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25.11.03
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Sem sombra de dúvida Por Juliana Zambelo
Nessa mesma direção, deve ter muita gente - e entre essas pessoas, muitos homossexuais - perguntando-se se The Hidden Cameras é mesmo uma boa notícia. O super grupo canadense, que acaba de ter seu primeiro disco lançado no Brasil, é formado por gays e faz música essencialmente sob essa ótica, com letras explícitas a respeito de sexo e relacionamento. Como poucas vezes se viu antes na música pop, Joel Gibb, líder do combo, canta sem metáforas o sexo entre dois homens.
É lógico que homossexualidade sempre existiu no pop - rock and roll incluído - mas a pressão "macho", que pesa sobre a cabeça dos roqueiros desde Elvis (e dos homens em geral desde sempre), é a versão que predomina. Por isso não é de se estranhar que existam tão poucos gays assumidos nesse universo, ainda que o círculo artístico seja considerado um ambiente mais aberto e tolerante, principalmente em relação a drogas e sexo.
Porém, como também nisso existem diferenças, acabaram por se delinear, dentro da música, ambientes distintos. Há espaços mais conservadores, que geraram representantes praticamente únicos em cada movimento: Pete Shelley do Buzzcocks no punk rock, Rob Halford do Judas Priest no metal, Freddy Mercury no rock de arena, Michael Stipe no rock alternativo. Enquanto isso, por outro lado, segmentos foram marcados por uma forte presença gay, como o technopop de Marc Almond (Soft Cell) e Andy Bell (Erasure) ou o pop puro e simples de Elton John, Boy George, k.d. lang e Rufus Wainwright. Mas a aceitação quase nunca é total em qualquer desses níveis. Piadas e olhares irônicos são inevitáveis.
O que os piadistas não percebem é que boa parte da história da boa música equilibra-se no meio termo entre homo e hétero, e uma razoável porcentagem de seus momentos mais criativos deve-se a isso. Porque foi no fio da androginia e da dúvida que caminharam nomes imprescindíveis do universo pop das últimas décadas.
Em 1974, David Bowie cantava "Você deixa sua mãe confusa / Ela não sabe direito se você é um menino ou uma menina". Ele usava maquiagem, bijuterias enormes, roupas que não podiam ser muito bem definidas como masculinas ou femininas, e a legião que ele arrastou com essa pose foi grande. Cerca de dez anos depois, Morrissey escreveu "Eu sou um rapaz e você é uma garota / Eu sou uma garota e você é um rapaz" para alguém chamada Sheila, e seu séquito não foi menor. É como se a androginia, combinando atração e repulsão, esquisitice e normalidade, tivesse uma força extra.
E ela existe em diferentes graus: Brett Anderson, do Suede, declara ser gay apesar de nunca ter feito sexo com outro homem; Bono Vox troca selinhos com The Edge no palco; Joan Jett usa calça de couro e toca guitarra; Lux Interior, do The Cramps, toca guitarra usando sapatos de salto agulha; Moby afirma gostar de meninos e meninas. Mais do que brincar com gêneros, a androginia acrescenta algo aos elementos da música e a dúvida cria espaços. Sabe-se que a ligação sexual entre fã e artista é um dos principais ingredientes da idolatria. Por isso, enquanto no caso de Christina Aguilera, por exemplo, o mais comum é que as meninas queiram ser como ela e os garotos queiram estar com ela, quando o sexo do artista não fica muito claro, as possibilidades são quase infinitas.
No Hidden Cameras, não existem muitas possibilidades. Apenas uma, aberta por eles: a de se cantar sobre sexo gay com a mesma naturalidade que Peaches ou MC Serginho cantam sobre sexo heterossexual. No disco The Smell Of Our Own, Joel Gibb não quis se esconder atrás de metáforas ("ser barco a motor e insistir em usar os remos", como fez Renato Russo) ou de campos neutros (de versos quase indecifráveis de Michael Stipe), por isso conta nas letras como gosta de sentir o perfume da nuca de garotos, fala de porra, de bunda, de varas, de buracos sujos, de ser esposa de alguém. Às vezes, as letras saem vulgares, mas em geral são só um pouco pornográficas. O que não fica muito bem claro, e pode gerar algum desconforto, é se essa é a maneira como a homossexualidade deveria abrir seu espaço no pop.
Nem tudo no álbum é sobre sexo, mas como ele é o centro e o chamariz da obra, o resto fica eclipsado. E isso é até bom, porque se por um lado ideológico o CD pode ser encarado como uma conquista, musicalmente o grupo é pouco instigante e de uma beleza não muito especial. O som é um pop carregado, um pouco barroco, o elo entre o ritmo e as melodias do Belle and Sebastian e a força do coral do Polyphonic Spree. São 14 os integrantes creditados, e eles tocam de violinos a trombones, enquanto o líder se encarrega de voz, piano, baixo, guitarras, sinos e bateria eletrônica, entre outras coisas. O disco traz momentos inspirados - "Golden Streams", "Breathe On It", "Boys Of Melody", "The Man That I Am With My Man" - mas em geral é um pouco banal.
The Smell Of Our Own, assim como o filme Ninguém É Perfeito, insere-se em uma discussão importante com pontos de vista relevantes e picos dignos de nota, porém não se resolve sozinho como obra. Se Joel Gibb tivesse, para compor melodias, a mesma audácia que possui na hora de rabiscar suas letras, talvez o Hidden Cameras se destacasse inteiramente do batido indie pop. Sendo como é, vai ficar marcado como o Belle and Sebastian gay - carregando duas amarras, como se uma só já não fosse incômoda o bastante.
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