento da internet, tardamos em saber concretamente...). Comando
televisivo Neste início de novo século, a cultura pop encontra praticamente concretizado o sonho MTV. Chamada "Music Television", pretendia assumir-se como receptáculo de toda a música para toda a gente. De receptáculo passou a emissora e, agora (em conjunto com várias irmãs mais novas, como a VH-1), pensa-se como gestora principal dos gostos das massas populares. Estas, naturalmente, já lhe facilitaram a vida há muito. Se nos primeiros anos do rock'n'roll, a música era algo sentido à flor da pele, um sinal de pertença a uma enorme comunidade com quem se partilhavam esperanças e motivações, hoje em dia não passa, para as grandes massas, de electrodoméstico. Liga-se o rádio porque está muito trânsito e sempre nos distraímos; roda-se o cd na aparelhagem para ruído de fundo de outra coisa qualquer. Ocasionalmente, a exposição prolongada às canções (sempre as mesmas) que o play-list da rádio nos dá "porque nós queremos ouvir", resulta em paixão assolapada. Nesse caso, até se dá um salto ao concerto do tal grupo para cantar o hit a plenos pulmões não conhecemos obviamente nenhuma outra música. Lá em casa, "tranca-se" a "adoração" em repeat. Tudo isto para dizer aquilo que todos sabemos. A maioria da música que interessa hoje em dia não passa pelos canais de grande divulgação. Da mesma forma, também aqueles que fazem da música activismo estão afastados das luzes da ribalta. Lamentos nu-metal sobre a desagregação familiar, um Marylin Manson, pretensamente inovador, repetindo clichés de Alice Cooper ou jantares de convívio de Bono com a nata política mundial são carta fora do baralho. O seu alcance é nulo, a capacidade de qualquer alteração significativa, idem. Gritar
em pós-moderno Por fim, como garante de actualidade máxima, escolhemos para exemplo de activismo pop duas bandas com edições recentes. Directamente de Londres, os Comet Gain assinam, com Réalistes, o seu quarto álbum. Dos Estados Unidos, em estreia, o super-grupo "underground" Weird War desvenda a estreia homónima. Os primeiros, recorrendo (para evitar repetições) a crítica por mim assinada na revista portuguesa Mondo Bizarre, são "a doçura melódica dos Belle & Sebastian corroída pela ferrugem eléctrica dos Velvet Underground e pelos excessos da wall of sound de Phil Spector". "Out of the shit and into this new century" como assinalam no encarte do disco , recorrem a uma passagem do Manifesto Do Modernista Revolucionário, de Kiko Amat, para justificarem o uso de ferramentas conhecidas. Podemos aí ler que "A adopção de uma determinada estética não é mais que um dos métodos usados para exprimir uma ideia pura e perene; o modo de dar forma à própria alma modernista. Por oposição àquilo que é utilizado, o importante é o uso dado a esses elementos". E, se nos Comet Gain, se reconhece a alma de compositores pop em busca da canção perfeita, a verdade é que "o sonho de guerrilha" não lhes permite limpidez. Cobertas por um manto de "sujidade" estática em regime stereo, as músicas do grupo poderiam ser erradamente confundidas com lamentos de urbano-depressivo caso não se sentisse nelas, a cada momento, um call to arms sob o mote inicial "The kids in the club are in love / The kids in the club will rise above" (e, ao acompanhar o riff sincopado, a batida da pandeireta e o delírio sónico final, garanto-vos que todos sabemos quem está, afinal, no tal clube). "Victims of a system that's forgot of saying I love you", dizem, a determinado momento. Pop de intervenção? Parece-me adequado. Já os Weird War seguem caminhos diferentes. Formados por Ian Svenonius, Michelle Mae (dois ex-Make Up) e Neil Michael Hagerty (ex-Pussy Galore, ex-Royal Trux), são mestres na sátira e no uso da metáfora. Segue-se o mito: a banda é apresentada pela editora (a Domino Records) como uma criação pensada pelo Estado Americano para inclusão na próxima Expo mundial. O objectivo, "celebrar a utilização do rock'n'roll na subjugação pacífica do planeta ao sistema imperialista global". Acontece que, durante o processo, a banda rebelou-se e decidiu antes criar um "poema electrónico" que traísse "todas as regras do rock'n'roll". Como castigo, os membros do grupo foram banidos ou executados. Weird War, o álbum, é o documento proibido dessa insubordinação. E um grande documento que, contrariando a intenção mitificada, assume forma de manifesto rock'n'roll. Ian Svenonius, homem tornado inesquecível pela retórica soul tão bem aplicada ao gospel yeh yeh dos seus Make-Up, mantém o frenesim extasiado de sempre e faz de cada canção uma delirante catarse do personagem central; quer seja o homem que se lamenta, em "Pick up the Phone and Ball", "No one will talk to me / No one will walk with me / No one will touch me / If I don't have the money"; quer seja o "desistente" confessando "Against reality / I live in a dream" ("I Live in a Dream") ou aquele que, suplicante, tenta contrariar a máxima entoada pelo coro: "Ass, gas or grass / No one rides for free" ("Bergers and Fries"). Para movimentar a acção, a banda deita mão ao balanço do funk e combina-o com uma série quase infinita de variáveis saídas da guitarra de Neil Michel Hagerty. Tanto se ouve o delay bluesy dos Canned Heat como o feed-back dos Sonic Youth. Apercebe-se um riff à Hendrix e, no momento seguinte, somos surpreendidos com a tensão de uns Fugazi. Um monstrinho de cara lavada, capaz de provocar efeitos tão agradáveis ao corpo como à mente. Nada mais, afinal, do que aquilo que o bom rock'n'roll deve ser. É certo que nem os Comet Gain, nem os Weird War (que nem são o projecto principal dos seus membros - Ian e Michelle têm os Scene Creamers, Neil Michael Hagerty um muitíssimo recomendável trajecto a solo) chegarão alguma vez a ter exposição massiva. As obras que assinam, essas, num mundo mais perfeito, seriam escutadas atentamente pela multidão anónima. Talvez aí pudéssemos aplicar o famoso "Hoje somos poucos, amanhã seremos milhões". No mundo que temos, fica a consolação de sabermos viva uma consciência pop que, no caso dos Comet Gain, garantirá a imortalidade das melodias (as palavras são muito do presente) e, no caso dos Weird War, a sempre renovada urgência do grito. *
O artigo pretende ser, em traços largos, uma genealogia do binómio
rock/política desembocando em dois nomes, Weird War e Comet Gain.
A ideia é analisar os padrões gerais de época pensados
fundamentais para melhor apreender o rock'n'roll como força interventiva
do passado, bem como as suas implicações no presente escolhido
para representação. Por outras palavras, se o final se debruçasse
sobre os Up Bustle & Out, Bob Marley e os Public Enemy marcariam certamente
presença. Essa, contudo, seria outra história... |
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