![]() |
|
19.05.04
|
|
Um passo adiante Por Jonas Lopes
Já este ano, a coisa foi bem diferente. A organização caprichou e trouxe duas das bandas mais queridas do público alternativo brasileiro: os escoceses do Teenage Fanclub (que, provavelmente, só tem mais fãs no Reino Unido e no Japão) e os americanos do Pixies (olha a Kim de novo), em sua disputadíssima turnê de reunião, após 12 anos de inatividade. As mudanças de uma edição para outra não param na escalação: o festival foi transferido da Ópera de Arame - onde foi realizado em 2003 e aconteceria este ano novamente - para a vizinha Pedreira Paulo Leminski. Tudo para satisfazer a enorme demanda que fez com a primeira leva de ingressos se esgotasse em tempo recorde. No fim das contas, a Pedreira se revelou até grande para o número de pessoas que compareceram. A área foi dividida em duas partes. A primeira, mais próxima do palco, era para as pessoas que compraram os ingressos do primeiro lote, e a segunda para os que compraram ingresso após a mudança de local. Claro, não adiantou muito. No primeiro dia, a grade que dividia as áreas foi derrubada durante o show do TFC. Já no dia seguinte, nem foi preciso esperar tanto. Logo no começo da tarde a divisória já havia cedido. Mesmo assim, a mudança de localidade se justificou pela gritante diferença de qualidade acústica, infinitamente melhor na Pedreira. Como só cheguei a Curitiba no começo da noite de sexta, perdi o show dos punks do No Milk Today, banda de Curitiba mesmo. Outra local, a Kingstone, revelou-se um alívio. Não era lá uma maravilha, mas como o site do CPF os definia como representantes do "jamaican style", pensei imediatamente em uma típica banda de reggae, com direito a cover de Bob Marley e tudo. Logo lembrei dos metaleiros do Primal, que ano passado levaram até um esmeril para o palco. Mas o que se ouviu foi um skazinho desavergonhado que, se não emociona, também não compromete. Algumas músicas chegaram a lembrar a vertente latina do Clash, e os rapazes têm boa presença de palco. A Pipodélica (apresentada como "Psicodélica"), como já virou praxe em festivais alternativos, dividiu opiniões. É complicado para os indies mais ortodoxos assimilarem o pop com elementos psicodélicos e progressivos dos catarinenses. Quem conseguiu relevar isso assistiu a uma consistente apresentação, com várias canções do ótimo Simetria Radial, além de uma barulhenta dobradinha no encerramento, "Órbita" (do cada vez mais cultuado EP Tudo Isso) e "Space Oddity" (sim, essa mesma). A Íris não chegou sequer a dividir opiniões, de tão fraca. Letras poéticas (leia-se pedantes) e instrumentais pseudo-jazzísticos que induzem qualquer um ao sono. Se a intenção é mesmo fazer jazz, tem que ouvir muito Miles Davis e Charles Mingus pra aprender a fazer direito. Depois da pretensão dos curitibanos, foi a vez do agradável show do Sonic Jr. Com um som suingado e cheio de groove, a dupla alagoana proporcionou os momentos mais dançantes de todo o festival. Pena que as programações de bateria cansam um pouco depois de algum tempo. Um set um pouquinho mais curto seria ideal.
Assim que o Teenage Fanclub começou seu set com "Start Again", deu pra perceber que os quinze anos de espera pela vinda dos escoceses valeram a pena. Foram quase duas horas de hits. Pudera, com um arsenal tão poderoso de boas canções, eles poderiam até sortear o repertório que mesmo assim o show teria sido sensacional. Praticamente todos os clássicos estavam lá: "The Concept" (emendada com "Satan"), "Neil Jung", "Ain´t That Enough", "Sparky´s Dream", "Mellow Doubt", "What You Do To Me", "Don´t Look Back", "I Need Direction", "Metal Baby" e o encerramento arrasa-quarteirões com "Everything Flows". Só faltou "Alcoholiday". Ausência compensada pelo ótimo humor dos rapazes. Especialmente o de Norman Blake, que fez brincadeira até com a (falta de) qualidade da Kaiser. Uma noite pra deixar um sorriso estampado na boca por muito tempo. No segundo dia, o festival teve início no começo de tarde e cumpriu à risca todos os horários marcados. Teve até show que começou minutos antes da hora correta. Acabei chegando atrasado novamente, graças a um café que estava inaugurando e me fez esperar quase uma hora pra pagar a conta. Perdi o rock´n´roll do Tarja Preta (aliás, todas as canções deles parecem derivadas do riff de "Taxman", em andamentos diferentes), o indie rock adolescente do Poléxia e, heresia das heresias, o Grenade, uma das bandas que eu mais estava ansioso pra assistir. Na verdade, consegui assistir à última música do set. Quem viu disse que foi um showzão de rock guitarreiro, com cover de