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Maio
/ 2003
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João
de todos os sambas
As luzes se apagam. A cortina se abre. Ele entra no palco, de terno, gravata e calça com o vinco perfeito, senta-se no centro, no tradicional banquinho, com apenas seu violão, um microfone para a voz e outro para o violão e algumas caixas de retorno ao seu redor. Sem uma palavra ele começa a tocar alguns acordes, com aquela batida na mão direita que, sozinha, tem mais síncope que toda uma escola de samba na avenida. Sua mão esquerda procura os acordes perfeitos, as seqüências harmônicas mais bonitas. É como se ele não soubesse exatamente o que vai tocar até que, naturalmente, está tocando. As idéias das músicas estão no ar, ele simplesmente vai pegando-as em transformando tudo em arte, em algo maior do que arte, em emoção pura. Ele começa a cantar e você pode sentir um arrepio de prazer coletivo passando por todas as duas mil pessoas na sala. Todos estão inclinados para frente, sem piscar, completamente hipnotizados por aquele homem de 71 anos no palco, ou então recostados, totalmente à vontade, talvez de olhos fechados, simplesmente sentindo a música. É como se todos ficassem de respiração presa, sem se mexer e sem emitir um único som até que ele fale alguma coisa ao microfone, até que ele prove para nós que existe de verdade, que está ali, que estamos realmente vivendo isso. E ele demora a falar. Prefere deixar que Ary Barroso, Geraldo Pereira, Dorival Caymmi, Antonio Carlos Jobim e Adoniran Barbosa falem por ele. Quando finalmente diz algo além das letras das canções, pede que alguém "aumente" o violão. Diz que o problema pode ser o grave ou as médias, mas confessa que não entende nada disso, só está sentindo que o violão não está perfeito como deveria, como quer que possamos ouvi-lo. Sim, ele reclama do som, mas, como sempre, o faz de forma simpática, brincalhona, fraternal. Diz que não sai de lá enquanto o violão não estiver perfeito, o que faz com que todos riam e torçam para que o violão continue "errado" para sempre. Ele diz que se o som não estiver perfeito, a música pode ser destruída. Vontade de dizer a ele que isso é impossível, nem se ele estivesse tocando com um saxofonista escandaloso, um maestro exagerado ou interpretando uma canção pop dos anos 80 sua música poderia ser destruída. Na sexta-feira, dia 25 de abril, João estreava para o público a nova casa do Tom Brasil, perto da avenida Nações Unidas, em São Paulo. Duas vezes maior que a matriz, na Vila Olímpia, o novo Tom Brasil tem capacidade para 2400 pessoas e é a auto-entitulada "casa dos artistas nacionais em São Paulo". Cada vez mais brasileiro, João começou o show na sexta com a ufanista "Canta Brasil", em um show que teve ainda "Aquarela Do Brasil", "Isto Aqui O Que É?", "Adeus, América" e até mesmo o Hino Nacional, repetindo uma graça iniciada aqui em São Paulo no ano passado. Mas se João é brasileiro, é também baiano e é também o inventor da bossa nova, carioquíssima. E é também o fã confesso de Adoniran Barbosa e amigo da (sempre uma garota quando ao lado dele) Rita Lee. Por falar em Rita Lee, falou-se que talvez ela pudesse participar do show, assim como o quase esquecido conjunto vocal Os Cariocas. No fim a única participação que se concretizou foi certamente uma que surpreendeu qualquer pessoa ali que possa ter reparado no senhor com um teclado Yamaha escondido atrás da cortina no canto direito do palco: Maestro Caçulinha, como João Gilberto o anunciou pouco antes de sair do palco. Sim, aquele Caçulinha, o do Domingão do Faustão. Na verdade, antes de ser o Caçulinha do Domingão do Faustão ele era o Caçulinha que aparecia nos créditos de alguns discos brasileiros como arranjador e maestro, anos atrás. Mas se guardou alguma boa lembrança dessa época, fez questão de deixar em casa no dia do show, porque, apesar do inegável charme kitsch de sua presença (do qual, aliás, não tenho certeza se João tem consciência), sua participação foi da nula para a irritante. Quando tocava algo era apenas um único e dispensável acorde, bem no meio de alguma música, sem se preocupar com mudanças de tons ou com timbres (era sempre o mesmo, aquele típico de teclados Yamaha) e parando de tocar sempre bruscamente. Quando