Março / 2003

Comité contra conspiração

Ian Svenonius

Por Mário Lopes


Ian Svenonius entende a arte, toda a arte, como intervenção política. Fê-lo desde sempre, tanto na banda Nation of Ulysses (que editaram o 13-Point Plan To Destroy America em 1991, muito antes de Bin Laden apresentar ao mundo o seu), como nos descendentes Make Up. A forma de actuação, essa, nunca seguiu a via do confronto directo de uns Clash ou Dead Kennedys. Da descendência hard-core passou à pregação soul e utilizou o púlpito para concentrar atenções em retórica cujos objectivos se liam nas entrelinhas. O forte efeito da metáfora utilizado uns passos à frente das "borboletas esvoaçando" do carteiro de Pablo Neruda. Findos os Make Up (por apropriação que lhes esvaziou o conteúdo - explicações já a seguir), Ian transformou-se em David Candy e, com banda sonora lounge (é só investigar Play Power, editado em 2001), passeou-se, boémio, por uma cidade imaginária misto de luz "Swingin' London", calor de Brasília e arquitectura revolucionária russa. Encontrámo-lo novamente, o ano passado, na companhia de Michelle Mae (ela dos Make Up) e Neil Michael Hagerty (ele dos Pussy Galore, ele dos Royal Trux), em Weird War, álbum de estreia homónimo de um muito recomendável super-grupo. Svenonius chama-lhe um "cadáver requintado", queixa-se da "natureza formalista" da maioria das bandas actuais e da dificuldade em criar sem os vícios que a História nos inculca a todos. Weird War terá mais "vícios" que o seu vocalista gostaria mas deixa o formalismo à margem. Para os criadores, será um exercício pop para o qual procuraram personalidade distinta em regime de "tempestade cerebral", para o ouvinte, o melhor dos mundos possível depois do fim dos Royal Trux e dos Make Up. O que, convenhamos, soa bastante apelativo. Ian Svenonius, que, muito provavelmente, discordaria de quase toda a prosa anterior, oferece-nos um pouco da sua já a seguir - Ler com cuidado. Grau de acidez elevado.

Como se juntaram Ian Svenonius, Michelle Mae e Neil Michael Hagerty nos Weird War? Seria Neil Hagerty, um alvo óbvio, dadas as digressões partilhadas com os Royal Trux e o lugar de produtor que assumiu em In Mass Mind [NR: penúltimo álbum dos Make Up, editado em 1998]?
Os Weird War têm sido uma contrucção constante. Não um grupo no entendimento tradicional mas um cadáver requintado. Daí a natureza multi-dimensional do trabalho.

Qual a Guerra Bizarra a que o vosso nome se refere? Pelo que se ouve no tema título do álbum, cantado por Michelle Mae, a guerra parece ser entre amantes. Contudo, é canção isolada. Nenhuma outra confirma essa sensação.
Weird War é o título de uma história em quadrinhos macabra e sobrenatural, da época em que histórias de guerra e horror coincidiam na imaginação popular. Um suculento "comic" contemporâneo dos filmes de Vincent Price. Como nome, parece uma súmula fantástica de tudo; de acontecimentos actuais e esforços criativos a contratos sociais.

Surpreendentemente, Weird War soa realmente àquilo que esperávamos de uma reunião de dois Make Up e um Royal Trux. Temos a tensão soul, o êxtase e a metaforização imaginativa que sempre fizeram parte dos Make Up, combinadas com a capacidade de Neil Hagerty para tornar assinatura sua pedaços de Sly Stone, James Brown, Stones, Zappa, Hendrix ou Captain Beefheart.
O objectivo dos Weird War foi a criação do fiasco; fazer um comentário à natureza formalista das bandas actuais, mostrar como cada uma delas é uma dolorosa emulação de uma banda ou género antiquados. A cena rock underground, seja ela chamada punk, garage ou indie, foi em tempos uma espécie de forma futurista - que a Indústria foi pilhando aos poucos (veja-se a Madonna dos inícios) - mas é agora uma sociedade de preservação com pouca inteligência; arrogante como guardiã do passado e orgulhosa das réplicas perfeitas que produz. "Punk" e "indie" são tão interessantes e provocadores como pintura de tinta chinesa... As revoluções contemporâneas na música são as réplicas intermináveis de bandas tributo a A Certain Ratio e Gang of Four e bandas "synth 80's" irónicas. Coisas com pedigrees sonoros intocáveis, como publicado pelos bem versados escribas de revistas como a Mojo. Toda a guitarra despoleta um fac-simile perfeito de uma outra que terá sido tocada por um dos "mestres".

