23.04.04

O preço da liberdade

Três décadas depois, a liberdade conquistada com a Revolução dos Cravos permite a Portugal um panorama musical com algumas idiossincrasias mas repleto de bons artistas*

Por Katia Abreu

Trinta anos atrás, Portugal amanheceu diferente, liberto de uma ditadura totalitarista de direita que perdurava desde os anos 30. Era início de primavera e as ruas estavam repletas de pessoas celebrando a liberdade, entregando cravos umas às outras. 25 de abril de 1974 é, certamente, a data mais importante da história contemporânea portuguesa e, muito provavelmente, um marco para a cultura do país.

Sob a égide do fascismo, Portugal passou boa parte do século vinte imerso em suas próprias trevas. Praticamente sem contato com mundo lá fora, a efervescência cultural dos anos 60 e 70, por exemplo, ecoou muito timidamente por lá. No âmbito pop (que é do que aqui vamos tratar) mais pelo isolamento do que pela censura propriamente. Ainda assim, como é natural a qualquer juventude bem informada (mesmo que para isso fosse preciso sintonizar rádios piratas inglesas ou "contrabandear" discos quando algum conhecido ia viajar) tiveram lá os portugueses os "seus" Elvis (Vitor Gomes e Fernando Conde), os seus Beatles (Os Sheiks) e a sua psicodelia-hippie (Beatnicks). Mas tudo muito calcado nos modelos que seguiam, cantando em inglês, sobre o amor - já que assim, não incomodavam ninguém. Os únicos que ousaram incomodar, tocando na grande ferida da época (a Guerra Colonial) foram censurados, claro (mas sem violência - menos mal): o Quarteto 1111, de onde saiu José Cid, autor do disco 10.000 Anos Depois Entre Venus e Marte, indispensável a qualquer um que diga gostar de rock progressivo.

Vieram os capitães de abril e com eles as chaves para destrancar as portas que separavam Portugal do resto da Europa. O punk logo começou a dar as caras, e ainda hoje é um gênero com bastantes seguidores por lá. Mas até o começo dos anos 80 ainda não havia estrutura para a indústria cultural e ainda se vivia uma certa ressaca revolucionária. Os chamados "cantores de intervenção" como José Afonso e Sérgio Godinho (para citar os mais consistentes) ocupavam lugar de destaque. Isso não impediu que se começasse a semear aquilo que seria depois chamado de o "boom" do rock português (que tal como aqui, aconteceu nos anos 80). Entretanto, criou-se uma dicotomia, a meu ver, complicada: de um lado o teor mais político, revolucionário; de outro, jovens vestindo roupas de couro que acabavam se preocupando mais em olhar para a Europa do que para si mesmos.

Atenhamo-nos ao segundo caso. A new-wave "Portugal na CEE", primeiro single do GNR, é bastante representativa disso. Trata do deslumbre que existia por serem finalmente parte da Europa. Nenhum problema. Globalizar é bom, ao contrário do que muitos dizem. E a geração do chamado "boom" da qual faz parte o GNR, o UHF (com inspirações a The Doors) e Rui Veloso (tido como "pai" do rock português) fez isso. Alargaram os horizontes da música pop, sem renegar a si mesmos. Olharam para fora, mas cantavam o que viviam (a juventude é mais ou menos igual em toda parte, por isso, os temas também não variavam muito) e na língua em que sentiam tudo aquilo (embora a questão da língua, em alguns casos, estivesse mais ligada a uma lógica de mercado do que artística).

Mas voltando um pouco ao calor pós-Revolução dos Cravos, houve uma história, no mínimo, curiosa, e ilustrativa da maneira como hoje, muitos grupos renegam até mesmo a língua portuguesa (haverá coisa mais pertencente a essência de um povo do que sua língua?). O outro grande nome do "boom" foi o Heróis do Mar (que acabou dando origem ao grupo português mais famoso mundo afora, o Madredeus). Pedro Ayres Magalhães e seus amigos eram entusiastas de outra vertente pop muito em voga nos anos 80: o new-romantic. E, como é sabido, são característicos do estilo os tecladinhos, os sintetizadores e toda uma indumentária teatral evocando mitos e tradições. Salteadores escoceses, no caso do Spandau Ballet. As grandes navegações e a Cruz dos Templários, no caso dos Heróis do Mar. Pois bem, passados tantos anos em um regime em que a tradição era tão exaltada, vocês podem imaginar que isso causou problemas: foram acusados de neo-fascistas em um artigo de jornal, o que, obviamente, causou furor.

