23.02.04

Mamonas Suicidas

Por Julio Ibelli

Löis Lancaster, 31, é um baluarte da música roqueira que é feita hoje no Rio de Janeiro, disparada a melhor do país. Avesso às influências melódicas praieiras que tanto determinam o trabalho da maioria das bandas cariocas ainda desconhecidas para o grande público, Löis e o seu grupo Zumbi do Mato injetam no rock brasileiro uma crítica social digna de ser atribuída a uns certos Mamonas Assassinas, dopados e com um pouco mais de instrução nessa ocasião; com arranjos que imprimem nova percepção ao termo 'cru'.

Para quem for se aventurar em conhecer o trabalho do Zumbi do Mato, entrar em contato com o material de outro mad man fluminense, Rogério Skylab, é quase que uma obrigação. É por essas e outras que as duas atrações da cena do Rio prometem um disco conjunto para o ano que vem.

Por e-mail, Löis comenta sobre essa parceria doida, sua iniciação musical tão peculiar (alguém com o discurso musical do cara só pode mesmo ter ouvido Roberto Carlos na infância), seus gostos, projetos e pitacos. E ainda sobre o ato de desejar a morte de alguém em público, que não rende processos, e sobre cheiros de objetos estranhíssimos que lhe lembram pessoas que passaram por sua vida, enfim, coisas peculiares ao figura, que você só vai descobrir quando ouvir o Zumbi do Mato

Conte como foi o início do seu envolvimento com música.
Ouvindo, foi desde cedo. Meu pai sempre gostou de música clássica, e eu ouvia rádio para a música popular. No início na casa da minha avó, que era pra onde eu ia depois da escola. Como eu não escolhia o dial (nem tinha preocupação com isso) era Roberto Carlos e similares o tempo todo. Quando consegui ter um som no meu quarto, a Fluminense foi A rádio, descobri vários grupos através dela, sobre os quais lia na seção "Porão" da antiga Bizz. Aos 13 anos mais ou menos, no final do ginásio, comecei a cantar enquanto um amigo tocava violão. Fizemos uma apresentação no colégio cantando algumas músicas do Legião Urbana e do Oswaldo Montenegro. Sempre achei o tom utópico das letras dos dois (Renato e Oswaldo) muito semelhante, aliás. Na época, 85/86, nós lá no colégio curtíamos as duas coisas. Hoje em dia acham uma bizarrice eu gostar de Oswaldo, mas o Legião já virou um "Raul", ninguém reclama. Acho isso muito engraçado. Mas então, eu fui tentar montar um conjunto nessa época, e só quem sabia mesmo tocar era esse amigo do violão. Os outros escolheram seus instrumentos pra aprender, e sobrou o baixo pra mim. Então, comprei um Gianinni Sonic e entrei em aula pra aprender. Fui o único! Hoje em dia, essa galera toda foi ser advogado, médico, engenheiro, funcionário público. Ninguém seguiu em frente na música, nem o violonista.

Existe algum nicho dentro do "assalto cotidiano legalizado" em que vivemos, onde o Zumbi do Mato tem mais apego, mais se inspira?
Sempre onde há maior má-fé, covardia. É como um grito, eu acho. E não precisa ser com coisas "grandes", que afetem muita gente. Há pouco tempo, por exemplo, fizeram chantagem com um amigo meu - que é artista e exerceu sua liberdade de expressão - ameaçando-o de um processo. Na minha opinião quem faz isso merece ser linchado em praça pública. Todo mundo é bonzinho em Dogville. Não são só as instituições que nos oprimem. Temos que lembrar que elas só funcionam através de pessoas, pessoas como nós, em que se pode bater, cuspir, ou no mínimo desejar a morte publicamente, já que isso não constitui calúnia e portanto não está sujeito a processo.

Você e seus companheiros de Zumbi do Mato têm um limite, onde o abstrato descaradamente inspirado por fatos reais não pode chegar no trabalho da banda?
Não. Mas não são apenas fatos reais que nos inspiram. Você ficaria surpreso ao ver a quantidade de "segredos" escondidos em cada música, e de alusões a vários campos do saber e da ignorância. Por exemplo, quem não conhece a piada original não sabe que "Buceta Raspada Arranha Homem Mal Acostumado" na verdade está lá por causa do acrônimo B.R.A.H.M.A. "Música Polisensorial Do Tom Waits Para Surdos" é outro exemplo: toda a música saiu da idéia de criar uma "música para surdos", executada com e para o surdo através de estímulos aos outros sentidos dele. Só que essa música tinha que ter um "manual de instruções", pra pessoa saber o que deve fazer com o surdo. E como nosso canal com o público é a música, resolvemos musicar o "manual" para o Zumbi. E o interessante da coisa está no papel do título, que não diz o que a faixa é, mas qual o tema dela. Isso seria comum se o tema fosse "Baleias", ou "Receita Para Se Fazer Um Herói", mas parecendo tão claramente uma definição da faixa, soa incomum, meio paradoxal, interessante. Isso não tem nada a ver com o cotidiano, a não ser na pequena parte "cheirando uma máquina de escrever", que remete a um trapo de limpar tipos de uma antiga máquina de escrever que eu ganhei de presente (o trapo, não a máquina) de uma amiga que considero muito, e de vez em quando cheirava para me lembrar dela.

