Dezembro / 2002

Boas perguntas exigem boas respostas

The Libertines

Por Juliana Zambelo


O tempo passa, o mundo gira, algumas bandas engendram pequenas revoluções sonoras e fazem o mundo mais rico, empurrando a música para novos patamares, enquanto outras fincam o pé no feijão-com-arroz do rock'n'roll e fazem o mundo mais feliz. E uma banda que se chama "os libertinos" já escolheu e deixou muito claro, logo de cara, qual o seu lugar nessa cadeia alimentar.

The Libertines é um quarteto de Londres sobre o qual não é possível dizer muito, porque os caras adoram mentir; inventam uma porção de histórias e dizem um monte de bobagens divertidas nas entrevistas. O que se sabe é que eles têm sido cozinhados há meses pela imprensa musical como a grande resposta britânica aos Strokes. E agora, que acabam de lançar seu primeiro álbum depois de dois singles badalados, todos podemos respirar aliviados e comemorar: pelo menos essa promessa foi cumprida por completo. Up the Bracket é mesmo o "novo Is This It". É a melhor estréia do ano e disco mais excitante lançado desde que os queridinhos nova-iorquinos colocaram a cena roqueira em erupção, há cerca de um ano e meio.

E os dois álbuns se parecem não apenas em qualidade, mas também no som. É rock básico, com muita energia concentrada em canções de três minutos, e com a cabeça empacada no universo punk dos anos 70. Mas o Libertines não é uma cópia requentada da cena de Nova York, como se fosse um Rouge para os Las Ketchup de Julian Casablancas e Fabrízio Moretti. Ao contrário, eles são profundamente ingleses. Fazendo uma comparação de certa forma simplista, Strokes está para o Television, com algumas faixas mais contidas e solos de guitarra, enquanto o Libertines está para o Buzzcocks, o lado mais melódico e "alegre" do punk britânico, com pitadas generosas de The Jam. Up the Bracket é como uma coletânea que trouxesse apenas as faixas mais rápidas dos Strokes; uma seqüência com "Someday", "Last Night" e "NYC Cops" estendida para todo um CD de 12 músicas. Explosivo do começo ao fim.

A banda tem dois frontmen guitarristas e vocalistas, Pete Doherty e Carl Barat, mas suas vozes não são fáceis de distinguir. Um deles puxa para o lado Iggy Pop, com um quê de demência, enquanto o outro faz lembrar um Julian Casablancas mais maduro e disciplinado.

No quesito produção, Libertines sempre teve boa companhia. Um dos singles contou com uma mãozinha de Bernard Butler (ex-guitarrista do Suede), enquanto o álbum ficou a cargo de Mick Jones, ex-membro do The Clash. Com uma ajuda desse calibre, dificilmente daria errado.

A faixa-título começa com um grito indecifrável que sugere talvez uma homenagem a "Raw Power" dos Stooges (que também começa com um tipo de um muxoxo bárbaro). Algo como um tributo primitivo, possivelmente. É umas das canções que mais se destaca no álbum, ao lado de "I Get Along" e "Time for Heroes". "Horror Show" é a mais insana de todas, enquanto "Radio America" é a única música que diminui o ritmo. E todas tratando dos mesmo assuntos jovens urbanóides: brigas, drogas e garotas.

Pena que a faixa "What a Waster", lançada anteriormente como single, tenha ficado de fora do álbum. É a melhor composição da banda e uma das cinco melhores músicas do ano. Mesmo assim, Up the Bracket não tem nenhuma música que seja ruim. Uma ou outra mais fraca, certamente. Mas nenhum fracasso. Ele é redondinho e gostosinho. Trinta e poucos minutos que vão te fazer enlouquecer, dividido entre as referências do passado e o cheiro de tinta fresca, uma sensação estranha de que SIM, um dia isso ainda vai ser lembrado e reconhecido como um momento de efervescência. E pode apostar: The Libertines vai ser um daqueles merecedores de um lugar alto no pódio.

 

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