21.07.03

Música Pós-contemporânea Brasileira

Por Babi Lopes Antunes e Katia Abreu Antunes

Rebeca Matta

O Alex vê movimento em tudo. Ele começou com essa história de que "tem alguma coisa acontecendo na música brasileira" há um tempo. Escreveu um texto sobre isso e vem nos mostrando vários discos, como os da Rebeca Matta, Karine Alexandrino, Moisés Santana, Wado, entre outros. Ele estava tão convencido que concebeu esse festival, o com:tradição, reunindo esses novos nomes a figuras já consagradas. Em quatro noites, foram quinze shows com 23 artistas/bandas. Qualquer incoerência que pudesse haver na escalação ou mesmo durante o evento já estava pré-justificada pelo nome do festival.

As noites no Sesc Pompéia, em São Paulo, foram explicadas por um manifesto: "Do fluxo infinito das ruas matreiras já se ouvem novamente os scratches, já se vêem novamente os flashs da (r)evolução. A vendetta do 'novo' versus 'velho', do 'nacional' versus 'gringo', do 'culto' versus 'autêntico' está esgotada. Mani-festa. No udigrudi, no posto 6 ou no cyberespaço. Como tem passado? No futuro!", diz o trecho final. E no papel de mestres de cerimônias, Alex Antunes e Karine Alexandrino repetiram várias vezes que estamos em um momento de efervescência, novo ponto alto no movimento cíclico que é a história da música.

"Não sei para onde eu olho agora"
O festival foi dividido em quatro noites temáticas. A primeira foi Pós-Femynysta, com ipsilon, fazendo referência à grafia adotada por Glauber Rocha. Quem melhor traduziu o espírito foi a baiana Rebeca Matta. Nas músicas e na performance, lembrava uma mistura de Alanis Morrissette e Maria Bethânia. Contra o bom-mocismo formal e moral, Rebeca prega que "garotas boas vão para o céu, garotas más vão para qualquer lugar". As letras seguem um raciocínio similar, apresentando uma mulher livre, forte e sensual. Muito rock pra ser MPB, muito MPB pra ser rock, e muito eletrônica pra ser os dois, a inclassificável cantora fez um dos melhores shows do festival.

A confusão quando se tenta enquadrar os artistas que participaram do com:tradição dentro de um determinado estilo musical equivale à dificuldade que eles próprios apontaram em relação ao espaço do Teatro do Sesc. Eva Leiz, vocalista do mim, atordoada com disposição da platéia ao redor do palco, enquanto recebia os aplausos do público, disse: "não sei para onde eu olho agora". Assistir ao show do mim, também deixou parte dos espectadores aturdidos. A banda aponta em muitas direções (rock, eletrônica, música latina) mas ainda não acertou em cheio nenhuma delas - pelo menos ao vivo. A apresentação oscilou entre momentos tediosos e propostas interessantes (especialmente as músicas cantadas em espanhol).

Donazica é outro exemplo de grupo que ainda não encontrou seu caminho. Músicos muito bons, mas presos em uma estrutura de banda universitária. Paira sobre as canções um ranço neo-hippie que pouco acrescenta a produção musical brasileira neste começo de milênio. Misturar funk com samba já não é revoluncionário desde, pelo menos, a década de 70. A falta de "um algo mais" fica ainda mais evidente quando colocados em um festival onde a experimentação e a exploração das fronteiras entre estilos, ritmos e conceitos artísticos são a tônica.

A artista consagrada que dividia espaço com a nova vanguarda do pop brasileiro, nesta primeira noite, era Elza Soares. Acompanhada pelas bases eletrônicas de Mugomango e sua banda, ela esbanjou jovialidade, tanto física (que lhe rendeu, aos 66 anos, elogios da ala masculina da platéia) quando artisticamente. Pulando feito uma jovem de vinte e poucos anos e tocando canções de seu recente álbum Do Cóccix Até O Pescoço, com seus tradicionais malabarismos vocais, empolgou o público a ponto de, ao final do show, o palco ser invadido e tranformado em uma festa.