Neil Young ("Vampire Blues") e tudo. Difícil entender por que uma das bandas mais experientes e queridas do cenário independente tupiniquim foi escalada pra tocar tão cedo. Acabou sendo vista por pouquíssimos sortudos. Os locais Excelsior vieram em seqüência e apresentaram um guitar rock clássico, em uma boa mistura de melodia e barulho. Destaque para as guitarras trabalhadas e os vocais doces, divididos entre Rodrigo Stradiotto e a bela vocalista Aline Roman. Os Autoramas tocaram seu rock com influências surf com o peso e a eficiência de costume. Já não bastassem os hits ("Autodestruição", "Nada a Ver", "Fale Mal de Mim" e a impagável "Carinha Triste"), o trio ainda tem grande presença de palco. Apesar de meio deslocado em um festival dessa natureza, o punk rock do Pelebrói Não Sei divertiu. Nem precisava da versão de "Beat On The Brat". O Ludov conseguiu resolver ao vivo um dos problemas do EP Dois A Rodar: a falta de peso. Apesar de algumas composições chatinhas, o quinteto tem várias boas músicas (como "Da Primeira Vez" e "Trânsito") e um futuro promissor pela frente. Já os experientes mods da Relespública não convenceram. Rock básico, com óbvias influências de Who, mas que sofre de falta de personalidade. A grande surpresa do Curitiba Pop Festival foi o Mombojó, banda recifense que acabou de lançar o maravilhoso debut Nadadenovo pela Outracoisa, revista do Lobão. Impossível definir o som dos recifenses. Uma mistura de jazz, eletrônica, bossa nova, samba, rock, mas, ao mesmo tempo, nada disso. Em um lugar menor deve ser ainda melhor. Tão bom quanto o Mombojó foi a reunião dos gaúchos Wander Wildner, Frank Jorge e Flu. Foi um verdadeiro revival oitentista, com canções do DeFalla, da Graforréia Xilamrônica ("Eu"), dos Cascavelettes (o delicioso semi-hit "Menstruada") e, claro dos Replicantes. Wander, inspiradíssimo, consagrou-se como o melhor frontman do festival. Estava tão aceso que até apagou um pouco os companheiros, principalmente na insana versão de "Surfista Calhorda". Pena que logo depois veio o Pin Ups, reunido exclusivamente para o CPF. Show chatíssimo, pesado e cansativo. Anti-climax depois das ótimas apresentações do Mombojó e da gauchada. A multidão (bem maior que no primeiro dia) se amontoou como pode pra assistir ao show mais esperado da noite. Os Pixies foram tudo aquilo e mais um pouco. Tocaram todos os hits em versões fiéis às originais ("Wave Of Mutilation", "Bone Machine", "Monkey Gone To Heaven", "Velouria", "Vamos") e algumas surpresas ("Hey", "Mr. Grieves", "Broken Face"). E como não atingir o nirvana ao ouvir em seqüência "Here Comes Your Man", "Where Is My Mind?", "Gigantic", "Debaser" e o demolidor final com "Into The White" e "Planet Of Sound"? Teve gente que reclamou de uma possível antipatia da banda, que não disse uma palavra sequer à platéia durante toda a apresentação. Não precisava. Os clássicos falam por si só. |
Outros textos de música:
Depois de ter seu disco mal lançado aqui, ganhar o cinema e olhares internacionais, Seu Jorge, o nosso soulsambaman for export é reimportado e vira hype
Lançado no mesmo ano em que o clássico álbum Velvet Underground & Nico, primeiro disco solo da beldade alemã combina beleza e estranheza
Três décadas depois, a liberdade conquistada com a Revolução dos Cravos permite a Portugal um panorama com algumas idiossincrasias mas repleto de bons artistas
A polêmica em torno do Grey Album, a fusão do álbum branco dos Beatles com os vocais de Jay-Z, mostra como a política de direitos autorais pode atrapalhar a arte
Jumbo Elektro faz "Samba Do Crioulo Doido" punk,
Gerard Love, baixista do Teenage Fanclub, relembra histórias e adianta os próximos passos do grupo: disco com John McEntire e a vinda ao Brasil
Löis Lancaster, vocalista do Zumbi do Mato, conta segredos sobre as músicas do grupo, fala da parceria com Rogério Skylab e deseja a morte para algumas pessoas
Maurício Takara comenta seus projetos, o processo de composição de seu disco solo, suas referências musicais e a experiência de fazer um álbum split com o Eternals
Com pop rock de qualidade, Fountains of Wayne narra histórias de perdedores e esquisitos, traçando um retrato irônico da América
Treta no Manifesta, festival de hip hop organizado por playboys, espelha o duelo entre os mitos do malandro e do revolucionário
Transbordando humor negro em músicas sobre famílias desajustadas, pedofilia e prostituição, Só O Abimonismo Salva! flerta com a psicodelia dos anos 60 e 70
Pop bubblegum, jovem guarda, rock e cafonice assumida fazem a trilha sonora da vida de Producta, que Karine Alexandrino explica confundindo
|