O processo de gravação do álbum foi um trabalho de equipa, com todos os elementos ajudando na composição, ou tratou-se de algo mais fragmentado - Neil Hagerty trazia as canções, a si cabiam-lhe as letras e a Michelle aparecia para tocar baixo?
Foi absolutamente um "processo de Comité", com todos os membros trazendo riffs e palavras. Seguir esse processo funcionou como reacção à tarefa esmagadora que é afirmarmo-nos como individualidade perante uma congestionada tapeçaria histórica que se apropriou da nossa vontade individual.

No press-release de apresentação dos Weird War, lê-se, a certa altura, "há dias em que sonho uma borracha para limpar a imundície humana". A frase soa a irónico exemplo do discurso interventivo utilizado por muitos "rebeldes" do presente musical. Algo que, em vez de efectiva oposição, é visto como uma espécie de acne juvenil, como nada mais que uma contra-indicação da adolescência - Não é bonito, mas há-de passar. Nas bandas por onde passou, o discurso directo sempre foi substituído pela discreta utilização do humor e pelas metáforas certeiras. Mais uma vez, isso acontece com os Weird War. Usar ironia e uma dose assinalável de cinismo será a única forma de, hoje em dia, ser político em música pop?
A rebelião infantil a que fazes referência é algo por que temos uma aversão especial. O rock'n'roll como forma de rebelião é risível em comparação com a sua utilização comprovada como ferramenta de colonização. Uma que usa peões infernais e desgraçados como Vaclav Havel e a sua "Revolução de Veludo". Agora, o Leste [Europeu] representa apenas trabalho e matérias primas para os alemães e americanos. Na realidade, o propagandeado Plano Marshall é particularmente notável pela destruição de formas de arte indígenas da Europa e pela propagação de simpatia pela política americana via arte e comércio da nação. A partir daí, o Apocalypse Now reabilitou a política americana para o Vietnam da mesma forma que os Beatles tornaram o neo-colonialismo na Índia chic. O maior falhanço e a maior traição de Stalin aos comunistas foi a supressão dos Construtivistas e das artes de vanguarda nas repúblicas soviéticas. Eisenstein e Rodchenko seriam adversários de valor para Chuck Berry e Preston Sturges.

Afirmou em entrevista que os Make Up acabaram por terem-nos tornado redundantes. Porquê redundantes? Eram uma voz activa e refrescante no universo pop.
Quis com isso dizer que os imitadores tomaram a nossa apresentação como sua... Os fatos, a retórica e o estilo de performance. Quando esses grupos aproveitam meios comerciais que os Make Up rejeitaram, isso leva-os a maiores audiências e as circunstâncias exigem que procuremos uma nova forma de expressão.

Crítico de há muito da política interna e externa dos Estados Unidos, qual a sua opinião da América do pós 11 de Setembro e da eminente invasão do Iraque?
A guerra no Iraque: Uma tentativa de controle de todo o petróleo mundial e, particularmente, uma eliminação das reivindicações russas quanto ao petróleo iraquiano? Ou um esquema da indústria de armamento? Ou uma cortina de fumo para a criação de legislação demente nos Estados Unidos? Ou uma forma de justificar a relevância da OTAN e das bases militares americanas? Ou todas estas hipóteses... e mais... Uma Guerra Fria em versão mais avançada, já que o "terror" nunca se evaporará como aconteceu, infelizmente, com o estado dos trabalhadores. A expansão da OTAN pode ser vista como a nova linha de demarcação na guerra do mundo não-branco. Ao mesmo tempo, é uma rede de protecção para os novos países envolvidos, como a Máfia. Tens que acompanhar os "Jones" para ser um membro do clube, o que significa comprar produtos americanos, aviões, etc.

"Against reality/I live in a dream" (in "I Live In A Dream"). Estes parecem versos adequados para o herói mod David Candy, não para o mais realista, nada escapista Ian Svenonius. A alienação pode, por vezes, ser uma boa solução para tentar a felicidade na vida quotidiana?
A alienação é uma necessidade para a pessoa de gosto e consciência... Se alguém não é alienado pela CNN e merda tóxica semelhante, tenhamos piedade da sua alma!

No encarte de Weird War, encontramos um ensaio no qual se apresenta Jackson Browne como um dos maiores demónios com que o punk se insurgiu. Esse estava de fora. Que dizer dos demónios que o punk, depois da inocência, encontrou dentro de si? Desfiguraram-no sem remissão?
O ensaio propõe que o punk foi tornado paradigma por uma indústria preocupada com o crescimento de poder dos artistas que gravavam música. Nesse sentido, a propagação do punk foi uma forma de reduzir custos. Introduziu-se a falha como uma característica apelativa num grupo rock e convenceram-se as novas bandas que a pobreza era um estado de graça (muito à semelhança do catolicismo, onde os padres não têm nada e a Igreja é um imenso centro de riqueza). O ensaio propõe o punk como uma conspiração das editoras multinacionais e da classe dominante.

 

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