23.04.04

Um rato no arquivo dos Beatles

Por Gustavo Abreu

O DJ Danger Mouse
A essa altura já estão todos sabendo da polêmica com o disco que agrega aos vocais do Black Album, do rapper Jay-Z, bases remixadas do White Album, dos Beatles. O nome da polêmica é Grey Album e seu autor é o DJ americano Danger Mouse. O assunto só é polêmico e estão todos sabendo porque, mais uma vez, uma grande gravadora faz grande trapalhada: a Capitol/EMI, detentora dos direitos sobre as gravações dos Beatles, proibiu o Grey Album de circular porque o uso dos samples retirados do "Álbum Branco", de 1968, não foi autorizado.

Grande cerne da questão, a legislação para os direitos autorais funciona de forma bastante torta: se você quiser gravar uma música dos Beatles, qualquer uma delas, basta remunerar, pelo chamado royalty, o proprietário dos direitos autorais. Ainda que contra a vontade da editora da canção, você pode fazer seu cover e pagar uma licença compulsória de US$ 0,085 (isso, oito cents e meio de dólar, ou 25 centavos de real. Ou seja, quase 1% do preço final de um CD) por cópia vendida, pelo menos na legislação americana, onde está inserido o DJ Danger Mouse. Ou seja, para se fazer uma regravação legalizada de qualquer obra dos Beatles, basta pagar sobre sua vendagem e enfrentar o magnífico destino de ser o milésimo artista a fazer um cover de "Hey Jude".

Agora, se você deseja samplear aquele último compasso quase perdido no final da última música do Rubber Soul para produzir um estupendo hit de drum'n'bass que abalaria as pistas de todo o mundo... bom, aí, parceiro, você teria que se tornar um fora-da-lei.

Isso porque o direito autoral sobre o fonograma original permite veto. E desde que os Bestie Boys samplearam os Beatles no álbum Paul's Boutique, de 1989, ninguém mais conseguiu essa autorização (vale lembrar que os Beastie Boys só obtiveram tal licença porque o disco saiu pela Capitol/EMI, a mesma que detém os direitos sobre as gravações dos Beatles).

Enquanto todos pensávamos que as grandes gravadoras precisavam de novas formas para ganhar dinheiro, elas nos dizem exatamente o contrário.

Nessa reviravolta estúpida de valores culturais e econômicos, somos impedidos de ouvir legalmente o que o DJ Danger Mouse produziu. E os inteligentíssimos executivos californianos, do alto daquele célebre prédio em forma de discos empilhados, teimam em se privar da oportunidade de faturar junto com o artista (aliás, estão é gastando fortunas com advogados, mídia e etc.).

Seria justo que reinvindicassem participação nos lucros pela vendagem do "Grey Album", só que mais do que isso, eles simplesmente querem o direito de nos dizer que não podemos ouvir o que o DJ Danger Mouse fez!

Medidas extremas para atitudes desesperadas, uma verdadeira massa de ativistas digitais teceu incrível rede de apoio e desobediência civil, disponibilizando o álbum de Danger Mouse para download gratuito.

Claro que estes sites também receberam cartas de ameaça da Capitol/EMI solicitando a retirada imediata das músicas da rede sob pena de processo judicial e pagamento de altas indenizações. Aconselhados também por advogados, a maioria desses sites manteve o protesto e continuou disponibilizando o download por um singelo motivo: é de graça!

Um desses sites teve inclusive a presença de espírito de responder à carta da Capitol/EMI com a letra de "Little Piggies", que está no Álbum Branco e foi sampleada pelo Danger Mouse. A letra se refere a porquinhos chafurdando na lama sem se importar com o que se passa ao redor.

Graças a essas pessoas corajosas, hoje podemos encontrar o disco proibido circulando pela internet. E como era de se esperar, as vendas do "Álbum Branco" em si aumentaram incrivelmente com toda a polêmica. É uma geração inteira de rappers americanos, e de outras partes, descobrindo Beatles pelas mãos do renegado e perigoso rato...

Se liga João Gilberto que você é o próximo!

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