Março / 2003

Bryan Ferry: revisto & corrigido

Bryan Ferry, em show em São Paulo

Por Alex Antunes

Bryan Ferry, desde 72, foi, ao lado de Lou Reed (desde 67), David Bowie e Iggy Pop (desde 69), um dos caras que vislumbraram um caminho direto para o punk e o pós-punk, sem passar pelo pior dos anos 70. Visto daqui, parece mais fácil e óbvio do que deve ter sido - afinal, eles estavam projetando o futuro, e na contramão.

O antídoto de Ferry à pompa e à indulgência progressiva, mais ou menos como o de Bowie, era baseado na apropriação - até certo ponto humorística, no sentido inglês, art school e sardônico do termo - do glamour decadentista europeu, da cultura de cabaret, da releitura contemporânea da canção "torchy", dilacerada.

Ou seja, elementos que estão na base, também, da música de entretenimento. Dentro do Roxy Music, tudo isso era rebatido com as obsessões tecnológicas do outro Brian, o Eno, presente nos dois primeiros álbuns do grupo. Ao longo da sua carreira-solo, desde 73, Ferry também tratou de arriscar derramamentos ainda mais exaltados da sua persona de crooner.

Mas, em seus álbuns ao longo das décadas de 80 e 90, o polimento genérico e excessivo da música pop foi contaminando a produção de Ferry. E isso a partir exatamente do momento em que as invenções do Roxy Music foram emuladas por todo um subgênero do pós-punk, o new romantic de Duran Duran, Japan, Ultravox fase John Foxx, Associates, Soft Cell (a meio caminho entre o RM e o Suicide), pra citar apenas os mais inspirados.

Assim, exatamente entre o último álbum de estúdio do Roxy Music (Avalon, 82) e o primeiro solo de grande sucesso radiofônico de Ferry (Boys And Girls, 85), estabeleceu-se uma confusão. Talvez um pouco ansioso em definir os parâmetros de um estilo que ele mesmo tinha imaginado dez anos antes, Ferry foi eventual (e erroneamente) tratado como músico brega, como se houvesse um Ferry certo (o de "Re-Make/ Re-Model" e "Ladytron") e um Ferry errado (o de "More Than This" e "Slave To Love").

Na verdade, tratou-se sempre da mesma receita, mais sucedida ou mais desandada. Bom, em 2002, às voltas com uma turnê de reencontro do Roxy Music (e de seu foco artístico), Ferry dirimui as dúvidas, fazendo de Frantic um de seus melhores álbuns solos.

Recuperou seu vigor antigo - até no timbre de voz faz lembrar 72, negando os boatos antigos de que uma certa operação na garganta teria alterado pra sempre seu registro vocal. E deixou pra pouquíssimos momentos aquele acabamento pasteurizado que o transformou em cantor das peruas e da geração yuppie (com uma mãozinha da trilha de Nove Semanas E Meia De Amor).

A esta altura do campeonato, um show do Ferry quase sessentão poderia seguir dois caminhos: ou se concentrar nos acertos de Frantic, ou tentar condensar e explicar esses trinta anos (e cerca de vinte álbuns) de história. E é claro que Ferry foi pelo segundo, o mais difícil.

A harpista loira acompanha Ferry

Lolitas e guitar heroes
Confiando no seu carisma, Ferry começa o show sem aviso, sozinho, ao piano, na penumbra, e durante alguns compassos, antes de abrir a voz, a platéia se pergunta se será ele mesmo... Até a música, a bonita porém obscura "The Only Face", pinçada do álbum Mamouna (94), parece escolhida pra esconder o ouro.

As próximas, "Don't Think Twice" (de Dylan), a balada tradicional irlandesa "Carrickfergus" e "Smoke Gets In Your Eyes" (dos Platters), servem para introduzir a banda, pessoa a pessoa: primeiro uma violinista, depois uma harpista (respectivamente Lucy Wilkins e Julia Thornton, lindas, jovens e louras), um violonista, um tecladista, um saxofonista, o baterista, o baixista; enquanto o próprio Ferry empunha uma gaita.

O timbre yuppie do sax alto, enquanto rola um momento instrumental "piano bar" e os roaddies retiram rapidamente a harpa da frente do palco, deixa no ar a questão: que show será este?... Mr. Ferry desaparece pra trocar de roupa... (é, ele e as backing vocals loiras - que ainda não apareceram - trocam de figurino durante o show).

E então, subitamente, tudo se eletrifica e eletriza - a harpista vai para a percussão, entra um outro guitarrista, e nada menos do que quatro backings (aos pares: duas loiras esguias com chapelões setentistas fazendo figuração à esquerda do palco, e duas mestiças cheinhas e peitudas soltando a voz à direita). A essa altura, há doze pessoas no palco, além de Ferry.

A música escolhida é adequada para clarear a intenção: "The Thrill Of It All", que arremessa a platéia extasiada para o universo do Roxy Music de meados da década de 70. E a próxima, de volta ao século XXI, com a ótima "Cruel", mostrando como só há um Bryan Ferry, e não um Jeckyl e um Hyde.

Na banda, dois detalhes chamam a atenção. O primeiro é o Fator Lolita: as mulheres são jovens e impetuosas - a percussionista e a violinista continuam dando um show à parte -, e exceto pelo baixista mais jovem e bonitinho, todos os homens são senhores brancos de uma certa idade e aparência responsável.

Segundo, entre esses “senhores” um se destaca, com uma certa pose de “dono da banda”. Tem moral. É o guitarrista Chris Spedding, um dos maiores session men dos anos 70, e descolado o suficiente pra ter produzido demos dos Pistols e os Cramps, além de ter tocado com os Vibrators, na passagem para a década seguinte. (Corre o boato de que ele teria inclusive gravado muitas guitarras, não-creditadas, no álbum dos Pistols.)

