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22.06.04
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Ela não é como as outras Por Katia Abreu
Diva do rock alternativo há mais de dez anos, de fato, PJ Harvey não é uma mulher facilmente classificável - tampouco uma artista que possa ser rotulada. É rock, e como todo bom rock, incisiva, direta e, sim, agressiva - e essas são suas as características mais marcantes, desde o primeiro álbum Dry. Mas ela também é triste, melancólica e sexy, como um bom blues deve ser - e talvez o disco mais carregado desde espírito seja Rid Of Me. E arrisca incursões pela eletrônicas (em Is This Desire? e no dueto com Tricky) e experimentações (especialmente em "Man-Sized Sext" e na pareceria com John Parish) - mostrando-se moderna, mas com sutileza suficiente para não soar falsa. E falsa, definitivamente, ela não consegue ser. Pode ser controversa, tímida, discreta, até arredia, se quiserem. Mas falsa, não. As histórias que canta soam tão verdadeiras, que ela faz questão de manter sua vida particular fora do spotlight para que ninguém faça confusão entre a mulher e a artista. Nas raras entrevistas que concede, se esquiva de perguntas pessoais tanto quanto pode. Da vida dela, sabemos apenas que foi criada numa fazenda no interior da Inglaterra e que se mudou pra Londres para estudar artes, de seu romance com Nick Cave (do qual não se tem muitos detalhes, claro) e especula-se que ela agora estaria envolvida com o cineasta Vicent Gallo. Se ela está deprimida, se está feliz, pouco importa. Não é isso que valida seu trabalho; não foram notícias em tablóides que fizeram Stories From The City, Stories From The Sea ganhar o prêmio Mercury em 2000. Se suas letras contam um pouco do que ela é, se carregam traços autobiográficos, é porque o trabalho de qualquer artista o reflete (e o expõe) de alguma maneira. Não é calculado, como acontece com a diva pop Britney Spears, para citar um exemplo que funciona. Sua trajetória em sete discos é cheia de idas e vindas. Não dá para traçar uma linha continua separando a grunge de Dry e a trovadora urbana de Stories From The City... Não dá para dizer que as guitarras eram mais violentas no início por pulsão natural da juventude ou que a relativa calma alcançada recentemente é sinal de maturidade. Pelo menos não ao ouvir Uh Huh Her. PJ Harvey deixa-se contaminar o tempo todo pelos artistas com quem trabalha, (re)agregando elementos a sua música. E foram muitos nesses últimos anos - Desert Sessions (projeto paralelo dos Queens of the Stone Age), Gordon Gano (do Violent Femmes), Giant Sand, Orbital, entre outros. Talvez por isso ela tenha preferido sintetizar todo seu trabalho sozinha em estúdio desta vez: compôs, produziu e tocou sozinha todos os instrumentos (exceto a bateria, que deixou a cargo de seu antigo companheiro de banda Rob Ellis). Uh Huh Her é um disco em que melodias mais tranqüilas - algo sintetizando a sensualidade do blues, leveza do folk e densidade do rock - dão o tom na maior parte das canções. Mas é quando PJ pesa mais a mão nas guitarras, como em "The Life And Death Of Mr Badmouth" e em "Who The Fuck", que a música salta aos ouvidos e vemos que a convivência com os caras do QOTSA e reminiscências de seu passado grunge são capazes de trazer o vigor que canções verborrágicas como essas precisam. E é um álbum sobre o amor - o amor segundo Polly Jean Harvey, a droga de que ela precisa, como canta em "The Slow Drug", melhor música do disco, levada lânguida à trip hop, com a voz emoldurada apenas por sintetizadores. E repete que é amor ou o ser amado o que ela precisa, em "Shame" ("I don't need anything with you") e em "It's You" ("When I'm not with you I walk dark tunnels of my heart / When I'm not with you everything comes apart"). Afinal, talvez romântica seja um bom termo para definir essa mulher. Não uma romântica inocente, a espera de um príncipe encantado, como o senso comum gosta de postular. Uma romântica que persegue um amor (ideal?), sem ser piegas; que, embora muito sensível, usa a ironia e a agressividade como defesa, quando necessário, como ela mesma diz em "The Pocket Knife" ("I'm not trying to break your heart/ I'm just trying not to fall apart"). |
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