Novembro / 2002

Boa vontade para promover as cenas locais



Thee Butchers' Orchestra em show no
Bananada deste ano

Por Katia Abreu



"Estamos órfãos", foi o pensamento que passou pela cabeça de 11 em cada 10 paulistanos e cariocas ditos "indies" quando anunciaram o cancelamento do Free Jazz. Nada de Radiohead ou Björk, como se especulava. Nada de nada! Cigarro não pode mais patrocinar eventos culturais. Dólar sobe; os cachês, também. Nada de atrações da música independente internacional, portanto. Para o bem e para o mal, isso acabou fazendo com que o interesse pela produção nacional aumentasse. Festivais que já existem há algum tempo por esse Brasil afora ganharam destaques nos cadernos de cultura de alguns jornais, como a Folha de S. Paulo. E com isso, espera-se que o público "especializado" (o mesmo que costumava ir ao Free Jazz) e que se diz ávido por bons shows não desperdice a oportunidade de prestigiar as boas bandas brasileiras que têm se apresentado por aí.

Em São Paulo aparecem espaços, ainda que precários, para que os grupos façam seus shows. Palcos pequenos, aparelhagem trazida pelos músicos no dia do show, má iluminação. Há problemas? Muitos. Mas é um começo. Ao que parece, existe gente interessada em voltar a promover a cena. Tudo regado a muita boa vontade. Dos proprietários das casas, dos organizadores das festas, e, principalmente, dos músicos, que aceitam tocar em condições nada profissionais. Carlos Issa, do Objeto Amarelo, discorda da idéia de que as condições para cena se desenvolver tenham melhorado. "As coisas só vão mudar quando as bandas ganharem um cachê decente e venderem seu produtos com uma certa regularidade. Selos bons ou não, casas toscas, um festival aqui, outro ali... tudo isso acontece desde sempre".

Na mesma São Paulo surgem também festivais. O Upload, que estreou ano passado, já anunciou as datas para a segunda edição - 5, 6 e 7 de dezembro. Em outubro passado, o SESC Ipiranga abrigou a Mostra de Nova Música, que teve como atrações Objeto Amarelo, Biônica, Ordinária Hits, Rômulo Fróes, Cine Victória e Shiksa. E agora em novembro (dias 2 e 3) tivemos o primeiro Star Guitar Festival, no Tramp Club.

Issa, que participou da organização da Mostra de Nova Música, explica que o evento derivou do projeto "Rock Contemporâneo", que Paulo Barnabé (curador da Mostra) já realizava no SESC há algum tempo, e onde o Objeto Amarelo havia tocado ano passado, dividindo espaço com o PexbaA. "Em maio desse ano, ele [Barnabé] nos convidou novamente e quis que a gente sugerisse outra banda. Numa conversa com o Farinha (da Bizarre Music), achamos legal chamar o Rômulo Fróes, que também está no selo e que tem um show bem diferente do Objeto, puxando pelo chorinho e samba antigo". Depois, quando já tinham as datas marcadas, veio a idéia da Mostra propriamente: "Por que não chamar amigos que topariam fazer shows menores, abrindo mão do cachê (que desde o início seria destinado à gravação do novo disco do OA, Panzertunel) deixando tudo mais movimentado e divertido? A idéia foi muito bem aceita, até pelo pessoal do SESC, e assim apareceu a Mostra da Nova Música".

O Star Guitar também apareceu meio na "brodagem". Márcio Custódio, responsável pela organização do Star Guitar, conta que sempre teve vontade de promover eventos com bandas ao vivo "para divulgar a cena", mas que as idéias acabavam esbarrando em problemas estruturais dos espaços disponíveis para tal. "Aí esse ano, quando voltei de Londres, um amigo que tinha aberto uma casa noturna me chamou para trabalharmos juntos. A casa tem um bom palco, bons equipamentos, comporta mil pessoas. Aí na hora já tive a idéia do festival. Elaboramos a idéia e taí o Star Guitar Festival!". O festival foi uma excelente chance para quem ainda não conhece nomes tão exemplares do bom underground paulistano como Thee Butchers' Orchestra, Forgotten Boys, Momento 68, Pullovers, entre outros.

