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Comité
contra conspiração
Por
Mário Lopes
Ian Svenonius entende a arte, toda a arte, como intervenção
política. Fê-lo desde sempre, tanto na banda Nation of Ulysses
(que editaram o 13-Point Plan To Destroy America em 1991, muito
antes de Bin Laden apresentar ao mundo o seu), como nos descendentes Make
Up. A forma de actuação, essa, nunca seguiu a via do confronto
directo de uns Clash ou Dead Kennedys. Da descendência hard-core
passou à pregação soul e utilizou o púlpito
para concentrar atenções em retórica cujos objectivos
se liam nas entrelinhas. O forte efeito da metáfora utilizado uns
passos à frente das "borboletas esvoaçando" do
carteiro de Pablo Neruda. Findos os Make Up (por apropriação
que lhes esvaziou o conteúdo - explicações já
a seguir), Ian transformou-se em David Candy e, com banda sonora lounge
(é só investigar Play Power, editado em 2001), passeou-se,
boémio, por uma cidade imaginária misto de luz "Swingin'
London", calor de Brasília e arquitectura revolucionária
russa. Encontrámo-lo novamente, o ano passado, na companhia de
Michelle Mae (ela dos Make Up) e Neil Michael Hagerty (ele dos Pussy Galore,
ele dos Royal Trux), em Weird War, álbum de estreia homónimo
de um muito recomendável super-grupo. Svenonius chama-lhe um "cadáver
requintado", queixa-se da "natureza formalista" da maioria
das bandas actuais e da dificuldade em criar sem os vícios que
a História nos inculca a todos. Weird War terá mais
"vícios" que o seu vocalista gostaria mas deixa o formalismo
à margem. Para os criadores, será um exercício pop
para o qual procuraram personalidade distinta em regime de "tempestade
cerebral", para o ouvinte, o melhor dos mundos possível depois
do fim dos Royal Trux e dos Make Up. O que, convenhamos, soa bastante
apelativo. Ian Svenonius, que, muito provavelmente, discordaria de quase
toda a prosa anterior, oferece-nos um pouco da sua já a seguir
- Ler com cuidado. Grau de acidez elevado.
Como se
juntaram Ian Svenonius, Michelle Mae e Neil Michael Hagerty nos Weird
War? Seria Neil Hagerty, um alvo óbvio, dadas as digressões
partilhadas com os Royal Trux e o lugar de produtor que assumiu em
In Mass Mind [NR: penúltimo álbum dos Make Up, editado
em 1998]?
Os Weird War têm sido uma contrucção constante. Não
um grupo no entendimento tradicional mas um cadáver requintado.
Daí a natureza multi-dimensional do trabalho.
Qual a
Guerra Bizarra a que o vosso nome se refere? Pelo que se ouve no tema
título do álbum, cantado por Michelle Mae, a guerra parece
ser entre amantes. Contudo, é canção isolada. Nenhuma
outra confirma essa sensação.
Weird War é o título de uma história em quadrinhos
macabra e sobrenatural, da época em que histórias de guerra
e horror coincidiam na imaginação popular. Um suculento
"comic" contemporâneo dos filmes de Vincent Price. Como
nome, parece uma súmula fantástica de tudo; de acontecimentos
actuais e esforços criativos a contratos sociais.
Surpreendentemente,
Weird War soa realmente àquilo que esperávamos de
uma reunião de dois Make Up e um Royal Trux. Temos a tensão
soul, o êxtase e a metaforização imaginativa que sempre
fizeram parte dos Make Up, combinadas com a capacidade de Neil Hagerty
para tornar assinatura sua pedaços de Sly Stone, James Brown, Stones,
Zappa, Hendrix ou Captain Beefheart.
O objectivo dos Weird War foi a criação do fiasco; fazer
um comentário à natureza formalista das bandas actuais,
mostrar como cada uma delas é uma dolorosa emulação
de uma banda ou género antiquados. A cena rock underground, seja
ela chamada punk, garage ou indie, foi em tempos uma espécie de
forma futurista - que a Indústria foi pilhando aos poucos (veja-se
a Madonna dos inícios) - mas é agora uma sociedade de preservação
com pouca inteligência; arrogante como guardiã do passado
e orgulhosa das réplicas perfeitas que produz. "Punk"
e "indie" são tão interessantes e provocadores
como pintura de tinta chinesa... As revoluções contemporâneas
na música são as réplicas intermináveis de
bandas tributo a A Certain Ratio e Gang of Four e bandas "synth 80's"
irónicas. Coisas com pedigrees sonoros intocáveis, como
publicado pelos bem versados escribas de revistas como a Mojo. Toda a
guitarra despoleta um fac-simile perfeito de uma outra que terá
sido tocada por um dos "mestres".
O processo
de gravação do álbum foi um trabalho de equipa, com
todos os elementos ajudando na composição, ou tratou-se
de algo mais fragmentado - Neil Hagerty trazia as canções,
a si cabiam-lhe as letras e a Michelle aparecia para tocar baixo?