É aqui entra o que eu vou chamar de "complexo de europeu". Por terem sido submetidos de maneira tão ostensiva e por tanto tempo a um confinamento em suas fronteiras e tradições, quando se viram diante do mundo, numa atitude altamente compreensível, fecharam os olhos a suas origens, àquilo que poderia os diferenciar do restante. O caso Heróis do Mar é o mais emblemático, até porque depois provou por a + b que o que pode realizar o sonho de ultrapassar as fronteiras é (pelo menos essa é a maneira mais simples) esse diferencial. Provou isso quando Pedro Ayres se tornou o músico português mais conhecido em todo o mundo com o Madredeus, que ele próprio diz que usa as mesmas matrizes, só que agora em formato acústico, que sempre usou em sua música (antes do Heróis ele teve um grupo punk chamado Corpo Diplomático).

Esse "complexo de europeu" é o que justifica os Tédio Boys terem flopado na década de 90. A banda de punkabilly, como eles próprios se intitulavam, nunca chegou a sair verdadeiramente dos porões do underground. Se julgam incompreendidos em seu país e tem como maior glória o fato (certamente louvável) de terem lançado discos nos Estados Unidos e de terem tocado numa festa de aniversário de Joe Ramone a convite do próprio. Mas sempre correndo por trilhos subterrâneos, o que é muito pouco para a ambição que tinham. O Tédio Boys acabou e dele surgiram quatro bandas bastante boas: Wraygunn, d3o, Bunnyranch e Parkinsons (estes agora radicados na Inglaterra). Todas fazendo rock em inglês, em parte para tentar furar o mercado externo, em muito porque dizem não conseguir sentir o rock em português. Esse sentimento parece ser comum aos jovens músicos portugueses. Os rapazes do Fonzie têm o mesmo discurso em relação ao seu emocore. E vão pelo mesmo caminho dos Tédio Boys: discos editados no Japão, nos Estados Unidos e no Brasil. Talvez tenham mais sucesso na empreitada, visto que o século XXI parece mais aberto à música não vinda dos eixos tradicionais (EUA e Reino Unido) e as teias do underground são hoje mais fortes.

Poderia escrever um calhamaço só citando bandas que seguem esse mesmo discurso. (Poderia citar montes de bandas independentes brasileiras também, que dizem o mesmo... parece que é impossível a alguns ouvidos que a música pop soe bem em outra língua que não o inglês.) Não quero com essa observação condenar os que usam a língua de Shakespeare. O artista é, antes de tudo, livre para fazer o que bem entender. Nem acho que reside na língua o principal problema de identidade musical de qualquer banda. Quero apenas pontuar que enquanto fizerem música da mesma maneira que seus ídolos fazem não vão alçar grandes vôos fora de sua terra. Por melhores que sejam. O Silence 4, por exemplo, tornou-se um fenômeno a partir do verão de 98 e manteve-se no top de vendas até a banda terminar. Era uma banda realmente muito boa. David Fonseca honra as influências que tem. Lançaram o primeiro disco aqui no Brasil e ninguém ficou sabendo. O disco esgotou, sabe deus como, e nunca repuseram os estoques. Não houve promoção, o que talvez tivesse tornado o fim da história diferente - mas isso nunca saberemos. O Coldfinger e o Gift têm álbuns magníficos. E estão na luta para emplacar seus discos fora de Portugal. Acho provável que consigam. O público de música eletrônica é bastante curioso. Mas nunca serão no mundo o que são em Portugal - onde, talvez, pudessem até ser maiores.

Voltando a liberdade trazida pela Revolução dos Cravos, depois de exposto o "complexo de europeu", que ela causou, não podemos deixar de ver também suas benesses - que são infinitamente mais numerosas, felizmente. O próprio fato de os artistas terem se aberto a novas influências (ainda que muitos estejam apenas as reproduzindo, em vez de assimilá-las para criar algo novo, diferente) é resultado dessa liberdade.

