Novembro / 2002

A crise da indústria fonográfica e suas causas


Por Patricia Godes, da La Dinamo


Um exemplo de musicomaníaco: Rob
Gordon, do filme Alta Fidelidade

A indústria fonográfica sente que seu fim se aproxima e que, se Deus não a remediar, vai se extinguir do mesmo modo que se extinguiram os dinossauros. Anteriormente outros industriais prósperos e decentes, como os fabricantes de escarradeiras e penicos, tiveram que fechar suas portas quando tempos mais higiênicos os declararam obsoletos. Nada de novo debaixo do sol, é a lei da oferta e procura: quando ninguém quer o que você vende, você desaparece.
Imagino que o leitor deve estar pensando que a música não é o mesmo que um penico de que ninguém, exceto os bebês, precisa quando tem um bom banheiro, enquanto de música todo mundo gosta sempre, e há muitos que são loucos por ela. E o leitor terá toda a razão do mundo, mas a questão está aí: a crise da indústria fonográfica é a notícia mais quente e comentada do mundo musical.

Os preços abusivos dos discos, a pirataria e as páginas de troca de mp3 na internet (eu adicionaria o empenho da indústria e da mídia em promover música medíocre e chata, mas, claro, isso é uma questão de gosto) têm feito cambalear uma indústria aparentemente estável. O curioso é que enquanto ia tirando sem pressa mas sem pausa, aos poucos, a terra que ia cobrir seu caixão, a indústria alardeava cifras de vendas multimilionárias (3 milhões de cópias vendidas por Sandy e Júnior, com o álbum As Quatro Estações, mais de um milhão do álbum de estréia do KLB) que, indiscutivelmente, ou eram falsas ou sendo corretas denotam o absurdo de um mercado que, independentemente dos milhões, está a ponto de se extinguir.

Como espectadores conscientes das jogadas desajeitadas que estão sendo levas a cabo em nome de um mercantilismo mal intencionado ou ingênuo, vamos propor, sem nenhuma intenção de polêmica, os seguintes argumentos em relação ao tema proposto.

1. A indústria tem se empenhado obsessivamente em demostrar que a música não importa
Não podemos compreender o porquê, mas é assim: se supõe que a beleza física, a elegância, a literatura e, além disso, o som é o que faz com se venda discos. Me reporto a fatos: como se explica, que o mp3, que é só música, está conseguindo desbancar essas edições de CD tão bonitas e tão caras que eles se empenham em nos fazer comprar? Até a fã mais alienada, quando compra um disco do ídolo mais lamentável - Enrique Iglesias, por exemplo - está convencida de que o que gosta é de sua música. Se não, compraria postais, pôsteres, figurinhas ou camisetas que são mais baratos do que o disco.

2. A indústria fonográfica vende música e não suportes
A indústria fonográfica se convenceu nos últimos vinte anos de que, contando com uma explosão e um valor agregado extramusical suficientes, qualquer produto pode se converter em êxito, incluindo os conhecidos dois minutos de silêncio (desde John e Yoko até Depeche Mode). E, no entanto, ninguém gosta de discos ou cassetes a não ser pelas canções que eles contêm: contra qualquer prognóstico, o público elegeu baixar as músicas pela internet sem suporte nem nada ou comprar os discos em barraquinhas de camelô, depreciando o encarte e outros privilégios que não fazem mais do que encarecer o produto. Este aspecto da crise tem difícil solução porque, desde os anos 60, e talvez até antes, disco e música viraram sinônimos tanto para a indústria como para muitos consumidores e estou segura de que, agora mesmo, há leitores que não estão entendendo do que estamos falando. Enfim, a crise da indústria não traz consigo a morte da música: nem Johann Sebastian Bach nem nenhum dos grandes mestres do passado precisaram cobrar direitos autorais nem ter discos no mercado para inventarem o que ainda hoje chamamos de música.

3. A indústria fonográfica não se preocupa em conhecer seus clientes
Os gostos e critérios pessoais dos que trabalham na indústria e, muitas vezes, das pessoas ligadas à mídia, constituem a única guia para levar a cabo os investimentos que são feitos. Os executivos de produção das empresas têm, na minha opinião, uma responsabilidade injusta e as empresas arriscam demais em cada lançamento feito às cegas. É inevitável que tenham se tornado tão conservadores e se limitem a repetir fórmulas que já foram usadas mais de mil vezes. Pesquisas, testes, estudos de mercado, sondagem de opinião e, sobretudo, serviços de atendimento ao cliente, semelhantes aos que existem em qualquer outro setor, se tornam imprescindíveis em um momento de crise. Aliás, nesse tempos de pirataria e Internet, existem setores alternativos da indústria fonográfica que continuam prósperos graças a sua compreensão do que o público lhe pede. Os exemplos renderiam milhares de páginas.

4. A indústria fonográfica deprecia o musicomaníaco, seu único cliente potencial
Quer dizer, cria seu produto para o público que não gosta de música - em teoria mais numeroso e mais manipulável - depreciando o que, por lógica, é consumidor básico de música: musicomaníaco. Geralmente se considera que este setor é o mais reduzido e menos móvel, esquecendo que, pelo contrário, é muitíssimo mais fiel e mais ativo.