Quais foram as conseqüências para a banda ao participar das duas edições da coletânea Tributo ao Inédito?
Conseguimos fazer quase a totalidade dos nossos shows em 2003, e conhecemos muita gente interessante, além de estreitarmos nossos laços com outras pessoas. Graças ao Tributo..., por exemplo, metade do Zumbi (Henrique e Ricardo) está também tocando com a Martha V, como baterista e baixista, respectivamente. Nenhum de nós a conhecia antes.

Como aconteceu a parceria com o Skylab?
Já vem de bastante tempo, na verdade. Eu participei cantando numa faixa do disco dele ao vivo, e ele cantou em três faixas do nosso segundo álbum, Pesadelo Na Discoteca. Temos algumas coisas em comum, e um admira o trabalho do outro, apesar das diferenças. Há pouco tempo, o Skylab pediu que o Zé Felipe, nosso baixista, compusesse algumas faixas para o álbum dele. Uma delas acabou virando "Dá Um Beijo Na Boca Dele", com letra do Skylab. Aí veio a idéia do disco em comum.

Quanto do trabalho que você realiza com o Zumbi do Mato, e não só com a banda, é influenciado pelo Skylab?
Bem menos do que se supõe. Nosso trabalho já tinha mais de oito anos de estrada quando conhecemos ele. Já havíamos inclusive lançado nosso primeiro disco. Em algumas músicas novas eu posso dizer que me inspirei num certo jeito que ele tem de cantar, como "Novo México". O "oioioiô" de "Meu Filho Diferente" também. E não depende da temática das letras. Mas isso é algo meu, e acho difícil a parte instrumental da banda ter se influenciado nos instrumentistas que tocam com ele, pois são todos músicos profissionais, em todos os sentidos. No Zumbi, mesmo quem pode ser considerado "profissional" (o Henrique é inclusive professor de bateria) coloca a autoria, a criação, acima da adequação a conceitos. Por isso é um trabalho de banda, e não um projeto solo como é o Skylab, onde é bom que os músicos ajam como agem, para materializar o que o Rogério tem na cabeça, sem ruídos. Acho que os dois caminhos são válidos e produzem resultados igualmente interessantes. Muitos dos artistas de que eu gosto agem assim, como Tom Waits ou Nick Cave.

O nome do cd, Dá Um Beijo Na Boca Dele é reverência de quem? Do Zumbi para o veterano Skylab, ou dele para a nova geração? Ou nenhuma das duas coisas?
Não é bem uma reverência, porque reverência pressupõe identidades muito definidas, tipo "eu, que sou quem eu sou, homenageio você por ser quem você é". Acho que é mais uma associação pelo prazer de produzir coisas interessantes, de gente que tem coisas a acrescentar a um projeto em comum.

Por que uma data tão distante, 2005, para o lançamento do cd do Zumbi com o Skylab?
Nossos processos composicionais são bem diferentes, e cada um dos integrantes do Z1bi faz muitas coisas ao mesmo tempo. Acredito que o Skylab também. Portanto, teremos pouco tempo de nos reunirmos. E não é bem um split, as músicas serão compostas e executadas pelos dois conjuntos simultaneamente, com integrantes de cada banda em uma mesma faixa. Então tudo tem que ser bem composto, ensaiado e executado. Eis por que talvez demore tanto. Mas temos a vida toda pela frente, e depois, ainda a morte!!

Que outras atividades literárias você desenvolve além de compor e escrever para a Rock Press? Qual é a importância da prática da escrita para você?
É extremamente importante, eu adoro escrever e experimentar com as palavras. Lancei recentemente um livro poético chamado Ceneida. Também estou escrevendo minha dissertação de mestrado em Teoria Literária [UFRJ] sobre o meu autor predileto, que é James Joyce.

Você produz outros colegas artistas, ou pelo menos tem vontade de fazê-lo?
Eu adoraria produzir artistas do meu convívio, mas infelizmente não tenho grana para isso. Adoro o trabalho da Bia [Grabois], por exemplo, sei que ela está com ótimas composições ainda carentes de um registro que lhes façam justiça. Eu só conseguiria trabalhar assim com quem eu gosto do som, e acho que isso é uma prova de que me empenharia pra fazer o melhor.

