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Boas vibrações lisérgicas
Por
Katia Abreu
O nome da banda já entrega, de cara, boa parte de suas influências: Pipodélica. Eduardo "XuXu", Felipe "Batata", M. Leonardo, Gustavo "Cachorro" são de Florianópolis, e certamente ouviram muita música psicodélica quando mais jovens. Escutar o primeiro álbum da banda, Simetria Radial (lançado pela Baratos e Afins há alguns meses), e não se lembrar de Mutantes, Secos e Molhados, Beatles, Arthur Lee e seu Love, Syd Barret e o início do Pink Floyd, entre outras pérolas das décadas de 60/70 é impossível. Simetria Radial traz belas canções, explorando "texturas sonoras" - como o vocalista e guitarrista XuXu deixa claro nesta entrevista - diferentes do feijão-com-arroz que acostumamos a ver por aí, nas bandas ditas de garagem.
Reducionista, posso soar, ao dizer, com todas as letras, é uma banda psicodélica, sim. Eles não concordam. Vão dizer: "Não temos uma sonoridade. Cada música é completamente diferente da outra". De fato, têm razão. Também as músicas dos Mutantes não eram todas diferentes umas das outras, em um mesmo álbum? Entretanto, sigo evocando a psicodelia para "rotular" a banda. Por quê? Oras, justamente pela "vibração lisérgica" - como cantam na abertura do disco - permitir todo o tipo de viagem sonora baseada na formação tradicional do rock: guitarra, baixo, bateria. Power pop? Talvez. Garage? Quem sabe. Mas a psicodelia pode ser pop, pode ser power e pode ser garage. E o Pipodélica é tudo isto.
Eu tinha visto um show de vocês no Upload do ano passado e lembro-me de ter comentado com uma amiga o seguinte: "Beatles, Mutantes... as décadas de 60 e 70 estão aí. Só que eles precisam depurar essas referências, porque soa tudo muito parecido com alguma coisa". Não sei se é algo que acontece nos shows, se vocês trabalharam isso de dezembro até o lançamento do disco... mas o fato é que ouvindo o disco a impressão que eu tive foi justamente a de que as coisas foram acertando e vocês acharam um caminho. Como é que foi o amadurecimento de vocês até a gravação deste disco? E essas referências todas, estou errada ou é isso mesmo?
Acho que tu viu um show nosso bem atípico. Tu deve ter notado que somos dois vocalistas, que os vocais são bem divididos e que usamos e abusamos do jogo de vozes. Bem, isso tu deve ter notado no disco, porque no show, cantei sozinho, já que o Batata ficou bêbado na noite anterior e gritou demais. Estava completamente sem voz no nosso show. Por conta disso, tive que cantar músicas que eu nunca havia cantado antes e o pior, no hotel (poucas horas antes do show), tivemos que inverter todas as guitarras... Passei a tocar as guitarras do Batata e ele as minhas para que pudéssemos fazer o show de forma razoável. Mas sim, pode-se pensar... que diferença faz um só cantando? Te digo que faz toda a diferença. Jogo de vozes (sobretudo ao vivo) é provavelmente a coisa mais forte no nosso som. Quase metade do show foi de músicas já deste disco, que já estava inclusive mixado, na época. Quanto a parecer com alguma coisa, somos ao vivo, uma banda de rock de formação clássica (duas guitarras, baixo e bateria), que usa melodias e texturas sonoras pra construir as músicas. Por parecer com outra coisa, ainda acho que naquele festival (mesmo com todos os problemas), estivemos provavelmente no top cinco dos mais originais, que punham alguma personalidade na coisa. Estivemos outra vez aí em maio e tocamos outra vez no SESC Pompéia antes de irmos pra Bananada e pra Brasília. Uma pena tu não ter estado no show. Acho, sinceramente, que teria outra impressão. Outra impressão do mesmo som. Estranho as pessoas terem nos cobrado tanto por aquele show. O pessoal do Scream & Yell já havia comentado sobre o Upload com a gente há pouco mais de um mês. Mas teve muita gente que gostou também. Sei lá... foi só mais um show que as coisas não deram muito certo.
Freqüentemente, as pessoas têm confundido texturas sonoras com psicodelia (e isso é um bocado perigoso no Brasil pela estreita ligação de psicodelia e Garage que as pessoas fazem aqui) e uso de melodias com som retrô. Até mesmo nas resenhas do disco têm acontecido isso. E isso parece não fazer muito sentido, pois já qualificaram como sessentista, como anos 90, como power-pop, como psicodelia e até (pasme!) anos 80, como disse a Folha de São Paulo.
Não fazia idéia de todo esse imbróglio na apresentação de vocês no Upload. Sobre sempre mencionarmos o festival, é que - embora em apenas duas edições - o festival já meio que virou referência aqui em São Paulo.
Acho que as pessoas deram mais importância do que a gente. Como te disse, foi um show num lugar bacana cheio de problemas. É isso que foi pra nós. Eu acho legal que haja essa referência finalmente sendo criada em São Paulo. Porém, me surpreende que isso passe a ser referência nacional tão rapidamente. Trabalhamos aqui em todo o sul e em outros lugares faz três anos. É porque sempre nos perguntam do Upload... que seja.
Como assim as pessoas confundem muito texturas sonoras, psicodelia e garage aqui no Brasil... poderia me explicar isso melhor? Você não acha que o som de vocês se aproxime da psicodelia? E em que sentido as pessoas confudem essas coisas por aqui? Vocês se classificariam como o quê?
