Maio / 2003

Eletronika: o que era música mesmo?

Por Babi Lopes

Foto: Fabiana Bártholo
Gerador Zero, com VJ Diego HRD

A única coisa que podemos esperar é que em breve um festival como o Eletronika não faça mais sentido e não seja mais necessário. Tanto pelas características que unem quanto pelas que distinguem as apresentações da edição deste ano em Belo Horizonte. A miríade de sons resultantes, da eletrônica stricto sensu - house, techno, drum'n'bass -, a samba, jazz, rock, com o hip hop e o funk em algum ponto do meio do caminho, parte de uma matriz, de um ponto em comum: a anarquia das produções, o uso de novas tecnologias transformando não-músicos em músicos, a convergência de meios, a inclusão e expansão sensorial (aqui entram tanto o nível orgânico, indo além da audição e envolvendo visão e tato, quanto o psíquico, os transes induzidos física e quimicamente). Música não só para ouvir, mas para ver e sentir, para dançar e pensar, e até para viajar e não ouvir.

Descendo um pouco mais no arriscado buraco das divagações teóricas, podemos enxergar um momento de revolução*. Revolução, aqui, significando um desenvolvimento não-cumulativo, em que os modelos anteriores são substituídos por outros. Na amostragem oferecida pelo Eletronika, os artistas sucedem um momento de crise e estagnação, contando com um fato novo: a incorporação de técnicas para gerar uma mudança no paradigma, no conceito do que é fazer música. "A eletrônica para mim serve para fazer música, porque eu não sei tocar nada", entregou o DJ Dolores no debate sobre "Música eletrônica e identidade nacional". Nesse ponto, a revolução da eletrônica apresenta algumas similaridades com o punk, só que radicalizando ainda mais o faça você mesmo. Tanto por colocar no balaio até quem não toca nem três acordes, quanto por permitir resultados sonoros mais variados.

Além do debate mencionado acima, o Eletronika abrigou outros, sobre a cena eletrônica na França, na Alemanha e em Minas Gerais, além de um concorridíssimo debate que, sob o tema "Caminhos do hip hop: do underground ao mainstream", mostrou a cara de uma cena mineira jovem, porém entusiasmada. Mais adiante, eu me detenho mais nesses debates. Mas a simples existência desse tipo de discussão dá mais uma pista e um argumento para a sensação de revolução. Enquanto as coisas funcionam normalmente, esses debates não são necessários. Eles aparecem com freqüências tanto nos momentos de crise (quando um modelo dá sinais de esgotamento) quanto na emergência de um novo modelo.

Evidentemente, pouca ou nenhuma das coisas apresentadas em Belo Horizonte é tão nova assim, principalmente considerando nosso conceito semanal de "novo" (Kraftwerk nos anos 70, electro/hip hop nos anos 80, house um pouco depois, techno e jungle nos anos 90, aí o breakbeat...). Porém, não basta descobrir que alguma coisa existe, é preciso também saber para que ela serve. Como no mito (verídico ou não, tanto faz) do DJ Marlboro e sua bateria eletrônica. Apresentado ao equipamento pelo antropólogo Hermano Vianna, o pai do funk gosta de contar que aprendeu a usar a bateria em um sonho. A novidade é que agora essas correntes díspares interagem e passam a fazer sentido quando colocadas lado a lado. Em parte, porque uma revolução na arte acontece como uma reação em cadeia - uma faísca que gera duas, duas que geram quatro e assim por diante. E atualmente, os resultados já conquistaram um tal volume que nem mesmo um jornalista consegue deixar de enxergá-los. É a revolução, mas já na fase de estabelecimento e cristalização. Por isso, a "praga" rogada lá em cima. Com a assimilação da tecnologia e amadurecimento das propostas, dá para prever que logo a "música eletrônica" vai deixar de existir, e se tornará apenas "música", só que então com outra definição no dicionário.

Foto: Fabiana Bártholo
Show do Rubin Steiner Quartet Live

Substantivos e adjetivos
Dá para dividir o line-up do Eletronika entre os eletrônicos substantivos e adjetivos**. No primeiro caso, é a música eletrônica mesmo, ainda que tendendo pra alguma outra coisa. O segundo agrupa os nomes que usam a eletrônica como instrumento, mas em gêneros não primariamente eletrônicos. A diferença entre eletrônico pop e pop eletrônico, por exemplo.

Numa das pontas do espectro substantivo, fica a alemã AGF, com sua impalpável música de laptop, que foge da construção convencional da música - se funciona, é outra questão. Ao projeto solo de Antye Greie-Fuchs, mais do que sua parceria com o programador Jotka, o Laub, cabem os rótulos de experimental, abstrato, fragmentado, e todas essas coisas que usualmente se esperam de uma nova música. Também substantivamente eletrônica é outra alemã, Ellen Allien, com um contraste evidente em relação à primeira: com um set entre techno e electro, Allien tocou música para dançar, enquanto o público assistiu sentado a AGF. (Se pensarmos em um diagrama com o eixo horizontal indo da eletrônica substantiva para a adjetiva e o eixo vertical descendo do pop/dançante para o experimental/pensante, as duas alemãs estão em quadrantes vizinhos, uma acima da outra.) Entre os substantivos, estão os DJs de house e techno e vertentes (caso do ídolo mineiro Robinho, de Mau Mau, Anderson Noise, Renato Cohen...).

