31.10.03

A doce vida do Fellini

Por Juliana Zambelo
Foto: Eugênio Vieira

Como já é de praxe em festivais desse tipo no Brasil, a lista de atrações do Tim Festival é uma salada que traz da alface mais fresca ao pepino mais mal lavado. E entre artistas de peso internacional como White Stripes, Beth Gibbons e Lambchop, existe um corpo estranho: Fellini. É um nome que, quando anunciado, dependendo do nível de informação de cada um, deve ter gerado três diferentes perguntas:

1) Quem é isso? - veio do mais desligado.
2) Mas o Fellini não tinha acabado? - disse outro mais ou menos informado.
3) Será que agora esses caras resolvem ficar, ou depois disso eles vão sumir de novo? - foi a frase do entendido.

Uma das coisas boas da vida é que para - quase - todas as perguntas existe uma resposta razoável. Então vamos a elas.

O começo do Fellini
Era 1984 e o rock ainda não tinha estourado. Foi antes do Ultraje a Rigor lançar seu primeiro LP e de "Beat Acelerado" do Metrô virar hit. O RPM nem tinha ainda estreado a sua turnê histórica e Thomas Pappon já estava cansado de tocar bateria. Ele, que naquele ano dividia seu tempo entre duas das mais importantes bandas da cena de rock paulista - os Voluntários da Pátria e o Smack -, queria pegar o baixo e sair do fundo do palco, além de desejar mais espaço para compor.

Para não ficar tocando baixo sozinho, Pappon chamou Cadão Volpato, amigo da geração "virada da década" da ECA-USP, e o deixou responsável pelas letras. O guitarrista Jair Marcos, que já tinha tocado antes com Cadão e Thomas em dois grupos diferentes, foi pego um dia na porta da PUC pelo fusquinha azul da família Pappon e passou a ser o terceiro integrante do novo grupo.

A idéia foi batizada nessa mesma noite - e dentro do mesmo fusquinha: "Todo mundo era um pouco cinéfilo, e Fellini era um cineasta que todo mundo adorava. Então quando o Thomas sugeriu Fellini como nome, soou muito bom ao ouvido", lembra Jair. Não tão intelectual, no entanto, era a outra raiz desse nome, uma referência ao álbum Feline, do grupo punk Stranglers. Porque o Fellini não era uma banda punk, mas devia muito ao movimento, como todas as outras bandas de São Paulo. E começou tocando e compondo pós-punk, para seguir a ordem natural das coisas, e as primeiras músicas feitas saíram com linhas de baixo e riffs de guitarra puxando para Siouxsie & the Banshees e outras bandas inglesas do gênero.

O baterista que faltava foi encontrado por Volpato na noite paulista. Foi em casas como Carbono 14 e Rose Bombom que Cadão conheceu Ricardo Salvagni e o Fellini ficou completo.

O primeiro disco, O Adeus De Fellini, saiu no ano seguinte. "Era uma dificuldade, então, não essa moleza de hoje. Bancamos uma demo e só muito depois o Luís Calanca (da Baratos Afins) resolveu lançá-la", recorda Cadão. Tocaram nos palcos disponíveis da cidade, como Centro Cultural São Paulo e Lira Paulistana, mas foi no Madame Satã, já na noite de lançamento do grupo, que as coisas começaram a soar diferentes.

O fim do Fellini
"O show de lançamento do disco de estréia só teve uma música desse disco", conta Pappon. Fato curioso, que Jair explica assim: "A gente já estava preparando uma outra coisa". Além disso, o futuro vislumbrado para a banda era diferente em cada uma das quatro cabeças. Foi assim que o Fellini passou por uma primeira diáspora.

O segundo álbum veio mesmo assim. Fellini Só Vive Duas Vezes foi gravado em janeiro de 86 na casa de Thomas apenas por ele - tocando todos os instrumentos - e Cadão cantando. Esse é o LP que marca o começo da aproximação com a MPB que se tornou a marca do grupo; ele mistura baladas com climas pós-punk a canções com batidas puxando para o samba.

Em 87 saiu 3 Lugares Diferentes, que aprofundou a ligação com os ritmos brasileiros e foi o último trabalho lançado pela Baratos Afins. Dois anos depois, o Fellini voltou à formação original para lançar Amor Louco, um disco gravado em melhores condições com uma produção mais caprichada, bancado pelo selo Wop Bop.

Nesses cinco anos de carreira, o Fellini tocou para teatros lotados em Curitiba, Porto Alegre e Rio de Janeiro, teve uma música executada no programa do DJ inglês John Peel, na BBC, e, de acordo com Thomas, "nunca ganhou um tostão". Mas aí, no final da década, enquanto algumas bandas se consolidavam no mainstream, o underground paulista se encolheu, perdeu força e morreu aos poucos, levando o Fellini junto.

As idas e vindas do Fellini
Quase dez anos depois do lançamento do último disco, em 1998, o Fellini fez um revival. Tocou em São Paulo, Brasília e Rio, relançou seus discos em CD e ficou assim. Em 2000, foi convidado para tocar no festival pernambucano RecBeat. Estavam fora de forma e tiveram apenas um dia para ensaiar, então na hora do show, diante de cerca de cinco mil pessoas, o que valeu foi a emoção. E em 2002 saiu Amanhã É Tarde, o quinto CD com o nome do grupo, mais um feito apenas pela dupla Pappon-Volpato.

No entanto, em 2003 a banda estava parada. Thomas mora há anos em Londres, Cadão trabalha como jornalista além de ter lançado livros e faz um tempo que Jair aposentou o 3 Hombres, banda na qual tocava há mais de uma década. Mas Hermano Vianna, responsável pela escalação do festival, em algum ponto dessa história conheceu e gostou do Fellini. E de uma idéia que, a princípio, deve ter soado improvável surgiu o convite.

"Eu estava tomando cerveja com um amigo, o Cadão ligou no celular e falou 'Você tá sentado?'", conta Jair, ainda um pouco surpreso. Mas como o convite foi feito com bastante antecedência e os cinco integrantes (os quatro originais mais Silvano Michelino na percussão) arrumaram uma folga, o Fellini teve um certo tempo para ensaiar: "Dessa vez a gente vai ter 30 horas de ensaio. Vai ser um intensivão", diz o guitarrista. A falta de treino aumenta a ansiedade do quinteto, mas Jair garante que "está todo mundo ensaiando sozinho, lembrando as músicas".

O repertório deve incluir apenas uma canção do primeiro LP - provavelmente "Rock Europeu", hit da banda que voltou a tocar na nova programação da rádio Brasil 2000 -, privilegiando os trabalhos posteriores, mais maduros.

E depois disso, como a trajetória do Fellini já indica, nada é certo. Não existem planos definidos para gravações ou novos shows. Mais uma vez o cultuado grupo paulista vai aparecer e sumir em uma única noite sem deixar esperanças de futuro. Mas é certo que, mais uma vez, deixará um monte de gente esperando pela próxima aparição.

 

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