Maio / 2003

A psicorebeldia de Walter Franco e Zé do Caixão

Por Alex Antunes

Walter Franco

A programação do 2Hype, segunda edição do festival eletrônico do Sesc Pompéia, em São Paulo, foi na prática e na sua maior parte uma extensão do casting gringo do Eletronika, realizado dias antes. Suas duas noites originais (e ironicamente as de menos "hype", portanto de menor público) foram concebidas como releituras de dois ícones "subversivos" brasileiros da passagem dos anos 60 para os 70.

Dois artistas da rebeldia estética mais inclassificável: o cineasta Zé Do Caixão e o cantor e compositor Walter Franco. Que atingiram seus ápices, respectivamente, pouco antes e pouco depois do início da fase mais sombria da ditadura militar. Coincidência ou não: sem serem políticos no sentido mais doutrinário do termo, Zé e Walter deixaram uma marca indelével e inspiradora no espírito libertário nacional.

Eu mesmo me lembro da intensa sensação de, ainda criança, assistir: a) à volta da minha mãe e da minha tia, completamente sideradas, de uma sessão noturna do filme Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver no cinema da então pacata Peruíbe, no litoral sul, provavelmente em 1968; b) à participação de Walter com a anárquica composição (?) "Cabeça" no Festival Internacional da Canção em 1972, que levou à destituição do júri (presidido por Nara Leão) que pretendia consagrá-lo.

Tarefa delicada, por lidar ao mesmo tempo com um material formalmente marcante e profundamente afetivo para o imaginário parapsicodélico brasileiro, essa releitura pode ter sido mais (Zé) ou menos (Walter) bem-sucedida. Mas deixa a tristeza de não ter mobilizado um público desatento, o mesmo que lotou a choperia do Sesc em noites dedicadas a novidades gringas mais (Rubin Steiner) ou menos (Stereo Total) significativas.

De qualquer modo, quem estava lá sentiu o frisson de ver esses dois tiozinhos loucos (e hoje um pouco combalidos) sacudirem a poeira e brilharem de novo por um instante fugaz, situado fora do tempo.

Zé do Caixão se beneficiou de uma ótima e criativa companhia: o trio (para a ocasião, quarteto) LCD numa atitude respeitosa e propiciadora. Paulo "anvil FX" Beto (programações, synths), Dr. Silvestre (eletrônica obsoleta) e Miguel Barella (guitarra processada) mantiveram o tempo todo a sua música eletrônica fortemente improvisada sob controle, se esmerando em criar climas densos para as performances de Zé e dos atores do seu grupo, além de músicos e performers convidados.

No início e no final do show, o grupo providenciou a trilha para a performance ao vivo de Zé, com os elementos usuais (a chegada de um séquito mascarado conduzindo um caixão, com a escolta de garotas seminuas) e outros nem tanto (não foi ele quem saiu do caixão, mas um "usurpador", rapidamente "punido" pela chegada do verdadeiro Zé).

Na parte central, o grupo duelou com imagens e com áudio de seus filmes, trazendo ao palco participações especiais como a da cantora e a da dançarina do inenarrável grupo pop-brega Gengis Khan (ambas em ótima forma), ou do cantor/ poeta Rodrigo Carneiro e de Magda Pucci, do grupo Mawaca, à sanfona, interpretando uma versão declamada/ estilizada de "A Peleja Do Diabo Contra O Dono Do Céu", de Zé Ramalho (compositor predileto e discípulo espiritual do Zé).

Entre indícios de uma pesquisa acurada (o arranjo electro para uma música da esquecida cantora De Kalafe, originalmente na trilha de O Despertar Da Besta) e a edição/ tratamento cuidadosos do material original (com a participação do quarto LCD, Kiko Araújo, no processamento das imagens em vídeo), essa foi uma performance interessantíssima, em que o experimental e o trash se deram as mãos com resultados eletrizantes, como acontecia às vezes há trinta anos.

Já a proposta que o Sesc fez para Walter Franco foi bastante interessante: recriar ao vivo seu álbum Revolver, de 1975, pioneiro no uso de loops e processamento de sons na MPB. Sucessor do caótico "álbum da mosca" (Ou Não, 1973), esse segundo disco de Walter (com arranjos do baixista Rodolpho Grani Jr. e do baterista Diógenes Burani, e produção de Pena Schmidt) pegou na faceta zen, quase beatífica da poesia de Walter e lhe deu um caráter mais duro, enfático.

É o álbum em que Walter, que tem uma veia francamente beatleniana em sua produção (vide o próprio título do disco), soa mais malvado, mais roqueiro, stoniano. E que rendeu marcos como a lancinante "Feito Gente". Mas Walter, menos confiante que Zé do Caixão, se fez cercar na apresentação por músicos mais próximos, e menos atualizados, o que gerou um resultado um pouco mais morno do que o que poderia ter sido conseguido, com tal material original.

São históricos os shows que Walter fez na época, sozinho no palco, com o produtor Pena Schmidt pilotando da mesa os delays e os pans numa viagem psicoacústica inesquecível para quem esteve lá. Uma amostra de como essa linguagem poderia ter sido retomada foi dada na própria abertura do show, com uma versão de "Cabeça" (que é anterior a Revolver) editada/ tocada/ processada ao vivo por anvil FX.
Seguiu-se um duo dele com o clarone de Livio Tragtemberg, também interessante. A entrada de Walter e da banda propriamente dita trouxe um clima mais fusion/ folk/ progressivo, e bem menos eletrônico, na acepção atual do termo.

Talvez o maior equívoco tenha sido a escalação do tecladista e programador Dino Vicente, que parece estacionado, em termos de timbres e arranjos, bem no meio do caminho: nem nos anos 70 (chiques, "vintage") de Walter nem na atualidade; mas nos anos 80 da eletrônica popizada. E o guitarrista Raul Duarte Jr. também é um pouco chegado ao clichê, apesar de competente.

A presença tímida do filho de Walter, Diogo, nos vocais, parecia atender a razões mais afetivas do que propriamente artísticas. Também afetiva - afinal, todo mundo, inclusive o público, parecia estar ali por razões fortemente sentimentais -, mas um pouco mais bem aproveitada, foi a presença de Wilson Sukorski ao theremin.

Havia porém um duo fenomenal de baixos (o próprio Grani, e Willy Verdaguer, ex-Beat Boys, apresentado por Walter como um dos homens que introduziram as guitarras na MPB, ao acompanhar Caetano em "Alegria, Alegria") e os fluentes Emilio Carrera (o pianista original de Revolver) e Nonato Teixeira (baterista), jazz-roqueiros pero controlados. Esses, e o grande carisma de Walter, faziam esquecer que esse afinal era um festival... de eletrônica.

Um olhar de relance para as projeções de slides feitas na lateral do palco, com imagens do jovem Walter nos festivais de 72 e de 75 (o Abertura, em que concorreu com a sussurrada "Muito Tudo", provocando o público ao lado do maestro Julio Medaglia), já dava uma dimensão mítica para a coisa. A pedidos dos fãs, uma versão ortodoxa da doce balada "Vela Aberta" (posterior a Revolver) no bis mandou o conceito eletrônico/ modernex do Sesc de vez para as calendas.

 

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