Abril / 2003

Quando a tristeza é sempre o ponto de partida

Por Juliana Zambelo

Era uma vez três rapazes...

Nicholas Rodney Drake nasceu no ano de 1948 na Birmânia, pequeno país asiático, mas viveu pouco tempo por lá. Logo seus pais voltariam para a Grã-Bretanha, onde Nick passaria a maior parte de sua vida. Ele era um garoto bonito e inteligente, mas era introvertido e demonstrava uma certa fragilidade. Falava muito pouco e nunca parecia estar feliz. Gravou discos com suas músicas, mas não fez sucesso, e seu implacável medo de palco não permitiu que ele se apresentasse em público mais do que duas dúzias de vezes. Viveu algum tempo em Paris, mais um tanto no interior da Inglaterra. Porém nenhuma dessas mudanças foi capaz de abrandar a imensa tristeza que aquele jovem carregava. Ele nunca teve uma namorada, o que gerou boatos de homossexualidade. Mas ele também nunca teve um namorado. Aos 26 anos, no ápice de uma séria depressão que se estendia, ele ingeriu uma dose muito grande de anti-depressivos. Sem uma carta de despedida, morreu deixando a dúvida quanto às suas intenções: vencer a dor com remédios momentânea ou definitivamente?

Stephen Patrick Morrissey nasceu na cidade de Manchester, norte da Inglaterra, em 1959. Cresceu em meio a uma família de origens irlandesas de muita repressão católica e poucas demonstrações de afeto. Atravessou a adolescência mergulhado em solidão. Devorava revistas de música e cantava para as paredes de seu quarto. Quando saía de casa, era para freqüentar, sozinho, shows de rock a que poucas pessoas da cidade davam importância. Nunca trabalhou. Não tinha relacionamentos amorosos. Aos 23 anos, conheceu um guitarrista que musicou suas letras. À frente de The Smiths, Morrissey foi adorado por multidões e se transformou em um mito, um dos maiores da música pop. Suas letras e sua persona ambíguas desde o início geraram comentários a respeito de sua sexualidade, enquanto ele negava ter uma. Sempre cantou a infelicidade, como se nada tivesse mudado desde seus dez anos de idade.

Renato Manfredini Jr. nasceu no Rio de Janeiro em 1960. Mudou-se diversas vezes durante a infância até terminar em Brasília, onde rapidamente tratou de conhecer pessoas e criar uma turma. Mas, apesar de se mostrar um amigo carinhoso, foi sempre distante. Uma pessoa difícil de entender, diziam os conhecidos. Em pouco tempo, montou uma banda: Legião Urbana. Fez sucesso. Foi um letrista louvado como genial e enxovalhado como medíocre. Uma farsa e a voz de uma geração. Viveu um grande caso de amor que se tornou público. Envolveu-se com drogas; foi contaminado pelo H.I.V. Não quis lutar contra a doença, passou a tomar remédios apenas nos últimos meses de vida. No dia de seu funeral, uma frase dita por sua mãe aos repórteres foi reproduzida em todos os jornais: "Uma vez ele me disse: 'Mãe, eu só fui feliz na infância'."

Três pessoas, separadas por tempo e espaço que carregam histórias parecidas não é nenhuma novidade. Assim como a tristeza que essas três pessoas em particular traziam consigo não foi rara ou exclusiva. No entanto, eles estão unidos pela mesma arte. E especialmente pelo grande talento (genialidade?) que Drake, Morrissey e Russo colocaram na música que produziram. Contudo, muita coisa os separa. Eles foram como troncos de uma única árvore que, por um capricho da natureza, dessem flores de espécies diferentes.

A dor que eles sentiam era a mesma, a do clássico outsider. A inequação de Nick Drake ao mundo é a mesma de Morrissey e Renato Russo. Eles não se reconhecem parte da realidade que vêem ao seu redor; não se encaixam. Uma historinha auto-explicativa: quando Renato era criança e sua mãe o mandava brincar na rua, jogar bola com os outros meninos e namorar, ele dizia "Não adianta, mãe. Eu sou diferente."

"Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade", escreveu Fernando Pessoa. É a maior angústia do outsider, ter uma visão do mundo mais clara e mais profunda do que o senso comum ("Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê") e testemunhar as pessoas passarem pela vida aceitando todos os tantos defeitos do mundo, sem ao menos se darem conta de que têm nas mãos um rascunho de felicidade ("I've seen you smile / But I've never really heard you laugh"), seguindo seu curso "alheias a tudo, como um relógio numa sala vazia"*. E essa consciência maior, ou ilusão de consciência, que o outsider possui o afasta da vida social, da convivência ordinária ("Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo / Prefiro acreditar no mundo do meu jeito"). Essa é, grosseiramente explicada, a melancolia que unia os dois ingleses e o brasileiro - eles são como soldados que se julgavam (com ou sem razão) os únicos, em todo o pelotão, a marchar no passo certo **.

Entretanto, os modos como os três compositores compreenderam e manifestaram essas suas emoções foram paralelos, cada um deles fixando os olhos em um ponto diferente do quadro. E suas músicas mostram isso, através das letras e da influência que elas têm no modo que cada um encontrou de usar sua voz.


