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Março
/ 2003
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Inglaterra: a claque do novo rock
Por
Juliana Zambelo No começo dos anos 60, a onda moralizante tomou conta dos EUA numa batalha contra o rock que estava nascendo, ameaçando corromper a juventude através de Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e tantos outros. Sem muitos esforços, os conservadores logo trataram de substituir os maus elementos por uma leva de bons moços que encheram as rádios de canções de amor. Os reforços não tardaram. Não demorou muito até que, liderados pelo sucesso histérico dos Beatles, uma porção de moleques mal encarados cruzasse o Atlântico chutando bundas de cantores românticos para ressuscitar o rock and roll na terra onde ele tinha nascido, configurando o que hoje é conhecido como o fenômeno da "Invasão Britânica". Alguns anos depois, a situação se inverteu. Na primeira metade da década de 70, quem mais sofria a agonia do rock eram os ingleses, que chafurdavam no som progressivo de suas grandes bandas (Pink Floyd, Emerson, Lake & Palmer, Genesis). Foi quando receberam bons ventos do Oeste, mais especificamente da cidade de Nova York. A turnê britânica dos Ramones pela Inglaterra em 1976 e a cabeça de Malcolm McLaren corrompida pelo som nova-iorquino foram as primeiras fagulhas punk naquela ilha, primeiros sinais dos novos tempos. A Inglaterra juntou forças desses dois eventos e superou o marasmo progressivo, fazendo o punk rock mais forte até do que ele foi nos Estados Unidos e dando o fôlego que o rock precisava para sobreviver mais uns bons anos. E eis que chegamos à virada do milênio. E a situação da música não estava boa em nenhuma das extremidades do oceano. De um lado, nu-metal - burro, machista - e pop adolescente. Do outro, o som "cabeça", trabalhado e complexo do Radiohead e seus discípulos de talentos menores e o new acoustic movement - uma lista enorme (Travis, Coldplay, Badly Drawn Boy, Turin Brakes) de artistas e bandas de baladas. De rock "rock", simples e direto, divertido e energético, nem sinal. Até a música eletrônica estava em baixa. E agora, quem poderá nos defender? O novo
rock insurge Desde então, um bom número de novos grupos tem despontado, e a maioria deles possui algo em comum: apesar da descoberta ser inglesa, a força é norte-americana. The White Stripes é de Detroit, Black Rebel Motorcycle Club e !!! vêm da Califórnia, enquanto Yeah Yeah Yeahs, Interpol, Liars, The Rapture, Radio 4 são todos de NYC, conterrâneos dos Strokes. E isso é muito mais do que apenas uma coincidência. A Inglaterra tem assistido a essa movimentação praticamente de braços cruzados, ovacionando e dando um forte impulso através da atuação da imprensa, mas sem ter suas próprias bandas como protagonistas. "De uns dois ou três anos para cá, os americanos estão dando um banho nos ingleses. Depois da queda do Britpop, a Inglaterra produziu pouca coisa digna de elogios. Os americanos, por sua vez, reagiram com uma cena underground estupenda", defende Kid Vinil, que hoje cuida, entre outras coisas, do seu programa de rádio ("Última Hora", na Brasil 2000) onde toca essas novidades todas. "É impressionante a quantidade de novas bandas americanas, e a maioria excelentes. Isso prova que os americanos estão muito mais criativos que os ingleses (e olha que eu já fui um grande defensor do rock inglês)". Mesmo para os próprios ingleses, sua atual desvantagem é clara, e assumida: "O problema com as bandas britânicas nesse momento é que elas são muito fracas. Elas são terríveis", é a opinião de James Oldham, sub-editor do semanário New Musical Express, publicada no jornal The Guardian. No começo de 2002, o NME até que tentou. Estampou em sua capa a matéria "Esqueça os Strokes: aqui está a Grã-Bretanha", listando dez bandas que iriam "acontecer" nos próximos meses. Porém, independente da qualidade dos álbuns