Na sua opinião, porque o Rio de Janeiro é atualmente o mais importante celeiro de bandas do país?
Talvez porque as bandas estejam correndo mais atrás de uma certa "profissionalização", vendo que isso funciona, que pode levar no mínimo a um circuito de shows onde o trabalho pode ser mostrado. Veja bem, isso não é necessariamente bom, pois uma das características dessa "profissionalização" pode ser a adequação a nichos de mercado desde a base, desde a hora de você escolher que tipo de som vai tocar. Mas em termos de quantidade, é realmente algo importante e notável. Que dessa quantidade surja a qualidade é o que todos esperamos.

Que grupos do subterrâneo brasileiro chamam a atenção de Lois Lancaster hoje e sempre?
Pois é, ainda estou esperando a qualidade... :-) Vermes do Limbo é muito interessante, uma banda do Sul. Crac! era ótimo, pena que degradou um pouco em Nancyta e os Grazzers... e Nervoso aqui no Rio está me surpreendendo nas apresentações. Isso hoje. Sempre teve muita coisa legal, como Patife Band, Rumo, Akira S, Premê, Rame...

O que faz Lois Lancaster quando não está tocando com o Zumbi do Mato, escrevendo pra Rock Press e fazendo parceria com um dos nomes mais loucos da música nacional?
O mestrado toma muito do meu tempo, mas estou pra lançar meu segundo trabalho solo, o "20busK", que reflete essa minha vontade de associações, de parcerias. Tanto nas composições como nas participações especiais, que incluem Bianca e Rodrigo do Leela, Patrick Laplan do Biquini Cavadão, Martha V... O legal nesse caso é botar as pessoas pra cantar ou tocar coisas que elas não interpretariam normalmente. O técnico e produtor musical é o Zé Felipe, e acho que o som vai surpreender por ser também original, mas numa linha totalmente distinta da do Zumbi. Quando estiver pronto, vou juntar um pessoal pra tocar comigo ao vivo as músicas, o grupo "Século". Tenho um projeto de banda com o Patrick, "Miséria até a Morte", e um com o Panço do Jason, chamado "Traça", onde toco baixo. Planejo finalizar um CD da minha ex-banda power trio Elefants Terríveis, que já está quase todo gravado desde 99, só falta mixar. Um grande projeto de livro, que por enquanto é segredo, e a atualização quase constante de meu fotolog com pinturas digitais. Tem muita coisa!

 

Outros textos de música:

Maurício Takara comenta seus projetos, o processo de composição de seu disco solo, suas referências musicais e a experiência de fazer um álbum split com o Eternals

Com pop rock de qualidade, Fountains of Wayne narra histórias de perdedores e esquisitos, traçando um retrato irônico da América

Treta no Manifesta, festival de hip hop organizado por playboys, espelha o duelo entre os mitos do malandro e do revolucionário

Transbordando humor negro em músicas sobre famílias desajustadas, pedofilia e prostituição, Só O Abimonismo Salva! flerta com a psicodelia dos anos 60 e 70

Pop bubblegum, jovem guarda, rock e cafonice assumida fazem a trilha sonora da vida de Producta, que Karine Alexandrino explica confundindo

Com The Shins, o pop chega à maturidade permeado por uma contradição: melodias alegres, à Beach Boys, e letras melancólicas e fatalistas

Zulu Nation, viagens, tretas entre rappers, funk brasileiro e música hare-krishna. Tudo isso está no depoimento de Afrika Bambaataa a Rodrigo Brandão

Corpo estranho no TIM Festival, o Fellini faz mais uma reunião-relâmpago e relembra seus discos e idas e vindas. Mas não fazem promessas para o futuro

Fabio FZer0, líder do Gerador Zero, comenta as limitações da indústria, o drum'n'bossa tipo exportação e a opção por usar guitarras para fazer música eletrônica

O encontro de Bojo e Maria Alcina une pontas dispersas da música brasileira: é cerebral, moderna e eletrônica, mas carnavalesca e explosiva

Expoentes de uma nova geração de compositores, Wado fala sobre seu futuro terceiro disco e sobre as dificuldades de ser artista hoje na "periferia" do Brasil

Indies, preparem-se: Belle and Sebastian muda de rumo e decepciona fãs antigos com o novo Dear Catastrophe Waitress

Jards Macalé reinventa o samba, de Noel Rosa a si mesmo, e reinvindica espaço para o amor na bandeira nacional

Alasdair Maclean, principal compositor do grupo inglês Clientele, explica o som da banda com cartões-postais e versos de T.S. Eliot