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A nova era do rádio
Por
Katia Abreu e Juliana Zambelo
 | | Kid Vinil | Velvet Underground, Kraftwerk, Mazzy Star, Teenage Fanclub, Sonic Youth, Saint Ettiene, The Darkness, Kings of Leon, Raveonettes, Stooges, Mutantes, Walter Franco, Clube da Esquina, Secos e Molhados.. Bandas que até pouco tempo não se ouviam nas rádios paulistanas. Pelo menos não com freqüência - eventualmente, de madrugada, a voz de Lou Reed surgia iluminando a noite dos insones, ou coisa do gênero. Mas quem, nas últimas duas semanas, se deu ao trabalho de ligar o aparelho de som e dar uma passada pela Brasil 2000 (107,03, na Grande S.Paulo, mas pode ser ouvida pela internet também), provavelmente vai pensar duas vezes antes de pegar um cd e colocar para tocar. Finalmente, é possível novamente ouvir rádio na capital paulista. O responsável pela agradável mudança é o jornalista, radialista, músico e DJ Kid Vinil, nomeado diretor artístico da emissora. Ele contou como está sendo esta nova fase da rádio e o que se pode esperar daqui para a frente. Resta-nos torcer para que essa empreitada da Brasil 2000 dê certo, e, quiçá, sirva de exemplo para outras emissoras...
Quando você foi convidado para ser o novo diretor artístico da Brasil? Quanto tempo teve para planejar a mudança?
Foi no final de agosto e assumi no dia 2 de setembro, acho que planejado eu já tinha em minha cabeça há muito tempo, pois meu sonho era coordenar uma rádio como a Brasil 2000, então vivia fazendo planos de como seria a rádio se eu assumisse.
Qual é a sua missão? O que é esperado dessa nova programação?
A missão é primeiramente resgatar a credibilidade da rádio, com música de qualidade, trabalhando com ousadia e sem medo de ser feliz!
Já houve tempo para ter uma resposta do público e dos anunciantes?
Muito cedo, mas a resposta positiva é que temos recebido muitos emails elogiosos de pessoas que tinham deixado de acreditar em rádio e que com essa mudança passaram a ouvir rádio novamente. Alguns dizem nem precisam mais levar cds no carro pra ouvir, agora é só ligar na Brasil. Legal isso, né?
A Brasil 2000 vem passando por mudanças há um certo tempo, mas até agora nenhuma deu totalmente certo, e no processo programas bons como o do Marcelo Tas foram jogados fora. Por que essa dificuldade em achar uma cara para a rádio?
Foram feitas algumas tentativas para que a rádio se tornasse comercialmente viável e lucrativa. Eu explico: A emissora passou por uma série de problemas financeiros nos últimos anos, não é fácil sustentar uma estrutura de quase 50 pessoas (incluindo locutores, produção, jornalismo, programação, depto. comercial e promoção). Infelizmente as pessoas que estavam no comando não conseguiram seus objetivos, sejam lá comerciais ou não. O programa do Marcelo Tas era muito legal, mas o custo dele era muito alto em termos de equipe de produção. Como a gestão anterior não conseguia vendê-lo para bons patrocinadores, foi ficando dificil de bancar todo custo e tiveram que cortá-lo. Hoje a Faculdade resolveu acompanhar mais de perto a gestão da rádio e resolveram que a rádio deveria resgatar o conceito que ela teve no passado, através de música de qualidade, sem se prender a tantos rótulos, mas claro, sem perder sua característica.
Quais eram os critérios para a definição da programação antes da mudança? Havia jabá? O que desencadeou a mudança de linha?
Se levarmos em consideração que a maioria das gravadoras multinacionais estão quebradas pela pirataria, posso garantir que não existe mais jabá. No passado pode até ser que tenha acontecido, mas levando-se em consideração que a Brasil2000 nunca esteve no ranking das 10 rádios mais ouvidas, acredito que dificilmente as gravadoras oferecessem jabá para a rádio. O critério deles era em cima de um playlist, ou seja, músicas escolhidas que se revezassem um certo número de vezes na programação. A minha idéia é mudar esse critério, ainda existem alguns casos de playlist, mas estou diminuindo acentuadamente. O que desencadeou essa mudança foi justamente a necessidade de se trabalhar com mais qualidade musical, diversidade e menos repetição.
