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13.08.03
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Era
uma vez dois shows arrasadores Por Juliana Zambelo A expectativa
dos dias anteriores, o nervosismo do trajeto, a alegria de chegar e encontrar
conhecidos, a emoção do apagar das luzes e o choque de estar,
de repente, frente a frente com aqueles fulanos especiais. Ouvir o primeiro
acorde muito alto arrebentando seus tímpanos, ver a música
sendo construída diante de seus olhos e ao final de tudo se sentir
exausto e dolorido, porém feliz. Sensações impossíveis
de serem reproduzidas ao se ouvir um disco sentado no seu sofá
ou deitado na sua cama, sozinho, olhando para o teto.
É
nesse contexto que, há pouco mais de dois meses, foi lançado
lá fora o primeiro disco ao vivo do Jesus and Mary Chain. Precisa
apresentar a banda dos irmãos William e Jim Reid, escoceses que
lançaram o primeiro álbum em 1985, um dos mais importantes
da década, e a partir de então foram passando pela história
influenciando movimentos inteiros, carregando hordas de bandas descendentes
e deixando no caminho apenas álbuns incríveis? Acho que
não.
Uma boa medida
do valor de um artista é a quantidade de material que continua
sendo lançado após a sua morte ou sua aposentadoria. No
caso do J&MC, essa já é a terceira compilação
lançada desde que a banda acabou, no final de 1998. E a ironia
é que quem mais vem faturando com esses discos é a rede
inglesa BBC, que traz a sua marca em dois deles: o primeiro, que saiu
em 2000, é o Complete John Peel Sessions, reunindo todas
as apresentações do Jesus no programa da Radio 1; e agora
vem o segundo lançamento da mesma grife, o BBC Live In Concert.
Ironia porque a BBC nem sempre foi amigável em relação
à banda e vice-versa. A rede inglesa, por exemplo, implicou com
a música "Some Candy Talking", por conter referências
a drogas, e proibiu a execução de "Reverence",
pelo conteúdo religioso ofensivo ("I wanna die just like Jesus
Christ"). Como resposta, a banda cantou de forma não muito
elogiosa sobre a rede em "I Hate Rock'n'Roll": "I love
the BBC / I love it when they're pissin' on me" - notou o sarcasmo?
Sem se preocupar
com o lado negativo da relação, no entanto, a BBC resolveu
se apegar às boas lembranças e pôs o Live In Concert
nas lojas da Europa. Ele traz longos pedaços de duas apresentações
do Mary Chain em solo inglês que foram na época transmitidos
pela rede.
O primeiro
deles aconteceu em Sheffield em 28 de março de 92. Ele fez parte
da Rollercoaster Tour, uma turnê organizada pelos irmãos
Reid como uma versão britânica do festival americano Lollapalooza
que começaria alguns meses depois. Para dividir o palco, chamaram
My Bloody Valentine, Dinosaur Jr e Blur e rodaram o Reino Unido divulgando
seu álbum mais recente, Honey's Dead.
Em 1992,
a banda já completava 8 anos de carreira, e os Reid alcançavam
(na seqüência, Will e Jim) 33 e 30 anos. Depois de começar
a sua história adorando o fato de não saberem tocar nada
direito - espírito punk, sabe como é - nessa altura eles
já andavam bem seguros de sua capacidade de domar uma guitarra
e, no caso do caçula, segurar direito um microfone (William não
encarou ao vivo as músicas que cantava em estúdio antes
de 95). E essa confiança foi muito bem-vinda. O show, tudo indica,
foi um puta show. O baixo pulsa forte e envolvente; a guitarra soa como
se estivesse sendo controlada à força, com um quê
de insanidade e de selvageria; a bateria vem corretíssima; e a
voz, aquela velha versão escocesa de Marc Bolan, um pouco tímida,
um pouco arrogante e um pouco gemida, encaixa-se com perfeição
em todo o resto. Tudo alto, rude, inflamável e sexy, muito sexy.
O set list
é uma sucessão de hits. Difícil passar ileso por
uma seqüência que traz "Blues From A Gun", "Head
On", "Reverence" e "Far Gone And Out" sem nem
mesmo um intervalo para respirar. Todas executadas com mais gana e emoção
do que nas versões originais. Não é à toa
que, ao final de cada uma das músicas, a platéia vai ao
delírio enquanto a banda, de cima do palco, não quer e não
precisa falar nada.
