Um exemplo
de musicomaníaco: Rob
Gordon, do filme Alta Fidelidade
A indústria
fonográfica sente que seu fim se aproxima e que, se Deus não
a remediar, vai se extinguir do mesmo modo que se extinguiram os dinossauros.
Anteriormente outros industriais prósperos e decentes, como os
fabricantes de escarradeiras e penicos, tiveram que fechar suas portas
quando tempos mais higiênicos os declararam obsoletos. Nada de novo
debaixo do sol, é a lei da oferta e procura: quando ninguém
quer o que você vende, você desaparece.
Imagino que o leitor deve estar pensando que a música não
é o mesmo que um penico de que ninguém, exceto os bebês,
precisa quando tem um bom banheiro, enquanto de música todo mundo
gosta sempre, e há muitos que são loucos por ela. E o leitor
terá toda a razão do mundo, mas a questão está
aí: a crise da indústria fonográfica é a notícia
mais quente e comentada do mundo musical.
Os preços
abusivos dos discos, a pirataria e as páginas de troca de mp3 na
internet (eu adicionaria o empenho da indústria e da mídia
em promover música medíocre e chata, mas, claro, isso é
uma questão de gosto) têm feito cambalear uma indústria
aparentemente estável. O curioso é que enquanto ia tirando
sem pressa mas sem pausa, aos poucos, a terra que ia cobrir seu caixão,
a indústria alardeava cifras de vendas multimilionárias
(3 milhões de cópias vendidas por Sandy e Júnior,
com o álbum As Quatro Estações, mais de um
milhão do álbum de estréia do KLB) que, indiscutivelmente,
ou eram falsas ou sendo corretas denotam o absurdo de um mercado que,
independentemente dos milhões, está a ponto de se extinguir.
Como espectadores
conscientes das jogadas desajeitadas que estão sendo levas a cabo
em nome de um mercantilismo mal intencionado ou ingênuo, vamos propor,
sem nenhuma intenção de polêmica, os seguintes argumentos
em relação ao tema proposto.
1. A indústria
tem se empenhado obsessivamente em demostrar que a música não
importa
Não podemos compreender o porquê, mas é assim: se
supõe que a beleza física, a elegância, a literatura
e, além disso, o som é o que faz com se venda discos. Me
reporto a fatos: como se explica, que o mp3, que é só música,
está conseguindo desbancar essas edições de CD tão
bonitas e tão caras que eles se empenham em nos fazer comprar?
Até a fã mais alienada, quando compra um disco do ídolo
mais lamentável - Enrique Iglesias, por exemplo - está convencida
de que o que gosta é de sua música. Se não, compraria
postais, pôsteres, figurinhas ou camisetas que são mais baratos
do que o disco.
2. A indústria
fonográfica vende música e não suportes
A indústria fonográfica se convenceu nos últimos
vinte anos de que, contando com uma explosão e um valor agregado
extramusical suficientes, qualquer produto pode se converter em êxito,
incluindo os conhecidos dois minutos de silêncio (desde John e Yoko
até Depeche Mode). E, no entanto, ninguém gosta de discos
ou cassetes a não ser pelas canções que eles contêm:
contra qualquer prognóstico, o público elegeu baixar as
músicas pela internet sem suporte nem nada ou comprar os discos
em barraquinhas de camelô, depreciando o encarte e outros privilégios
que não fazem mais do que encarecer o produto. Este aspecto da
crise tem difícil solução porque, desde os anos 60,
e talvez até antes, disco e música viraram sinônimos
tanto para a indústria como para muitos consumidores e estou segura
de que, agora mesmo, há leitores que não estão entendendo
do que estamos falando. Enfim, a crise da indústria não
traz consigo a morte da música: nem Johann Sebastian Bach nem nenhum
dos grandes mestres do passado precisaram cobrar direitos autorais nem
ter discos no mercado para inventarem o que ainda hoje chamamos de música.
3. A indústria
fonográfica não se preocupa em conhecer seus clientes
Os gostos e critérios pessoais dos que trabalham na indústria
e, muitas vezes, das pessoas ligadas à mídia, constituem
a única guia para levar a cabo os investimentos que são
feitos. Os executivos de produção das empresas têm,
na minha opinião, uma responsabilidade injusta e as empresas arriscam
demais em cada lançamento feito às cegas. É inevitável
que tenham se tornado tão conservadores e se limitem a repetir
fórmulas que já foram usadas mais de mil vezes. Pesquisas,
testes, estudos de mercado, sondagem de opinião e, sobretudo, serviços
de atendimento ao cliente, semelhantes aos que existem em qualquer outro
setor, se tornam imprescindíveis em um momento de crise. Aliás,
nesse tempos de pirataria e Internet, existem setores alternativos da
indústria fonográfica que continuam prósperos graças
a sua compreensão do que o público lhe pede. Os exemplos
renderiam milhares de páginas.
4. A indústria
fonográfica deprecia o musicomaníaco, seu único cliente
potencial
Quer dizer, cria seu produto para o público que não gosta
de música - em teoria mais numeroso e mais manipulável -
depreciando o que, por lógica, é consumidor básico
de música: musicomaníaco. Geralmente se considera que este
setor é o mais reduzido e menos móvel, esquecendo que, pelo
contrário, é muitíssimo mais fiel e mais ativo.
