Maio / 2003

Pop é pop mesmo

Por Juliana Zambelo

Lloyd Cole

Dizem por aí que os anos 80 estão de volta. Verdade, em parte. Porque dois dos fenômenos mais interessantes que se manifestaram naqueles tempos entraram em processo de extinção na década seguinte para se tornarem hoje pouco mais do que lembranças.

O primeiro é a música pop de qualidade. New Order, Elvis Costello, Pretenders, B52's e mais uma bela lista de nomes que faziam música POP, simples assim, em geral sob o rótulo new wave, com orgulho e com competência. Hoje em dia, tudo parece ser mais radical e segmentado (inclusive as misturas mais bem feitas), indo na direção contrária da universalidade que o pop preza tanto, enquanto o mainstream fica entregue a artistas de qualidade duvidosa e honestidade questionável.

A outra vítima de extinção foi a influência do grupo Television. Ela atualmente parece cada vez mais remota, contudo foi responsável naquela década - entre outras coisas - pela existência de uma série de garotos que cantavam com entonações estranhas. Por culpa de Tom Verlaine, bandas como Felt, The Go-Betweens e The Fall traziam à frente do palco vocalistas interpretando as letras de um jeito "engraçado", como se fossem sotaques de países absurdos ou problemas no maxilar.

Um nome subestimado que se encaixa nas duas descrições acima é Lloyd Cole. Cantando de um modo levemente empolado, Cole produziu pérolas da música pop, leves e ao mesmo tempo sublimes em sua aparente simplicidade, mas que chafurdam hoje em um injusto esquecimento.

No início da década de 80, Cole saiu da Inglaterra, onde nascera, para estudar filosofia na Universidade de Glasgow. Lá montou uma banda que, após formações diversas, acabou por se cristalizar em um quarteto chamado The Commotions. Essas cinco pessoas aproveitaram a companhia umas das outras por alguns anos, produzindo três álbuns nesse período. O melhor da parceria está reunido na coletânea 1984-1989.

Guitarra de som limpo à frente, sem protagonizar muitos solos, baixo e bateria discretos, melodias fáceis e letras inteligentes compõem praticamente sozinhos um disco que por pouco não é nota dez.

O álbum segue a linha cronológica. Parte de Rattlesnakes, estréia de 1984, e começa - que óbvio! - com "Perfect Skin", aquela que poderia ser chamada de o one hit de Cole. É a típica canção perfeita que já nasceu clássica, redondinha e sedutora, de assimilação imediata sem ser vulgar. É seguida por "Are You Ready To Be Heartbroken?", que não fica muito atrás: música caprichada e ótima letra ("Not even the government are gonna stop you now / But are you ready to be heartbroken? (...) Are you ready to be bleed??").

Quando chega à porção do disco Easy Pieces, de 85, o CD perde um pouco da qualidade e do bom gosto, esbarrando na "música de publicitário", do tipo que soa pasteurizada. "Brand New Friend" é o melhor exemplo desse tropeço, com seus incômodos teclados e backing vocals datados. Sinal dos tempos; poucos artistas pop conseguiram sair ilesos dos anos 80 sem se deixar levar para o lado yuppie um dia ou dois. Mas nem tudo se perde: "Lost Weekend" é uma honrosa exceção, cheia de imagens deliciosas e belos versos. E a coletânea termina sem maiores problemas, com as músicas tiradas de Mainstream, lançado em 1987. O ritmo contagiante de "My Bag" e o lindo ar de pureza de "Jennifer She Said" jogam sem esforço o álbum para cima novamente. (Detalhe curioso: é isso mesmo, a compilação de nome 1984-1989 termina em 87.)

O truque que ilumina as melhores letras de Lloyd Cole é sua atenção a detalhes, que cria personagens e situações a partir de descrições fragmentadas. "Perfect Skin" constrói a imagem de uma mulher usando elementos aleatórios e "Jennifer She Said" fala de um rapaz que tatuou o nome da namorada e se arrependeu - um ato corriqueiro despertando a luta entre o ideal do amor eterno e a realidade dos romances que acabam ("That's forever she said yes forever / But you change with the weather / And this is the rain").

Agora o revival oitentista parece ter chegado para ficar por algum tempo. No entanto, como todo revival, tem ficado preso aos extremos, do kitsch electro de Miss Kittin ao ar sombrio de Interpol. Pena que ninguém parece lembrar que essa década, que de perdida não teve nada, possuía um recheio pop tão saboroso.

 

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