Talvez nem eu saiba explicar direito. Se ouvir o disco com pouco de atenção, vai ver que não temos uma sonoridade. Cada música é completamente diferente da outra. Claro, buscamos uma coesão artística no produto final. Mas tudo que nós tentamos e acho, conseguimos fazer, é ambientar a música. Dar a textura sonora e dinâmica que achamos que a composição (e nisso é fundamental a letra) parece nos pedir. Logo, se quiser ir a fundo, há pitadas de pop, psicodelia, rock, brit pop... tudo que quiser achar, tem ali. Mas não creio que isso faça sentido. Porque quase ninguém analisa (e nem tem que fazer) com tamanho cuidado pra identificar. Se for fazer isso, acho que dá pra ficar louco. Ao menos com a gente. Exatamente porque não buscamos nada em específico. Não faz sentido, porque se analisa pra fazer uma resenha de dez linhas e colocar o artista numa gaveta. Isso porque hoje rock é só mais um segmento. Bem restrito, por sinal. Então, vamos dividir esse pequeno espaço que resta com Forgotten Boys, Prot(o), Frank Jorge, Monokini... Tudo muito, muito diferente. Mas é tudo rock. Pra separar e rotular bandas tão díspares em dez linhas tem que dizer que Pipodélica é psicodelia pura! Texturas sonoras não são necessariamente psicodelia. Radiohead é psicodélico? Se for por aí... Blur e Radiohead são dez vezes mais psicodélicos que a gente. Eu não nego que tenhamos, se quiser analisar, psicodelia também. Mas é bem difuso com várias outras coisas, acho. Te digo que não procuramos isso. No final das contas, pra elucidar e jogar tudo por água abaixo. A faixa 14 do disco ("Um Número") está na Brazilian Pebbles II (coletânea de garage, psicodelia da Baratos Afins) e vai estar na Coletânea da Powerpop Station. A mesma música é power pop e garage? E os produtores das duas coletâneas escolheram essa música porque acharam que era a cara dos respectivos discos. Não fomos nós. Nós achamos engraçado. Isso, definitivamente, faz esse monte de rótulos parecer piada. Acho que temos que simplificar... dizer que é tudo banda de rock (já que estamos nos mesmos espaços) e cada um que tire suas conclusões. Sobre garage... eu não sei porque sempre que se fala psicodelia, necessariamente se faz link com garage. Porém, o contrário nem sempre acontece. Exemplo: Hang The Superstars é garage e não é psicodélico. Garage é batizado assim porque é tosco. É como se conseguia gravar de forma muito precária nos anos 60, montes de bandas de rock, quase sempre iniciantes. As gravações eram precárias. Os Stones dos primeiros discos eram garage. Acho que a psicodelia começou a tomar corpo virando quase coqueluche numa época que, por coincidência, só se dispunha em larga escala, de técnicas de gravação e equipamentos rudimentares. Creio que a confusão vem daí. Psicodelia vem de surrealismo sonoro. Não tem nada a ver com técnica de gravação.
Como é a cena aí em Floripa? Vocês têm onde tocar? E as bandas?
A cena de Floripa... é nova. Portanto, inexperiente, sem tradição, mas também sem vícios. Faz uns cinco anos que começaram a surgir bandas razoavelmente consistentes e que ao contrário de outros lugares tradicionais, não têm nenhuma ligação musical umas com as outras. Porém, dividem saudavelmente público e espaço. Não somos uma cidade roqueira, nem surf, nem psicodélica. Tem de tudo aqui. O público também não se divide. Até metaleiros vão a shows de surf music. Isso é legal. Mas, também tem o lado ruim. Ninguém sabe direito como fazer as coisas. As estruturas pra alavancar uma banda que vem do underground são muito ruins. Digo, rádios e mídia que faz isso em todos os lugares. Cachorro Grande, Vídeo Hits e Bidê Ou Balde aparecem pra todo o Brasil porque têm apoio irrestrito no Rio Grande do Sul. Aqui, ainda apostam sistematicamente há 30 anos em pastiches. Agora parece que as coisas estão mudando um pouco. Pipodélica e Ambervisions (que tá lançando o seu segundo disco pela Monstro) são as bandas mais conhecidas e de maior público. Os Ambervisions têm uma postura sarcástica demais pra entrar na grande mídia. Nós estamos fazendo isso já faz algum tempo. Mas, o que me faz dormir tranqüilo é que não estamos forçando nada. Por ser um lugar pequeno a coisa toda começou quando começamos a tocar fora e os elogios vieram de fora pra dentro. De fato, ainda somos o único nome musical do estado levado "a sério" por imprensa, crítica, etc a tal. Nossos shows, por conta disso, são bem organizados e sempre têm um bom hype em cima. Sempre que possível, tentamos abrir espaço pra outros e acho que tem dado certo. Lugares pra tocar, há bastante. De todos os níveis. E sempre tem banda tocando e público assistindo. Me assusta pensar que em São Paulo, banda independente toca na Fun House, por exemplo. Acho que nesse aspecto, estamos bem melhor aqui.
Que outras bandas - mais novas até do que vocês e o Ambervisions - você destacaria?
Tem uma nova chamada Jeans e outra chamad The Dolls que são bem bacanas. A primeira só tem um EP gravado e quase não foi divulgado A segunda só faz shows. Nada agravado.
E quando você fala em "apostar em pastiches" está se referindo ao que exatamente?
Apostar em pastiches é o seguinte: Essas bandas locais que tocam na rádio são cópia do que o Charlie Brown, Rappa e J. Quest faziam no final dos anos 90. Ou seja, o que querem com isso? Acreditam na fórmula do sucesso e aquele montes de lendas do rock. Mas acaba que ninguém leva muito a sério. Nem mesmo a imprensa. A rádio mantém eles tocando por jabá. Eles tocam na rádio, fazem shows no interior de graça pra rádio e aí todo mundo (rádio e bandas) pensa ou finge que tá tudo bem. Mais ou menos isso.
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