Essa apresentação
cabe nas sete primeiras faixas e fecha com "Sidewalking". É
nesse momento que você enlouquece sentado em sua cama, quase tanto
quanto parece enlouquecido o público de Sheffield 11 anos atrás.
Mas quando
o disco entra na faixa 8, fazemos uma viagem no tempo e no espaço;
três anos passam em poucos segundos e, de repente, estamos na cidade
de Bristol em abril de 95. É a segunda parte do álbum, separada
da primeira por um grande vão. O Mary Chain acabava de lançar
Stoned And Dethroned, idealizado como um disco acústico
e que, apesar de ter ganhado durante as gravações mais peso
do que o planejado, saiu um disco muito mais calmo e fácil do que
tudo o que eles já tinham feito. É um álbum bastante
pop, cheio de mensagens positivas sobre ficar limpo, deixar a vida desregrada
para trás e abraçar um romance bacana, apesar das costumeiras
doses de pessimismo e mundo cão underground.
No palco
a banda também se mostra mais sossegada. Mas isso não seria
um problema se essa metade maior do BBC Live In Concert não
tivesse outros defeitos sérios. Não dá para ter certeza
da origem da falha, se a má qualidade sonora é culpa de
gravação mal feita ou de um técnico de som bêbado,
mas o resultado é um som frouxo. A voz de Jim está muito
alta, sobressaindo-se do resto da banda de modo embaraçoso, enquanto
a bateria ficou de escanteio, abafada e débil. Boa parte das faixas
soa como se esforços estivessem sendo feitos por todo o palco,
mas alguma coisa não funciona como deveria.
Sorte que
existe a outra parte que, como nas primeiras faixas do disco, continua
dando certo. "Teenage Lust" é matadora. Fez bem nesse
caso que a voz estivesse em destaque porque é ela que carrega a
música do começo ao fim. Com a guitarra berrando atrás,
Jim sussurra cheio de más intenções: "Little
skinny girl, she's doing it for the first time" (e você sabe
bem do que ele está falando). "Girlfriend" já
era encantadora na versão original e ao vivo continua sendo uma
canção pop deliciosa. Mas nem ouça a segunda aparição
de "Head On" no CD. A guitarra some o tempo todo, o vocalista
esquece um trecho da letra, uma decepção desnecessária.
E se você ficar até a última faixa, depois de outras
18 e mais de uma hora de música, terá finalmente o prazer
de ouvir o mais velho da família cantando - que engraçado
- "I Hate Rock'n'Roll", e caprichando na interpretação
de todo o seu ódio à rede britânica nos delicados
versos já citados. Apedreja esta mão vil que te afaga, caro
William!
Pois vis
são os erros da parte gráfica do disco. Duas músicas
com o nome grafado de forma errada não é desculpável.
Porque "Catch A Fire" na verdade se chama "Catchfire"
e "Half Way Crazy", por favor, é "Halfway To Crazy".
Será que a BBC não tinha verba para pagar um revisor decente?
Sem contar que a capa é constrangedora de tão feia.
Chegou a
hora da opinião final. O álbum vale a pena? Como registro
histórico, o segundo momento não é o melhor que poderia
ter sido escolhido. Não que o álbum representado seja ruim
nem que o show seja descartável mas, por ser o único trabalho
oficial do Jesus ao vivo, outras épocas poderiam ter rendido mais
- quer fossem apresentações anteriores ou posteriores, já
que a última turnê do grupo foi forrada de bons shows. Mesmo
assim, é um disco pulsante e saboroso, mais um trabalho do Jesus
and Mary Chain que, como diria a minha avó - e com o perdão
o trocadilho - é de se ouvir rezando.
É
um disquinho muito bom, mas é preciso reconhecer que não
passa de um objeto inútil. Triste e irremediavelmente inútil,
como já se sabia que seria desde o primeiro instante. Porque a
verdade é uma só: você nunca esteve lá. Esses
shows aconteceram, outros shows aconteceram, o tempo passou, a banda acabou
e, se você não foi um dos poucos sortudos a ver o show dessa
banda em São Paulo em 1990, você nunca esteve lá.
E CD nenhum nunca vai conseguir mudar isso. |
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