Antes tarde do que nunca
É difícil compreender como São Paulo, a maior e mais importante cidade do país, demorou tanto tempo a seguir o exemplo de outros eventos do gênero que já acontecem por aí há bastante tempo.

Recife tem há dez anos o mais respeitado (e mais longevo) festival de rock independente em terra brasilis. O Abril Pro Rock no início tinha como intenção impulsionar a cena local, que fervia ao som dos mangue-boys. De lá para cá, agregou bandas de outros estados, e a partir de 2000 seu cartaz mesclava grandes nomes internacionais - como Bloco Vomit e Atercicopelados (2000), John Spences Blues Explosion e Asian Dub Fundation (2001) e Charlatans e Stephen Malkumus (2002) - com revelações nacionais - como Raimundos, Los Hermanos e Testículos de Mary. O evento cresceu, ganhou prestígio na imprensa e até edição (ainda que reduzida) em São Paulo a partir de 2001. Uma iniciativa local que se transformou rapidamente em referência nacional (e até internacional, por que não?).

Outros bons modelos vêm de uma cidade perdida no centro-oeste do país. Goiânia, onde muitos acreditam só haver música "sertambrega", conta com dois dos mais empolgantes festivais do país. Em maio, o Bananada, que também alia produção nacional com nomes de fora. Ano passado, bandas como Prot(o), Mechanics e Irmãos Rocha! dividiram as honras com Trans Am e Man or Astro-man?. Este ano, Thee Butchers' Orchestra e Forgotten Boys tocaram ao lado de Watts. Não felizes com isso, em agora no fim do ano, mais bons shows. Todos nacionais. O Goiânia Noise Festival, que acontece nos dias 22, 23 e 24 de novembro, traz, entre outros Violins and Old Books, MQN, Detetives e Los Hermanos. Tudo isso por "culpa" do selo/produtora Monstro Discos, que com suas iniciativas na região já rendeu à Goiânia o título de "Manchester brasileira".

O festival brasileiro mais conhecido, embora não seja propriamente um festival de música independente, acontece (acontecia?) no Rio de Janeiro. Rock in Rio. Mas ainda não há confirmações sobre uma próxima edição. Enquanto isso, a "vidinha indie" no Rio, até que vai bem. Entre uma ida a praia e outra, eles podem ver bons shows no Humaitá Pra Peixe, em janeiro e fevereiro. Além disso, e entre outras coisas, têm toda semana o LB Fest, organizado pelo selo/zine London Burning.

São Paulo parecia estar assistindo a tudo isso acontecer impassível. A efusiva Porto Alegre, tão ciosa de suas crias (muitas delas realmente boas), também não está muito agitada em termos de festivais. Belo Horizonte tem o Eletronika, mas estamos falando de rock. Brasília mantém o seu Porão do Rock aos trancos... E no Rio de Janeiro, apesar da existência de atividades festivaleiras, pouco se comenta nacionalmente. Os bons exemplos vem da "periferia", de fora dos tradicionais "pólos culturais" do país. Resta-nos esperar que iniciativas locais continuem surgindo a cada ano e que elas, de alguma forma, dialoguem umas com as outras e façam com que a cena underground brasileira deslanche de uma vez.

 

Também nesta edição:

O Reclaim the Streets reivindica o espaço urbano, através de protestos criativos.

Algumas explicações para a crise (e possível extinção) da indústria fonográfica

De Nirvana a Strokes - Underground, mainstream, traição e outros babados

Mostra de Cinema de SP privilegia histórias baseadas em fatos reais

A Festa Nunca Termina retrata com humor nascimento e declínio da Factory

Pop japonês funde estilos ocidentais de forma quase tropicalista

Desafio às máquinas, batalhas com robôs e rock cabeça no novo disco do Flaming Lips

Jorge Du Peixe põe levada eletrônica no maracatu atômico da Nação Zumbi

Como o fim de um amor deu origem à obra-prima do Trembling Blue Stars

Vampiro de Curitiba: conheça Dalton Trevisan, aclamado pela crítica e injustiçado pelo público