lançados (alguns bons, outros nem tanto), nenhum daqueles grupos acabou por alcançar o prestígio ou a polêmica provocada pela banda de Julian Casablancas. Porque foi isso, o boca a boca, o hype exagerado, o blablabla que fez com que os Strokes não só saíssem do underground, mas trouxessem com eles um rastro de acontecimentos e fossem responsáveis pelo retorno da estética do rock como moda em vários campos além da própria música. E ter acontecido dessa forma suscita uma série de questões impossíveis de serem respondidas: o levante do rock foi uma conseqüência inevitável, um acaso ou nada mais que uma armação de gravadoras e revistas para aumentar o faturamento? Tivesse Manu Chao recebido a atenção dada aos Strokes há dois anos, o hype da vez poderiam ser os grupos latinos? Não dá para saber, tudo é possível. Porque existe muita música boa sendo feita, então por que essa foi "a escolhida"? Para Alexis Petridis, crítico de música pop do Guardian, a equação é simples: foi apenas uma questão de lugar certo e hora certa. "Soterrada por DJ's sem carisma, grupos pop idênticos e bandas de rock intocáveis, a cena musical inglesa estava precisando desesperadamente de algumas personalidades. A Banda Mais Promissora antes da chegada dos Strokes era Starsailor, um jovem quarteto vegetariano que incorporava as principais características do rock britânico: uma crença ardente no estudo de música, muita humildade e um quase patológico desinteresse por moda. Entram os Strokes, que parecem rock stars, falam como rock stars e agem como rock stars, brigando durante sessões de fotos, shows e festas. Seja lá o que for que você acha desse mau comportamento, uma crença ardente no estudo de música parece bem maçante em comparação", escrevia ele, já em agosto de 2001. Em pouco tempo, outro centro de novas bandas despontou. Também descoberto pelos ingleses só que, mais uma vez, não vindo da Inglaterra. Da Suécia começou a surgir a segunda onda de novas bandas, lideradas pelos bicolores do The Hives e seguidos por nomes como The Soundtrack of Our Lives e International Noise Conspiracy. Foi quando a Austrália se manifestou, exportando para o mundo o The Vines, que subiu direto para o topo das listas das bandas mais badaladas da atualidade. E vindos da vizinha Nova Zelândia, os Datsuns desembarcaram em solo inglês também chamando a atenção. A movimentação foi tanta e a falação, tão fértil, que essas bandas são hoje atrações nas premiações pop da MTV, são analisadas em cadernos de cultura de jornais sérios, figuram entre estrelas de Hollywood em talk-shows da TV americana e ocupam lugares até em trilhas-sonoras de novelas da TV Globo. Se o sucesso é merecido ou não é uma discussão que se espalha cada vez mais inflamada. Contudo, por mais que acusações de fraude pipoquem aqui e ali ("as bandas não são originais" ou "é tudo armação do NME"), basta ligar o rádio, folhear uma revista qualquer de música ou passar vinte minutos em uma balada de rock para se ter certeza de que o "novo rock" (nome dado a todo começo de movimento, e que está sendo usado mais uma vez) já se tornou o ramo principal da música alternativa hoje e uma novidade que está ganhando cada vez mais visibilidade no mainstream. O rock merece ser salvo? Um bando de garotos repetindo o punk rock sem o mesmo brilho do original tem importância? A resposta - um "sim" entusiasmado - tem vindo do público. A reação Como sinal dos tempos, a Evening Session, programa da Radio 1 da BBC (principal estação pop do Reino Unido) ligado ao surgimento e crescimento do Britpop nos anos 90, deixou de ser transmitida. Em um texto de despedida, o DJ do programa sentenciou: "De várias formas, 2003 está começando a parecer muito com 1993 - um ano que teve a velha onda se retirando para ser substituída por alguma coisa nova e possivelmente alguma coisa grande." E a verdade é que a Inglaterra tem sido, até agora, nada mais do que um tipo de testemunha