Lembrei da música com que Spedding abriu seu primeiro disco-solo: "Guitar Jamboree", em que a letra falava de uma espécie de "Festa de Arromba" guitarrística, e ele descrevia a entrada de cada um com um solinho, imitando com perfeição humorística os estilos desde Jimi Hendrix e Robert Fripp até David Gilmour, Pete Townshend, Eric Clapton, Jimmy Page, Jeff Beck. Sabe tudo, o cara - e Ferry, que o recrutou. (Da outra vez que Ferry veio ao Brasil o guitarrista e "diretor" da banda foi outro bamba dos anos 70, Robin Trower, ex-Procol Harum.)

A arte do controle
A lógica que impera no grupo é a do próprio Ferry: ganhar o jogo na contenção e no carisma real, sem truques; no clima, e não no grito. A regra parece bem absorvida por toda a banda; as vocalistas se entreolhavam tacitamente, escolhendo com cuidado as horas de liberar o gogó.

O tecladista (Colin Good) e o baixista (Mark Smith; nada a ver com o líder homônimo do Fall), além do outro guitarrista (Mick Green) e do sax (Iain Dixon), primam pela correção - desde que não se tente comparar esses dois últimos com os personalíssimos Phil Manzanera e Andy Mackay, do Roxy.

A noção de controle do espetáculo, retardando cuidadosamente a catarse, me fez pensar na apresentação de Lou Reed em 96 no Brasil, quando ele dosou de maneira quase miserável a "quentura" do espetáculo, até ter certeza de que tinha banido a turma do oba-oba da fila do gargarejo. E, mesmo aí, congelou com um olhar glacial o baterista Tony "Thunder" Smith, quando esse ameaçou "crescer" num solo - Smith encolheu rapidinho. (Os músicos de Lou Reed são sempre excelentes, frequentemente jazzrockers, mas sempre com o freio puxado pelo bandleader cruel.)

Ferry parece menos severo, mas igualmente exigente. Pra quem tem noção histórica, a mais empolgante é a presença do baterista Paul Thompson, membro original do Roxy (entre os novos, vários participaram da turnê mais recente da banda, como músicos de apoio). Sem jamais chegar propriamente a suingar (como os bateristas de estúdio que Ferry utilizou no Roxy posterior e nos trabalhos solo), Thompson tem uma pegada branca, forte e vibrante, característica do rock dos anos 70.

Entre as boas músicas de Frantic ("Fool For Love"); escolhas do repertório do Roxy não necessariamente clássicas, mas espertas ("Tokyo Joe", "My Only Love"); e apenas alguma obviedade ("Slave To Love", claro), o show teria tudo pra ir até o final com o jogo ganho.

Mas, no sábado, Ferry fez uma alteração em relação à set list da primeira apresentação em São Paulo, na quinta, e sacou a forte "Don't Stop The Dance" do meio do show, deixando-a para o final. Um pouco arriscado, considerando que a platéia do gigantesco Credicard Hall (3700 lugares), na primeira noite, tinha estado um tanto vazia e fria, e essa de sábado não parecia muito melhor.

Alguma coisa então não funcionou direito - os anos 80 cobraram seu preço. Na exotica fake de "Limbo" a banda quase veio abaixo, quando alguém (dificil saber quem, no meio daquela gente toda e dos arranjos carregados; o saxofonista e a violinista também se alternavam em outros teclados) tocou ou cantou desagradavelmente fora de tom. "My Only Love", com Ferry de volta ao piano, arrumou a casa, mas sem convencer. E uma bonita instrumental, "Tara", deixou tudo suspenso.

Felizmente um outro petardo roxyano estava engatilhado, a absoluta "Love Is The Drug". Exceto por um grupinho que dançava num canto, a platéia até então tinha conseguido se segurar - mas a partir daí simplesmente não deu pra resistir. Muitas pessoas se levantaram e vieram para a frente do palco, de executivos engravatados rebocados meio que a contragosto por suas esposas entusiasmadas, até ex-punks bem-sucedidos (têm que ser bem-sucedidos; os ingressos na frente custavam R$ 300).

E isso exatamente no momento em que o roteiro previa a volta das vocalistas louras convertidas em dançarinas, com figurinos de cabaret, cheios de penachos cor-de-rosa, dançando para a platéia. A simultaneidade desses movimentos convergentes, na platéia e no palco, transformou tudo subitamente, fazendo a temperatura dar um pulo de vários graus.

O show então rapidamente se converteu em um bailão, com Ferry enfileirando composições alheias ("Jealous Guy" de John Lennon; "Shame Shame Shame" de Jimmy Reed; "Let's Stick Together" de Wilbert Harrison) e próprias, gravadas no Roxy ("Do The Strand") ou solo ("Don't Stop The Dance") para o público dançar com vontade, suando a roupa mesmo. O bis veio quase emendado, sem que as pessoas tivessem tempo de esfriar.

No melhor da visão ferryana, arte e entretenimento, carnaval e elegância se encontraram na festinha. Que foi ao paroxismo com o inesperado iê-iê-iê "Wooly Bully" (Sam The Sham And The Pharaohs): "Let's don't take no chance/ Let's don't be L-seven, come and learn to dance"... Nos camarins, depois, o sorriso de satisfação de Ferry se parecia com o da platéia: "Hoje foi beeeeem melhor", disse ele, em relação ao show da quinta, e com a tranquilidade de quem finalmente foi bem entendido.

* A paixão por Ferry em 80 minutos

 

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