Nick Drake

Alguém tão novo cantando palavras tão tristes

And time has told me
Not to ask for more
Someday our ocean
Will find its shore.

Nick Drake viveu pouco, e produziu pouco. Foram menos de quarenta canções divididas em três discos de cerca de trinta minutos de duração cada, e um álbum póstumo cheio de retalhos.

A marca inconfundível de Drake é a sua voz. Ele canta tão docemente, tão calmamente, que parece estar entoando ingênuas canções sobre barquinhos. E isso está muito longe de ser verdade. Sua voz é baixa e sua interpretação, quase sussurrada. E o pesar enorme que essa voz carrega é contido porque é resignado. Drake não questionava e não lutava contra, ao menos em sua música (e tudo indica, também em sua vida), a angústia que tanto mal lhe fazia. Ele sentiu e entendeu que assim era, e assim seria, independente da sua vontade. E se conformou.

Ele chegou até a se perguntar sobre sua própria atitude: "Till you stop and wonder / Why you never wondered why". Mas nunca demonstrou fazer esforços para entender o porquê da melancolia que sentia ou do mundo que a provoca. No pouco que tentou, não encontrou resposta alguma: "I was left by the roadside all alone / I turned to speak as they went by / But this was the time of no reply".

E, contudo, não há dúvidas a respeito do tormento pelo qual passava. É uma tristeza indefinida, sem direção ou conclusão, mas que se fez presente em quase tudo que ele compôs. Vem da solidão ("I was born to love no one / No one to love me") e da consciência de que ele nasceu para amar uma magia que não existia mais no mundo. Então ele apenas senta, espera e canta suas canções.

Do outsider, Drake vive a sensação de que tudo é irreal. Mais do que Renato Russo ou Morrissey, para ele, "Life is but a memory / Happened long ago / Theatre full of sadness / For a long forgotten show". Mas ele não possui qualquer traço de rebeldia ou de revolta em sua música. Só tem paciência e melancolia.

Alguns biógrafos garantem que ele não pretendia tirar a própria vida. Drake era insone, e engoliu alguns comprimidos a mais para conseguir dormir. Se essa for a verdade, ela nos diz que, mais uma vez, ele apenas aceitou o mal que recebeu e deixou a vida da mesma forma que viveu: em silêncio. Seu corpo foi encontrado por sua mãe pela manhã, deitado em sua cama. Está enterrado no pequeno cemitério da cidade onde cresceu.

Morrissey

Pois nasci nunca vi amor

Last night I dreamt
That somebody loved me
No hope - but no harm
Just another false alarm

O caminho de Morrissey é outro, que existe há milhas de distância da discrição de Nick Drake. Suas letras são espalhafatosas, sangrentas de tão expostas, porque Morrissey é em essência um trágico no sentido mais cômico da palavra. Ele é o tipo de figura que exterioriza sua tristeza rolando pelo chão, puxando os cabelos e chorando copiosamente.

Morrissey choraminga enquanto canta. Ele estica as notas, algumas vezes o máximo possível, e suas músicas são forradas de "ohhh...", a expressão máxima da lamentação humana. Outra marca de suas letras é a repetição de palavras, com o mesmo objetivo de autocomiseração - "So please please please / Let me, let me, let me / Let me get what I want this time". Além disso, Morrissey faz uso de imagens dramáticas, como ser atropelado por um caminhão de dez toneladas ou um ônibus de dois andares. Ele busca conquistar, através da tragédia, atenção e simpatia. E implora, a todo momento, por amor. Esse é o seu ponto mais dolorido, o seu maior problema, e o centro de toda a sua obra.

Morrissey passou os últimos vinte anos respondendo a entrevistas e inevitavelmente sendo questionado sobre sua vida sexual/amorosa. E as respostas não mudaram com o tempo. Ele afirma nunca ter feito sexo e nunca ter se apaixonado. Para uma sociedade como a atual, voltada para o sexo como matéria de consumo obrigatório, especialmente para os homens, esse é um estilo de vida inaceitável. Mas depois de tanto tempo, poucas pessoas ainda não acreditam na sinceridade dele.

E a realidade, como de costume, escapa para a arte. E os discos dos Smiths e da sua carreira solo mostram que Morrissey já sofreu muito por essa sua renúncia - que ele nega ter sido uma opção, mas tão somente o modo como a sua vida se desenrolou. Em "How Soon Is Now", ele clama: "I am Human and I need to be loved / Just like everybody else does". E em "Asleep" ele explica porque quer dormir e não acordar mais: "I don't want to wake up on my own anymore".

E o amor não acontece para ele porque, quando aparece, vem como parte da realidade incômoda e incompleta que Morrissey rejeita. Assim como ele não se encaixa no mundo, o amor disponível não se encaixa nos seus ideais de amor - "When the gulf between all the things I need / And the things I receive / Is an ancient ocean wide / Wild, lost, uncrossed".