Imagino um mundo sem Revolução dos Cravos e não acho espaço para a luxúria do Mão Morta, para a insanidade do Pop Dell Art. Não consigo ver reconhecida a poesia feminista e libertária e as experimentações eletrônicas dos Três Tristes Tigres (e conseqüentemente não ouço o disco do Mesa, que para mim é como uma continuação do excelente trabalho dos Tigres, JP Coimbra como herdeiro do legado de Alexandre Soares). Não teria visto emergir o monstro Ornatos Violeta (que infelizmente, teve vida curta). Não vejo o Belle Chase Hotel, flertando, em português, em inglês e em francês, com Chico Buarque e Fernando Pessoa na poesia de JP Simões. Não consigo conceber Pedro D'Orey nos revelando Al Berto, com o Word Song. Também não enxergo o encontro do Clã com Ségio Godinho. Não escuto nada vindo da periferia de Lisboa e do Porto, dos afrodescendentes, retornados após a Guerra Colonial. Não há hip hop. Não há o Sam The Kid. As fitas perdidas do Bullet não são encontradas. O caldeirão do Blasted Mechanism não ferve. Nem me tranqüilizam as paisagens sonoras do Bypass ou do Stoaways. Um mundo bastante triste, portanto.

Trinta anos depois da Revolução isso tudo é possível. Minha aposta, agora que as feridas do salazarismo estão cicatrizando, é que o "complexo de europeu" cada vez mais ceda espaço a criação espontânea, livre de verdade. Como apontei acima, isso já está acontecendo. Trinta anos depois de sepultadas as trevas do conservadorismo e da tradição é hora de exumar o cadáver e ver se não há lá nada de bom que se aproveite. Pode haver boas surpresas. Se para nada servir, que vasculhem ao menos na memória e encontrem aquele espírito aventureiro e conquistador que moveu os portugueses há mais de 500 anos. Há hoje na música tanto a ser explorado quanto havia naquele tempo nos mares.

* Sem a pretensão de querer comentar toda a arte feita por nossos patrícios, pegamos a música como exemplo para avaliar as implicações da Revolução dos Cravos no Portugal moderno. Se querem uma desculpa que não a minha quase completa ignorância sobre as outras artes lusas, tenhamos em conta "Grândola, Vila Morena", que serviu de senha para a revolução. Uma música, e não um livro, um quadro, uma peça de teatro ou filme. Mas que este artigo suscite a vontade do leitor em descobrir a recente (e interessante) produção cultural na terra de Camões.

 

Outros textos de música:

A polêmica em torno do Grey Album, a fusão do álbum branco dos Beatles com os vocais de Jay-Z, mostra como a política de direitos autorais pode atrapalhar a arte

Jumbo Elektro faz "Samba Do Crioulo Doido" punk,
new-wave e tropicalista, escancarando a piada em que se transformou a música pop

Gerard Love, baixista do Teenage Fanclub, relembra histórias e adianta os próximos passos do grupo: disco com John McEntire e a vinda ao Brasil

Löis Lancaster, vocalista do Zumbi do Mato, conta segredos sobre as músicas do grupo, fala da parceria com Rogério Skylab e deseja a morte para algumas pessoas

Maurício Takara comenta seus projetos, o processo de composição de seu disco solo, suas referências musicais e a experiência de fazer um álbum split com o Eternals

Com pop rock de qualidade, Fountains of Wayne narra histórias de perdedores e esquisitos, traçando um retrato irônico da América

Treta no Manifesta, festival de hip hop organizado por playboys, espelha o duelo entre os mitos do malandro e do revolucionário

Transbordando humor negro em músicas sobre famílias desajustadas, pedofilia e prostituição, Só O Abimonismo Salva! flerta com a psicodelia dos anos 60 e 70

Pop bubblegum, jovem guarda, rock e cafonice assumida fazem a trilha sonora da vida de Producta, que Karine Alexandrino explica confundindo

Com The Shins, o pop chega à maturidade permeado por uma contradição: melodias alegres, à Beach Boys, e letras melancólicas e fatalistas

Zulu Nation, viagens, tretas entre rappers, funk brasileiro e música hare-krishna. Tudo isso está no depoimento de Afrika Bambaataa a Rodrigo Brandão

Corpo estranho no TIM Festival, o Fellini faz mais uma reunião-relâmpago e relembra seus discos e idas e vindas. Mas não fazem promessas para o futuro

Fabio FZer0, líder do Gerador Zero, comenta as limitações da indústria, o drum'n'bossa tipo exportação e a opção por usar guitarras para fazer música eletrônica