Fevereiro / 2003

As paisagens sonoras de Beth Gibbons


Por Katia Abreu

 

Beth Gibbons e Rustin' Man

Melancólico, como uma paisagem de outono. Denso e misterioso, como o oceano. Suave, como uma brisa de verão. E, sobretudo, agridoce, como o amor. Out Of Season pode ser descrito assim, com imagens que a própria Beth Gibbons e seu parceiro Rustin' Man (ou Paul Webb, se preferirem) utilizam nos quase 44 minutos deste álbum lançado no final de 2002, bem a tempo de figurar em algumas listas de melhores do ano.

Out Of Season é o primeiro trabalho a solo da vocalista do Portishead (Gibbons), junto com o ex-baixista do Talk Talk (Webb). Não se trata de uma mistura da new-wave da antiga banda dele mesclada ao trip-hop do grupo que a alçou à fama. (Embora estejam presentes, como músicos convidados, Adrian Utley, guitarrista do Portishead, e Lee Harris, ex-baterista do Talk Talk). Nesse projeto, uma mistura de folk, jazz, gospel e música de cabaré. Tudo muito acústico (exceto a última faixa do disco, "Rustin' Man" - de onde vem o alterego que Webb assume aqui - em que a presença de sintetizadores, bits eletrônicos e vocoder chega a ser irritante e, talvez por isso, essa seja a canção mais fraca do álbum).

Uma atmosfera que leva o ouvinte não a um pub inglês (como seria esperado dada a nacionalidade dos autores do disco) mas a um típico bar norte-americano, onde com um copo de whisky em uma das mãos e um cigarro na outra, podemos nos deleitar com a bela voz de Gibbons acompanhada de um guitarra acústica, um piano (muito bem tocado, diga-se) e por vezes um cello e um ou outro instrumento de sopro.

Out Of Season vai fundo no que há de mais americano sonoramente. Desde os vocais, nos quais Gibbons se arrisca em timbres que lembram divas do jazz, como Billie Hollyday e Nina Simone, até as imagens melancólicas sugeridas que fogem da habitual evocação à chuva que é tão própria dos ingleses. E é nas imagens que as letras trazem que esse disco ganha muitos pontos.

Aliadas a melodias etéreas (como são as do Portishead), as descrições cantadas por Gibbons vão se formando tal um filme na nossa mente enquanto escutamos o disco. Ela nos conduz a uma viagem, nos levando à paisagens visuais e sonoras inesquecíveis e que se tornam mais belas a cada vez que escutamos Out Of Season. Em "Misteries", um folk à Joni Mitchell que abre maravilhosamente o álbum, podemos sentir os sinos que tocam o coração da cantora e que fazem com que o dia dela se torne melhor. "Sand River" pode ser encarada como a síntese deste disco. "Autumn leaves / Beauty's got a hold on me / Autumn leaves / Pretty as can be / Everyone can see / Everyone except me". Out Of Season é sobre isso: paisagens inspiradoras e a sensação de estar fora de tudo isso.

Fala-se de amor, é claro. Em "Tom The Model", Gibbons diz ao amante que jamais poderá esquecê-lo. Mas não há aqui uma concepção inocente (ou romântica, como queiram) da relação. Ela sabe que tudo pode acabar, que os corações podem se ferir, e ainda assim assume os riscos e canta, em um refrão avassalador, em que a influência gospel desta música fica evidente: " So do what you're gotta do / And don't misunderstand me / You know you don't ever have to worry 'bout me / I'd do it again".

O nobre sentimento tão cantado em verso e prosa volta à cena muitas outras vezes como em "Resolve" e em "Drake" (que curiosamente é a faixa onde nota-se mais claramente outra influência muito apontada pelos críticos neste álbum: Nick Drake). Um outro amor, mais humanista, talvez, aparece em "Romance" ("Better the thought than the feeling / It's plain to see / All the things we suffer / From the the hands of humanity"), uma canção em que Gibbons soa como uma cantora ébria em um cabaré francês da década de 40.

É um álbum assumidamente triste. Nas páginas do site oficial de Gibbons, a cantora e compositora declara seu gosto por canções tristes. "Eu acho que é muito difícil escrever uma canção feliz sem soar de alguma forma melancólica". E depois de ouvir Out Of Season não restam dúvidas de que ela é bastante competente para isso.

Em tempo: o fato de Gibbons ter editado um trabalho a solo não significa de forma alguma o final do Portishead. Ela já andou dizendo por aí que já está trabalhando nas melodias para o próximo álbum da banda.

 

Também nesta edição:

Enquanto a femme fatale ilude e seduz, De Palma seduz ao desmascarar o cinema

Amarelo Manga: finalmente um cinema nacional sem culpa

Vocalista do Svetlana, revelação do Upload 2002, fala sobre o ridículo de amar

Livros Do Mal revela talentos e firma posição no mercado editorial

Cristiano Baldi dá mostras de seu sarcasmo libertário em Ou Clavículas

A resposta para a crise da indústria fonográfica é dada por um corvo

De Ursula Andress a Halle Berry, muito mudou no relacionamento de 007 com as Bond girls

The Streets mistura rap e garage para embalar noites de bebedeira

Pop britânico volta a respirar com as curtas canções do The Coral

Conheça Kubelka, que em 50 anos produziu menos de 50 minutos de filme

Um guia de sobrevivência lingüística para você não passar perrengue no Nordeste

Mais uma lista? Conheça dezenove discos para entender a MPB