Morrissey também escreveu letras com críticas voltadas para outros temas, como religião, violência e comportamento, mas esses assuntos lhe despertavam mais revolta do que melancolia.

Hoje, aos 43 anos, Morrissey vive sozinho em Los Angeles. Em entrevista recente, afirma estar feliz por não ter nem mesmo grandes amigos. E fez a declaração em uma espécie de "Me deixe em paz porque eu estou bem, e nem um pouco surpreso por ainda estar sozinho". Mas o sabor dessa sua alegria, só ele pode saber qual é.

Renato Russo

Seguro entre os discos e livros da sua vida

Quero me encontrar mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui

Apesar da biografia de Renato Russo ser à primeira vista menos "problemática" que a de Nick Drake e Morrissey - ele "viveu" mais, experimentou mais -, a tristeza de suas letras é mais fácil de decifrar. Talvez uma coisa seja conseqüência da outra, e o ato de se colocar mais naquilo que fez tenha tornado a vida de Renato mais fácil. Mas é provável que seja apenas estilo.

Para o filósofo Nietzsche, "o outsider é um profeta mascarado - mascarado até para si mesmo - cuja salvação está em descobrir o seu propósito mais profundo e a ele se entregar"**. Se não totalmente, Renato teve consciência ao menos parcial disso, porque ele sempre agiu como um profeta. Isso está em suas letras, e está em sua voz.

Renato sempre foi grandiloqüente. Suas metáforas tinham proporções gigantescas, e os exemplos são incontáveis: "Faríamos floresta do deserto e diamantes de pedaços de vidro"; "Disseste que se tua voz tivesse força igual à imensa dor que sentes...". Além disso, uma das palavras mais usadas por Renato foi "tão"; tudo era extraordinário: "Tua tristeza é tão exata e hoje o dia é tão bonito"; "estou tão tranqüilo e tão contente". E sua interpretação, explorando a potência de sua voz grave, sempre se ajustou às suas idéias de grandeza - tanto que, ao gravar sua versão para "Clothes of Sand", música do contido Drake, sua voz quase não coube na música, transbordando aqui e ali.

Começando como punk, Renato era a princípio um rebelde cheio de dúvidas. O primeiro disco da Legião Urbana traz uma série de questionamentos, uma revolta ainda disforme e dispersa, porque ele não tem muitas certezas: "Não sei o que é direito / Só vejo preconceito". Renato está começando a olhar para o mundo como um adulto e não gosta do que vê ("Nada era com eu imaginava / Nem as pessoas que eu tanto amava") e se coloca do lado de fora ("Sou brasileiro errado vivendo em separado").

Daí para frente, ele se afasta do mundo, e o olha com cada vez menos esperança. No álbum Dois, ele já tinha a sua "própria lei", mas foi depois da excursão do terceiro disco, Que País É Este, quando a banda testemunhou demonstrações de violência em seus próprios shows, que Renato se deixou levar para o messianismo na defesa ferrenha do amor e do respeito. O mundo, para ele, é então separado em dois extremos: "É o bem contra o mal / E você de que lado está?". E Renato segue, por discos e mais discos, defendendo que "é só o amor que conhece o que é verdade".

Isso não significa que ele tenha resolvido seu problema, porque Russo continuou cantando a frustração com o ser humano, e as canções "Perfeição" e "Os Anjos", com suas enormes listas de defeitos da sociedade, são as melhores provas disso. Até com ele mesmo, o que sentia era insatisfação e desconsolo: "Queria ser como os outros / e rir das desgraças da vida / ou fingir estar sempre bem".

"Meu coração não quer deixar / Meu corpo descansar", canta Renato na última canção do seu último disco (não póstumo). E termina seu trabalho com uma falta de esperança dolorosa: "Ausente o encanto antes cultivado / Percebo o mecanismo indiferente." Enfim, não há beleza e ninguém se importa.


Existem conclusões?
Dos defeitos do mundo, a maldade era a tristeza de Renato Russo e a imperfeição do amor é a de Morrissey. Para Nick Drake, que nunca encontrou um alvo claro para seu desgosto, a vida apenas não tinha graça, não valia a pena ser vivida. Todos passaram seus anos recolhidos em suas casas, cercados de livros, discos, família e poucos amigos.

Eles desistiram. Foram vencidos. Viram que lutar contra a realidade era tarefa além de suas possibilidades. Um frasco de anti-depressivos e a entrega à doença foram as conclusões de Russo e Drake. Eles devolveram a Deus, "com todo o respeito, o bilhete de entrada"***. A negação e a fuga absoluta têm sido até hoje a conclusão de Morrissey. Para Fernando Pessoa (de novo ele), a única conclusão é morrer.

Mas, se isso serve de consolo - e de refúgio -, "existem canções". ****

* Os Cadernos De Malte Laurids Brigge - Rainer Maria Rilke
** Esses trechos e algumas idéias foram tiradas de O Outsider: O Drama Moderno Da Alienação E Da Criação, de Colin Wilson.
*** Os Irmão Karamasov - Fiodor Dostoiévski
**** Do encarte do álbum As Quatros Estações, da Legião Urbana.

 

 

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