26.12.03

Todas as mulheres do mundo

Por Bárbara Lopes

Naquele ponto exato em que a tiração de onda encontra o sentimentalismo sincero, em que se é brega de uma forma muito sofisticada, está Karine Alexandrino. A musa cearense vem aos poucos surpreendendo quem escuta seu primeiro disco, Solteira Producta, de 2002 (Gerador Music), com toques de rock, electro, pop bubblegum, jovem guarda e cafonice assumida. Escoltando a moça, estão Fernando Catatau (o Cidadão Instigado) e Dustan Gallas (Realejo Quartet, ex-Cidadão), tocando, compondo, assinando a produção e a direção musical.

Naquele ponto exato em que se inventa como personagem o ego original, está Producta, mulherzinha, sexy, sem vergonha e sarcástica. Ao vivo, Producta se mostra Lolita, Xuxa, Madonna e PJ Harvey. Producta também se revela nas letras irônicas, declara: "não tenho dinheiro e nem quero amar você", "gosto, mesmo assim, de sofrer por você", toma emprestado o clássico kitsch "Feelings" (Morris Albert) e se consagra com "Baby Doll De Nylon" (Robertinho do Recife e Caetano Veloso).

Na entrevista abaixo, Karine/Producta tenta desatar esses nós, mas sempre criando outros.


Como você define o tipo de som que faz?
A música que faço é a trilha do filme da vida de minha personagem Producta. Sempre digo que minhas "letrassempretensão" são a qualidade daquilo que gosto de falar. Canto o que gosto de dizer as pessoas. É algo também que gostaria de ouvir do Outro. Sempre com un poco de ironia.

Em seu CD convivem influências eruditas como em "Zelda" [menção à mulher do escritor americano Scott Fitzgerald] com referências populares, como a versão para "Feeling". Como você junta tudo isso?
Tudo está em tudo. Sem firulas, nem badulaques pra encher lingüiça como o pessoal que se diz "sério" faz...

Escolhi admitir que gosto de quase tudo que me diverte... Sem essa história do Tipo que se faz com estratégia; algo como se você é do tipo universitário "pedantedeprimida" por exemplo, só pode admitir que gosta do que for cabível a este perfil. Tá todo mundo fazendo isso e é um saco, a gente não sabe mais quem é quem. Tá uma esculhambação no mau sentido.

Gosto destes personagens reais como a Zelda Fitzgerald. Um dos meus livros prediletos é O Grande Gatsby do Scott. Esse humor da década de 20, muitas pessoas numa festa, adultérios, dramas de amor, falso glamour, solidão, cantoras arrasadas chorando ao piano. A coqueteria é muito divertida. Tem a Dorothy Parker, é outra escritora de que gosto muito. Quanto a gravar "Feelings", tem um outro lado do sentimentalismo, o cara que é falso americano. Acho que mesmo que a gente goste de especiaria, gosta de churrascaria.

Quais sãos as mudanças e o que continua no próximo disco?
É o segundo disco da Trilogia Producta. Continua sendo trilha do "filmedasnossasvidas". Talvez a diferença é que esse é ainda mais fiel à minha persona. É mais melódico porque eu gosto da dorzinha e do arrepio. Eu quero amar e defender Producta em minha representação. É Lei De Producta porque lei é o mundo inteiro. Numa música canto "quase roubaram o meu cartoon", que escrevi pensando no medo que a gente tem de não realizar nossos sonhos, no meu caso de não realizar meus discos. Todo mundo que convive comigo entra no CD, até os meus desafetos e credores - como na música "Vou Buscar Nosso Dinheiro", que é sobre uma mulher, essa mulher tem fé e pra ela é só buscar e ela terá. E tudo ficará resolvido. É como nos sonhos.

Cantei amor e glória é só boato, como se eu fosse a Sandy. Sei que não ficou parecido, mas, digamos, é minha versão, leitura de Sandy. Meu colega disse que eu cantei lindamente. Já estou querendo fazer meu terceiro disco, antes de lançar o segundo. Por mim, faria um disco a cada 4 meses. Sou uma máquina de sexo e de fazer discos (risos).

Há um forte elemento teatral em suas apresentações. Como transpor isso para o disco sem prejuízos?
É natural, sou bem simplizinha... é uma danação, um estalo... Eu sou magnética, exagerada, mesmo me esforçando pra não ser . Nasci pra isso, não sei fazer outra coisa, minha mãe diz que se eu não cantasse eu estaria perdida, segundo ela eu não sei fazer outra coisa. E o pior é que acho que ela tem razão. Tenho olhão, um ar de atriz de teatro especialista em megeras. Sei dar gargalhadas altas e chorar, basta pagar (risos). Meu trabalho é fácil porque, pra mim, é natural, simples.

Quanto à passar isso pro disco, basta ter o diretor musical certo, que entenda minhas referências, que em sua maioria nem são musicais mesmo.

O que há de você na Producta?
Sou infantil, ela também. Ela sou eu, aliás nós somos ela, visto que me sinto com muitas personalidades, é a minha doença. Gosto de imaginar a idéia de uma pessoa ter sua própria moralidade. Errar, acertar e não ter problemas com as oscilações. A Producta erra e eu também. Ela gosta de sexo. Ela é criticada e eu também.

Que conselho a Producta daria às mulheres de hoje?
Falar a verdade é prejudicial à pele.

 

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