Lembrando um pouco mais com o que nossos avós chamam de música, está o eletrônico rock do Gerador Zero. Ensolarados e cariocas até o osso, eles são a perfeita demonstração da teoria: o show da banda usa guitarra e baixo (com samplers e outras maquininhas, claro) para atingir o drum'n'bass. Ainda por aqui, o primeirão do Eletronika, o DJ Nego Moçambique, que abriu bem o festival. House ganha com ele os adjetivos "breakbeat", "funk", "black", "hip hop". Caminhando em direção à zona de fronteira, mas antes de chegar a ela, encontramos o DJ Marky, o bem-amado - seu nome foi gritado pelas quatro mil pessoas presentes na primeira noite no ginásio do Minas Tênis. Seu drum'n'bass flerta com elementos mais tradicionais da música brasileira, mas a ênfase é na música eletrônica. Os ritmos brasileiros, o sample de Jorge Ben e que tais, é que são adjetivos.

Bem no meio da nossa escala está a grande surpresa do Eletronika, Rubin Steiner, projeto do francês Fred Landier. Com um trombonista e de um contrabaixista - além de um excelente VJ -, ele forma o Rubin Steiner Quartet Live. "É como se o Chemical Brothers resolvesse fazer jazz fusion", definiu o Alex Antunes ao ver a apresentação dos caras no festival Hype, em São Paulo. Muito jazzy e muito eletrônico, muito dançante e muito sofisticado, o som da banda é difícil de ser colocado em qualquer dos lados. Deixemo-los no centro, então, e sigamos em direção aos adjetivos.

Deste lado, a primeira parada é o Stereo Total, duo franco-alemão (ou germano-francês?). Pop bubblegum, new wave, punk se associam à chanson eletronicamente (ops, virou advérbio). Vibrantes, divertidos e très sexy, Françoise Cactus e Brezel Göring misturam tanta coisa que as referências mais próximas são japonesas. (Leia entrevista do duo.) Assim como a banda paulistana Monokini, que, entre pop-rock, bossa-nova e jovem guarda, molha de levinho os pés nas águas eletrônicas. Voltando ao eixo vertical, temos no quadrante adjetivo e pensante o Hurtmold. A banda, também de São Paulo, faz um post-rock hipnótico à Mogwai, e conseguiu compactar uma platéia atenta no último dia do Eletronika.

Por fim, entra a brasileirice de Wado, Stela Campos, Max de Castro, Otto, Lenine e DJ Dolores, com destaque para a participação do pioneiro experimental Tom Zé durante o show de Max de Castro. No caso de Wado, DJ Dolores e Stela (talvez de Otto também) há um importantíssimo reflexo adjetivo da revolução eletrônica: o renascimento de uma música brasileira. (Sobre isso, vale lembrar o texto do Alex sobre uma nova MPB, aqui na B*Scene.) A existência de uma música eletrônica brasileira, ou de uma música brasileira eletrônica, foi debatida por Fábio Fzer0, do Gerador Zero, DJ Dolores, DJ Marlboro e pelo DJ mineiro Roger Moore, com mediação do antropólogo Hermano Vianna. As questões principais são se realmente é necessária uma identidade nacional e qual é ela, em que a eletrônica beneficia ou prejudica o "ser brasileiro", se são necessários elementos nativos para conquistar uma identidade ou se música brasileira é qualquer uma feita no Brasil. Ao afirmar que "a gente cria o que é brasileiro o tempo todo", Vianna resumiu o quase consenso em que se transformou o debate.

Foto: Fabiana Bártholo
Apresentação do DJ Marlboro

Feios, sujos e malvados
O exemplo mais acabado da criação contínua da identidade nacional, ainda que pela transformação de elementos importados vem da periferia das grandes cidades, em um país que por sua vez é periferia cultural. O funk carioca e o hip hop têm origem comum: o electro de Nova York, e por aqui foram dar em coisas aparentemente contraditórias, com o hip hop privilegiando o discurso, consciente e politizado, e o funk valorizando o ritmo em detrimento das letras. Porém, nada é tão estanque.

Claro que o funk do DJ Marlboro tem foco principal no ritmo e na dança, como deixa claro o funk-manifesto "Som De Preto": "É som de preto/ de favelado/ mas quando toca/ ninguém fica parado". Mas o que nasceu com uma brincadeira muito popular, a tradução simplesmente fonética de músicas em inglês, foi adquirindo autonomia e contornos próprios. A temática, um dos fatores que dá autonomia ao funk carioca em relação a suas origens, pode ser encarada tanto como apologia quanto como denúncia.

O hip hop, por sua vez, tem a parte musical cada vez mais enriquecida pelo contato com a música popular brasileira, como provam as apresentações do Instituto e de Marcelo D2. O coletivo paulista e o rapper carioca vêm apagando as fronteiras entre hip hop e música brasileira e entre produtor e artista (o Instituto também já foi assunto de matéria do site). O Instituto subiu ao palco do Eletronika com BNegão e Z'África, mas ao fim do show, Xis, D2 e Max de Castro se juntaram a eles.

Uma reunião entre os mainstream Xis e D2, os underground Z'África, e o Instituto, que quer atingir o midstream, como foi dito por Rica Amabis no debate sobre os caminhos do hip hop. Porém, a questão central do debate acabou sendo mais restrita, embora não menos importante: o desenvolvimento da cena mineira de hip hop. Isso aconteceu após protestos da audiência por não haver nenhum representante local na mesa - que contava com Marcelo D2, Xis, Amabis e MC Gaspar, e mediação do jornalista Alexandre Matias. Foi um exemplo em pequena escala da conclusão a que se chegou: é preciso mostrar a cara e exigir espaço.


*Muitos dos conceitos usados foram adaptados de A Estrutura Das Revoluções Científicas, de Thomas S. Khun.
**Adaptado da "Teoria Dos Gêneros", de Anatol Rosenfeld.

 

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