Foi absolutamente um "processo de Comité", com todos
os membros trazendo riffs e palavras. Seguir esse processo funcionou como
reacção à tarefa esmagadora que é afirmarmo-nos
como individualidade perante uma congestionada tapeçaria histórica
que se apropriou da nossa vontade individual.
No press-release
de apresentação dos Weird War, lê-se, a certa altura,
"há dias em que sonho uma borracha para limpar a imundície
humana". A frase soa a irónico exemplo do discurso interventivo
utilizado por muitos "rebeldes" do presente musical. Algo que,
em vez de efectiva oposição, é visto como uma espécie
de acne juvenil, como nada mais que uma contra-indicação
da adolescência - Não é bonito, mas há-de passar.
Nas bandas por onde passou, o discurso directo sempre foi substituído
pela discreta utilização do humor e pelas metáforas
certeiras. Mais uma vez, isso acontece com os Weird War. Usar ironia e
uma dose assinalável de cinismo será a única forma
de, hoje em dia, ser político em música pop?
A rebelião infantil a que fazes referência é algo
por que temos uma aversão especial. O rock'n'roll como forma de
rebelião é risível em comparação com
a sua utilização comprovada como ferramenta de colonização.
Uma que usa peões infernais e desgraçados como Vaclav Havel
e a sua "Revolução de Veludo". Agora, o Leste
[Europeu] representa apenas trabalho e matérias primas para os
alemães e americanos. Na realidade, o propagandeado Plano Marshall
é particularmente notável pela destruição
de formas de arte indígenas da Europa e pela propagação
de simpatia pela política americana via arte e comércio
da nação. A partir daí, o Apocalypse Now reabilitou
a política americana para o Vietnam da mesma forma que os Beatles
tornaram o neo-colonialismo na Índia chic. O maior falhanço
e a maior traição de Stalin aos comunistas foi a supressão
dos Construtivistas e das artes de vanguarda nas repúblicas soviéticas.
Eisenstein e Rodchenko seriam adversários de valor para Chuck Berry
e Preston Sturges.
Afirmou
em entrevista que os Make Up acabaram por terem-nos tornado redundantes.
Porquê redundantes? Eram uma voz activa e refrescante no universo
pop.
Quis com isso dizer que os imitadores tomaram a nossa apresentação
como sua... Os fatos, a retórica e o estilo de performance. Quando
esses grupos aproveitam meios comerciais que os Make Up rejeitaram, isso
leva-os a maiores audiências e as circunstâncias exigem que
procuremos uma nova forma de expressão.
Crítico
de há muito da política interna e externa dos Estados Unidos,
qual a sua opinião da América do pós 11 de Setembro
e da eminente invasão do Iraque?
A guerra no Iraque: Uma tentativa de controle de todo o petróleo
mundial e, particularmente, uma eliminação das reivindicações
russas quanto ao petróleo iraquiano? Ou um esquema da indústria
de armamento? Ou uma cortina de fumo para a criação de legislação
demente nos Estados Unidos? Ou uma forma de justificar a relevância
da OTAN e das bases militares americanas? Ou todas estas hipóteses...
e mais... Uma Guerra Fria em versão mais avançada, já
que o "terror" nunca se evaporará como aconteceu, infelizmente,
com o estado dos trabalhadores. A expansão da OTAN pode ser vista
como a nova linha de demarcação na guerra do mundo não-branco.
Ao mesmo tempo, é uma rede de protecção para os novos
países envolvidos, como a Máfia. Tens que acompanhar os
"Jones" para ser um membro do clube, o que significa comprar
produtos americanos, aviões, etc.
"Against
reality/I live in a dream" (in "I Live In A Dream"). Estes
parecem versos adequados para o herói mod David Candy, não
para o mais realista, nada escapista Ian Svenonius. A alienação
pode, por vezes, ser uma boa solução para tentar a felicidade
na vida quotidiana?
A alienação é uma necessidade para a pessoa de gosto
e consciência... Se alguém não é alienado pela
CNN e merda tóxica semelhante, tenhamos piedade da sua alma!
No encarte
de Weird War, encontramos um ensaio no qual se apresenta Jackson
Browne como um dos maiores demónios com que o punk se insurgiu.
Esse estava de fora. Que dizer dos demónios que o punk, depois
da inocência, encontrou dentro de si? Desfiguraram-no sem remissão?
O ensaio propõe que o punk foi tornado paradigma por uma indústria
preocupada com o crescimento de poder dos artistas que gravavam música.
Nesse sentido, a propagação do punk foi uma forma de reduzir
custos. Introduziu-se a falha como uma característica apelativa
num grupo rock e convenceram-se as novas bandas que a pobreza era um estado
de graça (muito à semelhança do catolicismo, onde
os padres não têm nada e a Igreja é um imenso centro
de riqueza). O ensaio propõe o punk como uma conspiração
das editoras multinacionais e da classe dominante.
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