5. A indústria
fonográfica se ancorou nos planejamentos dos anos 60
Me refiro aos anos 60 porque foi quando, graças ao aumento do poder
de compra dos adolescentes, a indústria conseguiu seu desenvolvimento.
E hoje, ela segue dirigindo-se exclusivamente a esse público jovem
em vez de se recapacitar e enxergar a dura realidade: depois de duas décadas
de quedas nas taxa de natalidade em todo o mundo, o mercado consumidor
de música tem em média 30 anos e nem o mais infantilóide
dos trintões vai se interessar por Sandy e Jr., KLB ou Britney
Spears, nem vai sentir o mínimo interesse pelas frivolidades que
regem a atualidade musical.
6. A indústria
fonográfica perdeu contato inclusive com o público jovem
É sabido que os jovens estão deixando de comprar música
porque preferem vídeo games, futebol, baladas e outros hobbies
mais divertidos e modernos: a indústria fonográfica não
soube ainda encontra seu lugar na oferta de ócio atual para a juventude.
Pessoas que só conhecem o CD não o valorizam como se valorizava
antes os delicados discos de vinil. Desde o princípio sabem que
têm algo regravável e que não vale o que custa. O
fracasso é maior quando se tem em conta que este setor constitui
seu objetivo principal. Não seria tão grave se tivessem
conquistado outro público, mas como não é assim...
7. A indústria
fonográfica desvalorizou metodicamente seu produto com a festa
de suportes que se iniciou há 20 anos Porque, quem disse que, quando você tiver conseguido substituir
toda a sua coleção de vinis, que tanto suor custou a você,
por seus correspondentes em CD (porque você sabe, digam o que disserem,
que ainda não estão editados em CD todos os seus antigos
discos e cassetes), não vão surgir com outro invento, ainda
mais caro e mais moderno para que você se veja obrigado a jogar
fora todos os CDs junto com os discos e as fitas? Solução?
Esqueça tudo e comece a colecionar miniaturas de carros e... teremos
um comprador de disco a menos!
8. A oferta
da indústria fonográfica é excessiva e gratuita
Uma maneira perfeita de alienar o comprador: muitos lançamentos,
muitos novos nomes, muitas modas, muitas tendências... Tendo em
conta que o disco não é um bem de consumo essencial como
é o sabão ou o pão, a maior parte dos produtos está
destinada ao fracasso. As estatísticas não mentem: a maioria
dos discos vendem menos de cem cópias. O excesso de novos valores
piora ainda mais a situação. Não se cuida dos clássicos
porque, em caso de êxito, os contratos com novatos resultam mais
lucrativos para as empresas que artistas consagrados são mais exigentes,
para começar, na porcentagem que vão receber em cima dos
lucros.
9. A indústria
fonográfica está nos obrigando a comprar um álbum
de doze (ou mais) canções desconhecidas por causa de uma
que gostamos
Ou seja, nos obriga a comprar doze quilos de feijão quando pedimos
apenas um para fazer uma feijoada. Na realidade é mais grave: é
como se, quando vamos comprar um quilo de feijão, nos obrigassem
a comprar doze de resíduos e lixo. Pessoalmente acho que, falando
de música popular, a canção constitui a unidade de
medida e que é muito fácil encontrar canções
boas, emocionantes e divertidas em qualquer temporada, mas é difícil
que alguém que tenha gravado uma dessas canções consiga
produzir, ao mesmo tempo, outras dez no mesmo nível. A maior parte
da música que sai à venda são pequenos cortes feitos
em uma obra maior. Isso sabem os próprios artistas, produtores
e editores. Sintetizando: estou profundamente convencida de que fazer
desaparecer o mercado de singles foi um erro irreversível.
10. O
profissionalismo do pessoal da indústria fonográfica se
degradou ostensivamente
O comum agora é que trabalhem nas gravadoras pessoas de marketing
e não pessoas da música. Mas vender lingüiças
é diferente de vender canções e seus tecnicismos
equivocados as levaram à crise. As secretárias eletrônicas
estão permanentemente ligadas para evitar o incômodo de alguém
responder suas chamadas. E caso você consiga algum contato, ninguém
vai querer saber quem você é - prova irrefutável de
que não fazem seu trabalho e não lêem revistas - e
vão te tratar com patadas (há exceções, mas
quase sempre se trata de amigos ou gente dos velhos tempos). Quando eu
comecei minha carreira como jornalista, foram as empresas que entraram
em contato comigo para fazer chegar a mim seus discos... Mas naquela época
não se falava em crises e agora sim.
11. O
mercado do disco está na mão de senhores que não
pertencem ao mundo da música A crise dos primeiro anos da década de 90 acabou com as lojas
de disco. Só sobreviveram estabelecimentos altamente especializados
e os únicos que oferecem música ao grande público
são as mega stores. Desprezo pelo cliente, desconhecimento sobre
o produto e umas regras mercantilistas muito simplistas e reacionárias
regem os principais pontos de venda de música deste país.
A oferta se reduz ao mínimo segundo critérios equivocados
de gente que não entende nem valoriza o que é a música.