19.05.04

Um passo adiante

Por Jonas Lopes

No segundo semestre de 2002, começaram a circular alguns boatos de que no ano seguinte aconteceria em Curitiba um festival alternativo de porte internacional. Os nomes cotados eram de iluminar os olhos de muita gente: Radiohead, Wilco, Strokes, Foo Fighters, White Stripes e vários outros grandes nomes povoaram conversas e provocaram ansiedade nos fãs. Bem, o tal festival, intitulado Curitiba Pop Festival, aconteceu, mas passou longe de trazer a constelação que se esperava. A escalação do primeiro CPF contou com bandas independentes nacionais e artistas estrangeiros de médio porte, com destaque para as Breeders da ex-Pixie Kim Deal. Apesar da leve decepção, foi um bom festival.

Já este ano, a coisa foi bem diferente. A organização caprichou e trouxe duas das bandas mais queridas do público alternativo brasileiro: os escoceses do Teenage Fanclub (que, provavelmente, só tem mais fãs no Reino Unido e no Japão) e os americanos do Pixies (olha a Kim de novo), em sua disputadíssima turnê de reunião, após 12 anos de inatividade. As mudanças de uma edição para outra não param na escalação: o festival foi transferido da Ópera de Arame - onde foi realizado em 2003 e aconteceria este ano novamente - para a vizinha Pedreira Paulo Leminski. Tudo para satisfazer a enorme demanda que fez com a primeira leva de ingressos se esgotasse em tempo recorde.

No fim das contas, a Pedreira se revelou até grande para o número de pessoas que compareceram. A área foi dividida em duas partes. A primeira, mais próxima do palco, era para as pessoas que compraram os ingressos do primeiro lote, e a segunda para os que compraram ingresso após a mudança de local. Claro, não adiantou muito. No primeiro dia, a grade que dividia as áreas foi derrubada durante o show do TFC. Já no dia seguinte, nem foi preciso esperar tanto. Logo no começo da tarde a divisória já havia cedido. Mesmo assim, a mudança de localidade se justificou pela gritante diferença de qualidade acústica, infinitamente melhor na Pedreira.

Como só cheguei a Curitiba no começo da noite de sexta, perdi o show dos punks do No Milk Today, banda de Curitiba mesmo. Outra local, a Kingstone, revelou-se um alívio. Não era lá uma maravilha, mas como o site do CPF os definia como representantes do "jamaican style", pensei imediatamente em uma típica banda de reggae, com direito a cover de Bob Marley e tudo. Logo lembrei dos metaleiros do Primal, que ano passado levaram até um esmeril para o palco. Mas o que se ouviu foi um skazinho desavergonhado que, se não emociona, também não compromete. Algumas músicas chegaram a lembrar a vertente latina do Clash, e os rapazes têm boa presença de palco. A Pipodélica (apresentada como "Psicodélica"), como já virou praxe em festivais alternativos, dividiu opiniões. É complicado para os indies mais ortodoxos assimilarem o pop com elementos psicodélicos e progressivos dos catarinenses. Quem conseguiu relevar isso assistiu a uma consistente apresentação, com várias canções do ótimo Simetria Radial, além de uma barulhenta dobradinha no encerramento, "Órbita" (do cada vez mais cultuado EP Tudo Isso) e "Space Oddity" (sim, essa mesma).

A Íris não chegou sequer a dividir opiniões, de tão fraca. Letras poéticas (leia-se pedantes) e instrumentais pseudo-jazzísticos que induzem qualquer um ao sono. Se a intenção é mesmo fazer jazz, tem que ouvir muito Miles Davis e Charles Mingus pra aprender a fazer direito. Depois da pretensão dos curitibanos, foi a vez do agradável show do Sonic Jr. Com um som suingado e cheio de groove, a dupla alagoana proporcionou os momentos mais dançantes de todo o festival. Pena que as programações de bateria cansam um pouco depois de algum tempo. Um set um pouquinho mais curto seria ideal.

Porém, a saudade do Sonic Jr. bateu logo que os obscuros suecos do Hell On Wheels subiram no palco. Não tinha como ser pior, um pastiche de Pixies um dia antes do original. O vocalista Rickard Lindgren gritou como Frank Black, a baixista Äsa Sohlgren fez backings à Kim Deal, mas é difícil dar vida à composições tão ínfimas. Além disso, faltou peso. Tanto que, no fim do show, quando o cantor (cujo visual e performance lembram a de Courtney Taylor-Taylor, dos Dandy Warhols) pareceu finalmente ter se entendido com o pedal de overdrive, o show deu uma melhoradinha. Tarde demais.