5. A indústria fonográfica se ancorou nos planejamentos dos anos 60
Me refiro aos anos 60 porque foi quando, graças ao aumento do poder de compra dos adolescentes, a indústria conseguiu seu desenvolvimento. E hoje, ela segue dirigindo-se exclusivamente a esse público jovem em vez de se recapacitar e enxergar a dura realidade: depois de duas décadas de quedas nas taxa de natalidade em todo o mundo, o mercado consumidor de música tem em média 30 anos e nem o mais infantilóide dos trintões vai se interessar por Sandy e Jr., KLB ou Britney Spears, nem vai sentir o mínimo interesse pelas frivolidades que regem a atualidade musical.

6. A indústria fonográfica perdeu contato inclusive com o público jovem
É sabido que os jovens estão deixando de comprar música porque preferem vídeo games, futebol, baladas e outros hobbies mais divertidos e modernos: a indústria fonográfica não soube ainda encontra seu lugar na oferta de ócio atual para a juventude. Pessoas que só conhecem o CD não o valorizam como se valorizava antes os delicados discos de vinil. Desde o princípio sabem que têm algo regravável e que não vale o que custa. O fracasso é maior quando se tem em conta que este setor constitui seu objetivo principal. Não seria tão grave se tivessem conquistado outro público, mas como não é assim...

7. A indústria fonográfica desvalorizou metodicamente seu produto com a festa de suportes que se iniciou há 20 anos
Porque, quem disse que, quando você tiver conseguido substituir toda a sua coleção de vinis, que tanto suor custou a você, por seus correspondentes em CD (porque você sabe, digam o que disserem, que ainda não estão editados em CD todos os seus antigos discos e cassetes), não vão surgir com outro invento, ainda mais caro e mais moderno para que você se veja obrigado a jogar fora todos os CDs junto com os discos e as fitas? Solução? Esqueça tudo e comece a colecionar miniaturas de carros e... teremos um comprador de disco a menos!

8. A oferta da indústria fonográfica é excessiva e gratuita
Uma maneira perfeita de alienar o comprador: muitos lançamentos, muitos novos nomes, muitas modas, muitas tendências... Tendo em conta que o disco não é um bem de consumo essencial como é o sabão ou o pão, a maior parte dos produtos está destinada ao fracasso. As estatísticas não mentem: a maioria dos discos vendem menos de cem cópias. O excesso de novos valores piora ainda mais a situação. Não se cuida dos clássicos porque, em caso de êxito, os contratos com novatos resultam mais lucrativos para as empresas que artistas consagrados são mais exigentes, para começar, na porcentagem que vão receber em cima dos lucros.

9. A indústria fonográfica está nos obrigando a comprar um álbum de doze (ou mais) canções desconhecidas por causa de uma que gostamos
Ou seja, nos obriga a comprar doze quilos de feijão quando pedimos apenas um para fazer uma feijoada. Na realidade é mais grave: é como se, quando vamos comprar um quilo de feijão, nos obrigassem a comprar doze de resíduos e lixo. Pessoalmente acho que, falando de música popular, a canção constitui a unidade de medida e que é muito fácil encontrar canções boas, emocionantes e divertidas em qualquer temporada, mas é difícil que alguém que tenha gravado uma dessas canções consiga produzir, ao mesmo tempo, outras dez no mesmo nível. A maior parte da música que sai à venda são pequenos cortes feitos em uma obra maior. Isso sabem os próprios artistas, produtores e editores. Sintetizando: estou profundamente convencida de que fazer desaparecer o mercado de singles foi um erro irreversível.

10. O profissionalismo do pessoal da indústria fonográfica se degradou ostensivamente
O comum agora é que trabalhem nas gravadoras pessoas de marketing e não pessoas da música. Mas vender lingüiças é diferente de vender canções e seus tecnicismos equivocados as levaram à crise. As secretárias eletrônicas estão permanentemente ligadas para evitar o incômodo de alguém responder suas chamadas. E caso você consiga algum contato, ninguém vai querer saber quem você é - prova irrefutável de que não fazem seu trabalho e não lêem revistas - e vão te tratar com patadas (há exceções, mas quase sempre se trata de amigos ou gente dos velhos tempos). Quando eu comecei minha carreira como jornalista, foram as empresas que entraram em contato comigo para fazer chegar a mim seus discos... Mas naquela época não se falava em crises e agora sim.

11. O mercado do disco está na mão de senhores que não pertencem ao mundo da música
A crise dos primeiro anos da década de 90 acabou com as lojas de disco. Só sobreviveram estabelecimentos altamente especializados e os únicos que oferecem música ao grande público são as mega stores. Desprezo pelo cliente, desconhecimento sobre o produto e umas regras mercantilistas muito simplistas e reacionárias regem os principais pontos de venda de música deste país. A oferta se reduz ao mínimo segundo critérios equivocados de gente que não entende nem valoriza o que é a música.

(Tradução: Katia Abreu)


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