Ainda pensando nesse panorama de tantas mudanças, a nova programação tem um prazo para "dar certo"?
Não, ninguém me deu prazo pra nada, apenas apostaram no meu bom senso musical e acho isso muito legal por parte da diretoria da Anhembi Morumbi.
Você começou sua carreira de radialista na Excelsior, que por um tempo foi a rádio que nunca tocava a mesma música duas vezes. Você acha que isso seria possível ou desejável hoje em dia? Como a Brasil vai encarar o "problema" do número de execuções diárias de uma música?
Bem, quando comecei em rádio, as músicas eram tocadas mais de uma vez por dia. Um exemplo disso é que quando aparecia uma música nova na programação eu ficava esperando eles repetirem ela durante o dia pra que eu pudesse gravar. Playlist em rádio existe desde os anos 50 quando rock and roll apareceu. Era uma música de consumo e para tanto ela deveria ser repetida várias vezes pra que ficasse gravada na memória das pessoas. Mas, como eu disse anteriormente quero diminuir esse processo.
O que se tem percebido nessas duas semanas é que a rádio agora divide sua programação basicamente em alguns clássicos, muito anos 80, a porção mais alternativa dos anos 90 e bandas novas. Existe uma receita para balancear isso, uma formulinha para
definir o que toca mais, ou isso ainda está sendo acertado de acordo com a resposta do público?
Claro que o termômetro é sempre o público. Através dos emails que recebemos e de pesquisas com os ouvintes analisamos o que falta na programação. Naturalmente acompanho a programação de perto, e antenado com o que acontece pelo mundo procuro inserir as novidades. Antes achava um absurdo estarmos em 2003 e as rádios daqui de SP ignorando o que se passava no rock tanto americano, inglês, sueco etc. Assim que assumi o cargo procurei inserir as novas bandas do cenário, pois existia uma lacuna a ser preenchida. Não quero usar receitas pra definir nada que toque demais, como eu disse pretendo cortar os excessos.
De onde vieram, de repente, todos esses discos? Já faziam parte do acervo da rádio ou são de coleção pessoal?
Alguns estavam no acervo da rádio, outros vieram da minha coleção pessoal, principalmente as coisas mais novas. A rádio tinha um acervo pequeno de cds e aproveitei o que pude. Geralmente as gravadoras não mandam tudo que elas lançam e na maioria das vezes eu tenho que sair atrás das novidades.
Bandas independentes nacionais serão incluídas na programação?
Sim, já estamos selecionando algumas pra entrarem nos próximos dias, teremos também de volta aquele programa que levava as bandas novas pra tocarem ao vivo e mostrará os novos trabalhos.
E o Garagem, tem chance de voltar à programação?
A direção geral da rádio está analisando a volta e deve conversar com eles brevemente.
Qual é o limite da nova programação? Até onde ela pode e quer ir na direção do rock alternativo e das músicas diferentes das outras rádios jovens de São Paulo?
Claro que se eu overdosar na programação acabarei fazendo rádio para um grupo de pessoas e o objetivo não é esse. Temos que sobreviver e ter uma audiência respeitada, para isso acho que o importante é saber dosar a novidade com as tendências de outras décadas, tanto no cenário internacional quanto no cenário nacional. Repito, não quero ser hermético, mas quero ter o bom senso de trabalhar com boa música, não importa sua procedência. É importante que a gente mostre aquilo que as outras rádios omitem, pois acho que esse é o nosso grande atrativo.
Você acha que essas mudanças podem servir como exemplo para que outras emissoras também ousem na programação?
Acho que sim, pois elas vão começar a prestar mais atenção na gente e vão ver que existe vida inteligente no rádio. Assim que elas começarem a perder seus ouvintes, cansados da massificação, com certeza elas começarão a mudar.
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