João tocou "Que Reste-t-il De Nos Amours", Caçulinha chegou a posicionar um acordeão nos ombros, mas para mero efeito estético, ainda que inútil (já que estava escondido atrás da cortina), pois não o tocou, talvez por não ter recebido um olhar de aprovação de João Gilberto, coisa que parecia estar esperando. Soube que no sábado ele chegou a efetivamente tocar o acordeão, em "Farolito", e que ficou até bonito. Pena que não vi. Entre as tradicionais, João tocou os deliciosos e antigos sambas "Doralice", "Morena Boca de Ouro", "Sem Compromisso", "Bolinha de Papel", "Pra que Discutir com Madame" (em uma versão com uma harmonia impressionante, tocando quase um acorde diferente para cada sílaba, sem repeti-los); lembrou de Tom Jobim em "Você Vai Ver", "Meditação", "Ligia"; quase não tocou "Desafinado", "Corcovado", "Chega De Saudade" e "Garota De Ipanema", que deixou para terminar o show, como se sabendo que as mesmas pessoas que reclamam que ele toca sempre as mesmas músicas reclamariam mais ainda se ele não as tocasse; e de novidade de seu repertório clássico João tirou da manga as pouco tocadas ao vivo "Disse Alguém", "Izaura" e as já citadas "Adeus, América" e "Que Reste-t-il De Nos Amours". E, sempre o mais interessante, João tocou várias músicas que nunca gravou, saciando a curiosidade de muitos em saber como essa ou aquela canção ficariam se interpretadas pelo nosso maior músico vivo. João tocou "Saudosa Maloca", do Adoniran, que ele sempre toca em São Paulo, em uma versão particularmente triste. Lembrei do seu show no ano passado, quando interrompeu a música para comentar os três personagens - Joca, Mato Grosso e o narrador anônimo - e como Adoniran os descrevia tão bem, Mato Grosso querendo gritar enquanto destruíam a maloca deles, o narrador sendo sensato e dizendo que "os homens" estão com a razão e o Joca, otimista, lembrando que Deus dá o frio conforme o cobertor. João tocou também (como costuma tocar sempre) a malemolente "Acontece Que Eu Sou Baiano", de Dorival Caymmi, exatamente a música que João cantava com Caetano Veloso no famigerado "episódio Credicard Hall". Na seqüência tocou a linda e pouco conhecida "Violão Amigo", da dupla Bide e Marçal, de 1940. Essa música tem uma curiosidade extra ao ser interpretada por João Gilberto porque alguns anos atrás falou-se muito de sua semelhança com Insensatez, do Tom Jobim (que João não tocou, por sinal). Outra grande surpresa foi "Sem Você", uma das melhores entre as pouco conhecidas da dupla Tom/Vinicius, de 1959, gravada originalmente por Sylvinha Telles. Tocou também "Ave Maria", de Vicente Paiva e Jayme Redondo, e concluiu as inéditas nos presenteando com mais uma versão (ele também tocou no ano passado) de "Solidão", parceria de Tom Jobim com Alcides Fernandes datada de 1954, começo da carreira do Tom, fase pré-bossa, portanto. Mas antes disso, João tocou um Jobim clássico: "Samba Do Avião", que ficou tão perfeita em sua voz que é quase inacreditável o fato de João nunca tê-la gravado. A música simplesmente parece ter sido feita para aquela interpretação. Aliás, todos os sambas parecem ter sido feitos para João cantá-los. É claro que João Gilberto não é mais o mesmo de quatro anos atrás, muito menos o de 40, e seus 71 anos às vezes se demonstram em certa fragilidade na voz, nos dedos, no olhar, mas seu carisma e a magia de sua música parecem só ter aumentado a cada ano. João Gilberto é pura contradição. Sua música soa cada vez mais simples e sua técnica cada vez mais aprimorada. É como se ele fosse mudando cada música, complicando cada acorde apenas para buscar a simplicidade. João Gilberto ensaia e pratica sem parar e sua música soa cada vez mais espontânea. Cada nota que João toca e canta é um embate simbólico e real entre razão e emoção, quanto mais técnico e exato ele se torna, mais próximo está da plenitude espiritual. Sua música é como um samba jazzificado, já disseram alguns, mas João não se permite improvisar. Ou melhor, é como se tivesse encontrado a improvisação perfeita: João conhece todas as opções possíveis, todos os caminhos de cada música e apenas escolhe o melhor para cada uma, em cada momento. João age de maneiras misteriosas. João não pode ser compreendido, apenas sentido. João é música. |
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