09.01.04

Malandros e revolucionários

Por Bárbara Lopes

O rapper MV Bill
Em boa parte, o sucesso de À Procura Da Batida Perfeita de Marcelo D2, especialmente do lado de cá da linha da miséria, se deve à promessa de uma volta idílica ao passado. O encontro do rap com o samba diz que o malaco violento e pouco jeitoso pode aprender a gingar e ficar mais parecido com o malandro da época getulista, cujas armas eram só a simpatia, algum estelionato e, no máximo, uma navalha. D2 encarna essa fantasia, o rapper gente boa, maconheiro, pacato. Dá até pra imaginar os chapéus panamá de volta à moda e à venda na Daslu.

É reconfortante, para a classe média, já que a outra perspectiva possível é apresentada pelos sisudos Racionais, MV Bill e adjacentes, que não exibem nenhuma malemolência e são as cassandras de uma guerra civil que vai fazer a violência atual parecer uma briguinha no playground. Uma possibilidade bem plausível em meio à miséria. De uma forma mais organizada, mais explicitamente política - logo, antiquada -, seus líderes não querem saber se havia um paraíso antes da queda para o qual se possa voltar. São messiânicos, revanchistas, assertivos, pouco afeitos a duplos sentidos.

A polêmica do Skol Hip Hop Manifesta (o festival, que acontece em Florianópolis e que deveria acontecer no Rio, é organizado por empresários cativos da revista Caras, como Alexandre Accioly, Luciano Huck e Pedro Paulo Diniz, com ingressos a R$40) é entre essas duas correntes, são dois mitos duelando pela prevalência. O bom malandro que consegue dar um chapéu no bar da esquina e não pagar a bebida e o revolucionário linha-dura que nem bebe (parou de beber, por disciplina religiosa ou partidária). É o dilema entre apavorar o playboy ou tenta tirar proveito dele. (E também o dilema do playboy, entre mandar os seguranças ou conquistar a simpatia do mano). É também a mesma disputa que causou a recente cisão no governo Lula: uma social-democracia para acalmar os ânimos ou a ditadura do proletariado com todos os sacrifícios humanos que ela impõe.

Como no PT, que lavou roupa suja fora de casa quando chegou ao poder, é previsível que a questão venha à tona neste momento, em que a cultura hip hop conseguiu se entranhar nas periferias de todo o país, fazendo com que o Capão Redondo fique mais próximo da Cidade de Deus que da avenida Paulista. O próximo passo é aumentar as fileiras (tanto faz se culturais ou políticas, se público para shows ou milicianos para o levante). O troféu são nossos corações e mentes e os dois mitos miram no mesmo lugar: a mídia. Seja com Marcelo D2 fazendo especial na MTV, seja com Mano Brown se recusando a aparecer na televisão. Ou, como muito espertamente fazem MV Bill e Celso Athayde, que por um lado se escondem, por outro, fazem circular manifestos por e-mail a cada boa oportunidade. E que conseguiram fazer o evento ser cancelado no Rio, promovendo o medo através de ameaças veladas, dizendo nas entrelinhas: "a gente até pediu pra eles não quebrarem tudo, mas quem pode garantir?".

A partir daqui, as coisas ficam mais confusas. Racionais não aceitam tocar no festival para não serem usados pela organização; D2 aceita porque pensa (eu imagino) que pode usar os organizadores. Todos pensam que usam a imprensa e a imprensa pensa que está usando todos. Resta saber pra quem vai sobrar o papel de otário.

 

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