Novembro / 2002

De volta para o futuro


Os americanos do Flaming Lips

Por Juliana Zambelo



Enquanto as novas bandas que têm "feito" o rock desde o ano passado apostam em barulheira básica, garageira e revivalista, as listas de melhores do ano de 2002, que os críticos do mundo todo devem começar a organizar em algumas semanas, vão estar encabeçadas por grupos que já possuem anos de estrada e álbuns que estão tão longe de serem básicos que nem podem realmente ser chamados de rock.

Os álbuns em questão são Yankee Hotel Foxtrot, do Wilco, já dissecado e aclamado até a exaustão, e o recém lançado novo trabalho do Flaming Lips, Yoshimi Battles The Pink Robots. Dois grandes trabalhos de duas bandas que já deixaram de ser novidade faz tempo. E, o que é ainda melhor do que os dois serem bons, é que eles não poderiam ser mais diferentes um do outro. São caminhos quase opostos - ambos são essencialmente acústicos e eletrônicos, mas o Wilco carrega no folk enquanto o Flaming Lips privilegia a tecnologia - mas que acabam atingindo o mesmo resultado: o raro pop bom e inteligente.

No caso de Yoshimi Battles The Pink Robots, o "inteligente" pode até beirar o "cabeça", que em 99% das vezes é sinônimo de "chatice", mas o Flaming Lips conseguiu ficar em cima dessa linha tênue, então a escolha depende do ouvinte. Fica a cargo de quem o escuta decidir se quer "ler" esse CD como um álbum experimental ou uma simples seqüência de músicas. Porque Yoshimi... suporta a definição "conceitual" tão bem quanto possui faixas que são ótimas por si só.

Como o nome já entrega, esse disco fala sobre robôs, sobre futuro, e soa de acordo com essa temática. Baixo e guitarra acústica dão calor e um pouco de conforto à música, enquanto a pesada base de teclados e todos os tipos de intervenções eletrônicas a esfriam, criando um clima contraditório de proximidade e distanciamento em um balanço perfeito. As referências são óbvias: de Brian Eno com David Bowie a Brian Eno com U2 no projeto Passengers, e muita trilha sonora de ficção científica, só que isso tudo acrescido de alguns momentos de melodias mais simples.

As letras são o lado mais doce de Yoshimi... Porque Wayne Coney, líder da banda, está longe de ser um entusiasta do futuro quando canta sobre robôs que adquirem sentimentos, aprendem "a ser mais do que uma máquina" e, na seqüência, querem destruir os homens. Em "All We Have Is Now", ele recebe a visita de seu "eu" do futuro dizendo: "Nós nunca vamos conseguir. Você e eu não fomos feitos para sermos parte do futuro". E não deixa claro se ele se refere mesmo apenas a "nós - você e eu" ou "nós, a humanidade". Coney deve ter visto muito Blade Runner na infância, que o inspira uma espécie de Carpe Diem pós-moderno, baseado no mais duro pessimismo ("Você tem consciência de que todo mundo que você conhece um dia vai morrer?... A vida passa muito depressa e é difícil fazer
as coisas boas durarem"). Até os mais lindos versos de amor do álbum são poluídos por esse sentimento: "Estava esperando que você me amasse / Mas seu amor nunca veio / E todos os outros amores à minha volta / Foram todos desperdiçados").

Mas Yoshimi Battles The Pink Robots não é perfeito. Se lá no começo você optou por classificá-lo como conceitual, ele vai falhar em alguns momentos, quando foge da camisa-de-força e esquece o espaço, deixa o futuro de lado em faixas que não se encaixam na historinha da garota que luta caratê contra os robôs ("Are You a Hypnotist??" e "It's Summertime"). Mas se você prefere escutar o lado mais pop, os momentos instrumentais devem cansar.

 

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