Assim que o Teenage Fanclub começou seu set com "Start Again", deu pra perceber que os quinze anos de espera pela vinda dos escoceses valeram a pena. Foram quase duas horas de hits. Pudera, com um arsenal tão poderoso de boas canções, eles poderiam até sortear o repertório que mesmo assim o show teria sido sensacional. Praticamente todos os clássicos estavam lá: "The Concept" (emendada com "Satan"), "Neil Jung", "Ain´t That Enough", "Sparky´s Dream", "Mellow Doubt", "What You Do To Me", "Don´t Look Back", "I Need Direction", "Metal Baby" e o encerramento arrasa-quarteirões com "Everything Flows". Só faltou "Alcoholiday". Ausência compensada pelo ótimo humor dos rapazes. Especialmente o de Norman Blake, que fez brincadeira até com a (falta de) qualidade da Kaiser. Uma noite pra deixar um sorriso estampado na boca por muito tempo.

No segundo dia, o festival teve início no começo de tarde e cumpriu à risca todos os horários marcados. Teve até show que começou minutos antes da hora correta. Acabei chegando atrasado novamente, graças a um café que estava inaugurando e me fez esperar quase uma hora pra pagar a conta. Perdi o rock´n´roll do Tarja Preta (aliás, todas as canções deles parecem derivadas do riff de "Taxman", em andamentos diferentes), o indie rock adolescente do Poléxia e, heresia das heresias, o Grenade, uma das bandas que eu mais estava ansioso pra assistir. Na verdade, consegui assistir à última música do set. Quem viu disse que foi um showzão de rock guitarreiro, com cover de Neil Young ("Vampire Blues") e tudo. Difícil entender por que uma das bandas mais experientes e queridas do cenário independente tupiniquim foi escalada pra tocar tão cedo. Acabou sendo vista por pouquíssimos sortudos.

Os locais Excelsior vieram em seqüência e apresentaram um guitar rock clássico, em uma boa mistura de melodia e barulho. Destaque para as guitarras trabalhadas e os vocais doces, divididos entre Rodrigo Stradiotto e a bela vocalista Aline Roman. Os Autoramas tocaram seu rock com influências surf com o peso e a eficiência de costume. Já não bastassem os hits ("Autodestruição", "Nada a Ver", "Fale Mal de Mim" e a impagável "Carinha Triste"), o trio ainda tem grande presença de palco. Apesar de meio deslocado em um festival dessa natureza, o punk rock do Pelebrói Não Sei divertiu. Nem precisava da versão de "Beat On The Brat". O Ludov conseguiu resolver ao vivo um dos problemas do EP Dois A Rodar: a falta de peso. Apesar de algumas composições chatinhas, o quinteto tem várias boas músicas (como "Da Primeira Vez" e "Trânsito") e um futuro promissor pela frente. Já os experientes mods da Relespública não convenceram. Rock básico, com óbvias influências de Who, mas que sofre de falta de personalidade.

A grande surpresa do Curitiba Pop Festival foi o Mombojó, banda recifense que acabou de lançar o maravilhoso debut Nadadenovo pela Outracoisa, revista do Lobão. Impossível definir o som dos recifenses. Uma mistura de jazz, eletrônica, bossa nova, samba, rock, mas, ao mesmo tempo, nada disso. Em um lugar menor deve ser ainda melhor. Tão bom quanto o Mombojó foi a reunião dos gaúchos Wander Wildner, Frank Jorge e Flu. Foi um verdadeiro revival oitentista, com canções do DeFalla, da Graforréia Xilamrônica ("Eu"), dos Cascavelettes (o delicioso semi-hit "Menstruada") e, claro dos Replicantes. Wander, inspiradíssimo, consagrou-se como o melhor frontman do festival. Estava tão aceso que até apagou um pouco os companheiros, principalmente na insana versão de "Surfista Calhorda". Pena que logo depois veio o Pin Ups, reunido exclusivamente para o CPF. Show chatíssimo, pesado e cansativo. Anti-climax depois das ótimas apresentações do Mombojó e da gauchada.

A multidão (bem maior que no primeiro dia) se amontoou como pode pra assistir ao show mais esperado da noite. Os Pixies foram tudo aquilo e mais um pouco. Tocaram todos os hits em versões fiéis às originais ("Wave Of Mutilation", "Bone Machine", "Monkey Gone To Heaven", "Velouria", "Vamos") e algumas surpresas ("Hey", "Mr. Grieves", "Broken Face"). E como não atingir o nirvana ao ouvir em seqüência "Here Comes Your Man", "Where Is My Mind?", "Gigantic", "Debaser" e o demolidor final com "Into The White" e "Planet Of Sound"? Teve gente que reclamou de uma possível antipatia da banda, que não disse uma palavra sequer à platéia durante toda a apresentação. Não precisava. Os clássicos falam por si só.

 

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