para essa "coisa". Mesmo assim, os ingleses ainda buscam conseguir um espaço nessa maré. A principal esperança inglesa no momento é um quarteto de Londres chamado The Libertines. Descobertos pela imprensa há vários meses, eles lançaram seu primeiro álbum recentemente e se confirmaram como "a resposta inglesa aos Strokes". O Clinic, banda de Liverpool, lançou seu segundo álbum no começo do ano passado mas, apesar dos elogios recebidos, não foi muito longe em termos de popularidade. Há também The Electric Soft Parade, The Music e The Coral, mas esses ainda não ultrapassaram o círculo britânico, ou seja, não alcançaram nem mesmo as outras duas pernas do tripé que nos importa (Inglaterra / EUA / Brasil). E, para terminar, há pouco tempo e ainda sem tanto estardalhaço, outra banda apareceu e demonstrou potencial para novo hype. Se trata do The Eighties Matchbox B-Line Disaster que, apesar do péssimo nome (difícil e longo demais numa era de bandas de nomes curtos), lançou o delicioso single Celebrate Your Mother, uma das melhores músicas do ano passado. Mas, apesar dos esforços, isso foi só o que a Inglaterra teve de fresco para oferecer. Para Kid Vinil, "a força criativa inglesa ainda se manifesta em novos nomes como Doves, Lemon Jelly, Idlewild, Cooper Temple Clause e Candidate, mas ainda é pouco diante de todo processo criativo americano". Para ele, o problema é que "os ingleses começam a ficar limitados nessa procura por bandas com influências de sixties, punk/new wave, essa fórmula acaba se desgastando. Enquanto eles procuram desesperadamente um novo Strokes, como o Libertines, por exemplo, os americanos atiram em todas as direções e não ficam presos a um só estilo musical". Porque é certo que, apesar de todos estarem sob o mesmo guarda-chuva do "novo rock", essas bandas não constituem uma cena no sentido mais aglutinador da palavra - elas não possuem tanta coisa em comum além de estarem surgindo no mesmo momento e resgatarem elementos de rock básico. Boa parte delas faz uso de influências diversas, o que tem ampliado a variedade de estilos (enquanto o BRMC descende de Jesus and Mary Chain, o Interpol brota de Joy Division e Echo and the Bunnymen, White Stripes parte de um som de garagem e The Rapture e !!! mexem com eletrônica). Daqui para frente, o mais provável é que a reação inglesa leve um tempo para acontecer. Os Estados Unidos perderam seu grande movimento dos anos 90, o grunge, muito cedo na década, enquanto o Britpop se estendeu por mais anos. Como resultado, se os americanos viveram num certo vácuo por mais tempo durante a década passada, isso significa que eles, por outro lado, tiveram mais tempo para enterrar o passado, livrar-se dos fantasmas e gestar algo novo, processo no qual a Inglaterra está entrando apenas agora. Existem, contudo, boas previsões para o futuro. "Do dia para a noite, uma nova cena surgiu", diz Richard Todds, um promoter de clubes de rock na Inglaterra, para o site Northnights. "Mas garotos não aprendem a tocar guitarra do dia para a noite, então vai demorar um ano ou dois até que nós tenhamos uma cena musical realmente saudável, mas está ficando bom de novo. Eu acredito que pode ser tão bom quanto o começo dos anos 80, quando todo mundo estava em uma banda, se nós dermos tempo para isso". Ok, o tempo será dado até que os ingleses definitivamente descruzem os seus braços e deixem de ser apenas uma claque muito ruidosa para voltar a fazer boa música em quantidade - o que não significa emular o rock americano. Porque a pátria-mãe de tantas bandas essenciais para a história da música pop não pode se resignar no papel de espectadora por muito tempo. Quanto maior a concorrência e o número de reações e respostas que os britânicos lançarem aos americanos e vice-versa, maior é a chance de renovação da música. Ou, na pior das hipóteses, pelo menos maior vai ser a diversão. |
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