28.04.04

Folk pincelado de negro

Por Juliana Zambelo

Em 1966, Andy Warhol dirigiu um filme de três horas e meia chamado The Chelsea Girls. O longa trazia artistas underground, do grupo de esquisitos que orbitava Warhol, encenando pequenas histórias em diferentes quartos do Chelsea Hotel.

Um das estrelas do filme era Nico. Nascida na cidade alemã de Colônia, ela chegou aos Estado Unidos nessa época trazendo um currículo curioso. Como atriz, fez uma ponta em La Dolce Vita, de Fellini. Mas sua experiência como cantora resumia-se à gravação de um single com a participação de Brian Jones e Jimmy Page. Isso antes de se infiltrar, com a ajuda de Warhol, no Velvet Underground e escrever a parte mais notória de sua carreira.

O capítulo mais pessoal, no entanto, foi escrito fora da banda. Em 67, enquanto o álbum Velvet Underground & Nico era lançado, ela juntou canções de Bob Dylan, do estreante Jackson Browne, de Lou Reed, John Cale e Sterling Morrison, botou os últimos três para tocar e gravou seu primeiro disco solo.

Ainda que um pouco desigual, o repertório de Chelsea Girl é de extremo bom gosto. Com colaboradores de estilos tão diferentes, o disco sofre um pouco para encaixar o hippismo levemente otimista de Dylan e Browne nas rebarbas lúgubres de Reed e Cale, mas no fim consegue construir uma certa unidade através dos arranjos e da voz profunda de Nico. Porque o vocal, tão grave e dono de um sotaque caricatural, acabou chamando para as músicas tons mais escuros, violinos e cellos sombrios. O resultado é mais acústico e orquestrado que as faixas que ela cantava no VU.

O álbum é aberto por composições de Browne, duas canções que exalam uma tristeza calma. "Ultimamente eu tenho pensado muito nas coisas que eu esqueci de fazer e em todas as vezes que eu tive a chance de fazê-las" é uma das confissões de "These Days", destaque do álbum que brilha na interpretação de Nico. Adiante, "I'll Keep It With Mine", linda canção de Dylan sobre amor e generosidade, ganha ainda mais encantos com o sotaque alemão.

As faixas assinadas por Cale e Reed são as mais experimentais. "Chelsea Girls" é a versão musical do filme de Warhol. Cada estrofe conta uma história; cada conjunto de quatro versos corresponde a um quarto daquele hotel. "Winter Song", de Cale, tem o andamento de velhas cantigas medievais e uma letra que remete a poesia romântica. Em "It Was a Pleasure Then", a voz serpenteia e se enrola nas distorções de guitarra. O resultado é de arrepiar.

A arte de arrepiar, contudo, foi melhor desenvolvida nos trabalhos seguintes. Em The Marble Index, por exemplo, produzido por John Cale. Assim Chelsea Girl ficou sendo o mais acessível trabalho de Nico. O disco ideal para uma loira lindíssima de voz grave e mãos fortes.

 

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