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Rock de um take só
Por Juliana Zambelo
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Brasileiro está tão acostumado com atrasos que raras vezes se dá ao trabalho de chegar na hora. Quando isso não forma um ciclo que provoca mais atrasos, o que acontece é que alguém acaba perdendo começos. Mês passado, em bom número de pessoas se deu mal nessa brincadeira. Porque o SESC Pompéia, na primeira noite do Teenage Fanclub em São Paulo, e o Curitiba Pop Festival resolveram ser pontuais e as apresentações da banda Grenade aconteceram cedo, escapando do público que ainda estava a caminho. O quarteto de Londrina acabou tocando para uma platéia semi-vazia que disfarçava muito mal a ansiedade pela atração principal da noite.
A visibilidade de dividir o palco com artistas internacionais compensa problemas como esse?
Rodrigo Guedes: Não muito. Na verdade nossa expectativa era de que muito mais gente estivesse lá para assistir o Grenade. Tocar com gringos não faz muita diferença na verdade. Tocar em festivais só vale a pena por causa da exposição. É tudo muito frio, diferente de casas pequenas para 200 pessoas.
Por isso pouca gente sabe que a banda ao vivo corresponde a todas as expectativas criadas desde o lançamento do ótimo CD Grenade há poucos meses. Que o show é tão coeso, cativante e bem executado quanto as 16 músicas do álbum. Que Eric, Eduardo e Paulo, os novos membros, são bastante competentes e a performance de Rodrigo Guedes não dá a menor pinta de que, há até pouco tempo, ele andava solitário a gravar canções folk e experimentais no conforto da sua casa - dando conta assim dos primeiros trabalhos do Grenade.
Se mudou o som e a formação da banda, por que manter o mesmo nome?
Eu gosto da idéia de que uma banda pode ser uma coisa mutante. Sempre gostei de artistas que conseguiram inovar sem precisar se esconder atrás de outros projetos. Sempre existe o risco de quebrar a cara e ter que conquistar outro público, mas acho isso o melhor de tudo. A grande motivação.
O que vai acontecer com as músicas da fase anterior da banda? Vão ser tocadas ao vivo ou serão abandonadas?
Com o tempo vamos trazendo essas músicas de volta com outra cara. Estamos sempre transformando as músicas. Até mesmo as do disco mais recente já estão diferentes ao vivo.
Não é de se estranhar. O disco foi gravado há mais de um ano. E foi feito de maneira simples, com todo mundo tocando junto (o famoso "ao vivo no estúdio"). O toque de capricho ficou por conta da masterização, a cargo de Steve Fallone - que tem seu nome nos créditos de discos de Strokes, Jon Spencer Blues Explosion e até em Wave: Antonio Carlos Jobim Songbook.
A gravação do disco novo foi feita em 2002. Isso atrapalha muito o ritmo da banda?
Atrapalha sim. A gente não pára de fazer música, então sempre achamos que nosso melhor trabalho é o que está mais atual. Isso tira um pouco a graça do disco pra gente, mas infelizmente esse período de espera entre gravação e lançamento foi importante e acabamos fazendo a coisa certa, no melhor momento. O legal é que a gente já sabe que o próximo será totalmente diferente e ainda melhor.
Para gravar ao vivo em estúdio vocês devem ter feito muitos ensaios. Quando tempo o álbum demorou para ser ensaiado e gravado, como foi essa preparação?
Não existiu uma preparação, porque sempre estamos ensaiando. Nós curtimos muito passar bastante tempo tocando e isso ajuda na hora de gravar ao vivo, que na verdade é o formato ideal pro Grenade. A base instrumental do disco foi quase toda gravada em um take, num único dia.
A banda parece funcionar muito bem no palco. De onde vem esse entrosamento? É resultado daqueles mesmos ensaios?
Exato. Acho que quanto mais estamos tocando juntos, mais a gente se entende. Essa idéia vem desde a época do Killing Chainsaw, onde a banda morava junto e passava o dia todo no quarto do barulho. Isso não ajuda somente na execução das músicas, mas na direção da coisa toda para o futuro.
Futuro é uma palavra sempre um tanto problemática - às vezes melancólica - para quem vive na independência, diante de uma precariedade que não consegue ser vencida. Essa crença no que está por vir deve ser o que explica que Rodrigo persevere no ingrato cenário independente brasileiro há mais de dez anos, desde que integrou o influente Killing Chainsaw.
Quando o álbum foi lançado, uns meses atrás, a reação da imprensa foi boa. Qual é o resultado prático disso? Para uma banda independente, como uma crítica positiva na Folha de S. Paulo, por exemplo, se reflete em popularidade, em venda de CDs e nos shows?
Ajuda na medida em que as pessoas ficam mais curiosas em conhecer a banda. Eu sempre fui assim. Sempre gostei de ler uma resenha e procurar os discos. Faço isso até hoje, então essa exposição é ótima. Mas nada disso resolve se você não tem uma boa distribuição e felizmente isso nós temos agora. As pessoas podem encontrar o disco com facilidade.
Parece que atualmente o cenário independente brasileiro está crescendo. O que você acha que falta para que se consolide um underground no país, capaz de se estabilizar e se sustentar sozinho (cultural, ideológica e financeiramente)?
Dinheiro pra tanta gente boa que anda trabalhando direito pra fazer a coisa acontecer. Acho que as pessoas que batalham há mais tempo dentro da tal cena independente são incríveis e sabem muito, porque vivem fazendo isso com bem menos recursos do que o necessário. Com um pouco mais de grana tudo seria diferente. Distribuição de discos está deixando de ser um fantasma, então agora precisamos estruturar um circuito de shows e melhores condições para as bandas. Mas é tudo uma questão de tempo. O melhor a gente já tem. Boa música.
Por fazer um som simples e direto, o novo Grenade pode ser acusado de conservador. Difícil fazer simplesmente rock hoje em dia, com tantos hypes, salvadores, renascimentos, ao mesmo tempo em que misturas que fogem do rock básico estão sendo muito bem feitas e recebidas. Mas o Grenade assume o risco.
É possível fazer algo "novo" no rock hoje? Como ser criativo em um estilo tão batido?
Não acho que precise ser feito algo novo, mas acho que algo de verdade. Isso me deixa animado. Quando escuto uma banda que fez pra valer, com o foco na música, não no público. O rock sempre foi batido, mas nem por isso menos excitante. Gosto das coisas novas, mas desde que sejam de verdade. Os bons discos de rock ainda são os mais simples.
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