Proibido proibir
Se o tropicalismo já era a canibalização do passado e do estrangeiro para criar música brasileira e contemporânea, o retropycalysmo da segunda noite do com:tradição foi a antropofagia da antropofagia. Da mesma forma que a Semana de 22, o evento no Sesc Pompéia não criou nada, mas aglutinou criadores e os colocou em evidência. O modernismo, o pau-brasil foram recuperados por Caetano, Gil, Tom Zé, Mutantes, Torquato Neto e mais uma galera, que por sua vez são recuperados pelas esquisitices kitsches de Karine Alexandrino, do Ceará. Producta, seu alter-ego, sexy, infantilizada, exibicionista, performática, irônica, representa um passo para trás e dois para frente na tal da linha evolutiva da música popular brasileira. As melodias passeiam entre o pop bubblegum/jovem guarda, o brega assumido e bases eletrônicas.

Voltando mais no passado da música, um japonês paulista com jeito de carioca e conhecido como Curumin fez samba à Originais do Samba com nuances de black music e hip hop. Com seu cavaquinho, criou um clima de roda de pagode, coroado pela versão de "Reunião De Bacana" (aquela: "Se gritar pega ladrão / Não fica um meu irmão"), só trocando o verso "Porque sou da cor eu sou escurinho" por "Porque sou da cor eu sou amarelinho".

Outro samba antigo que mereceu nova roupagem foi "Alegria", composto por Assis Valente e Durval Maia em 1938, que entrou no repertório de Moisés Santana. Mas esse é só o ponto de partida para o baiano radicado em São Paulo. Além do samba de raiz, Moisés vai ao rock e faz uma cover de "Quando", de Roberto Carlos, e à eletrônica e ao experimentalismo nos arranjos, que incluem os solos de furadeira de Loop B. O cantor preparou o ambiente para a entrada de seu convidado especial com uma releitura bacana de "Ando Meio Desligado".

O tropicalismo entrou no palco na figura de Arnaldo Baptista, endeusado pelo mesmo tipo de gente que o vaiou em 1968 quando, ao lado dos outros Mutantes, com Caetano Veloso e Gilberto Gil, tocava que era proibido proibir. Com Moisés, Arnaldo cantou "Cê Tá Pensando Que Eu Sou Lóki?". Depois, ao piano, tocou "Balada Do Louco", sua resposta para quem pensa que ele pirou. Louco ou não, ele estava visivelmente nervoso, cortando pedaços das músicas para que elas terminassem mais rapidamente. Apesar disso, segundo Moisés Santana, que falou com ele depois do show, o saldo foi positivo: Arnaldo estava feliz com sua participação. O saldo foi positivo também para o público, que presenciou um momento transcendente, uma coisa "todos juntos reunidos numa pessoa só".

A noite Retropycalysta terminou com um pós-tropicalista: Jards Macalé, que se apresentou com o Vulgue Tostoi, em uma parceria que vem sendo desenvolvido há mais de um ano. Por isso, foi o encontro que soou mais coeso. O entrosamento e a cumplicidade entre a banda e o sambista maldito era óbvio nas conversas e brincadeiras. Os arranjos que mesclam MPB, soul e trip hop do Vulgue se encaixavam perfeitamente com clássicos de Jards, como "Negra Melodia" e "Vapor Barato".

Wado

Remédio forte
"Esse samba é tarja preta". O verso de Wado foi repetido diversas vezes durante a noite Samb'O'Matyca. O nosso samba, revisitado por elementos eletrônicos, rock, jazz, dub e outros estilos importados, é mesmo um dos remédios para o marasmo em que se encontrava a música brasileira.

O contra-argumento para esta tese de que a MPB precisa se reinventar poderia ter vindo na apresentação de Beto Villares. Mas não veio. Produtor de gente como Mestre Ambrósio, Pato Fu e Zélia Duncan e da trilha sonora de Abril Despedaçado, Beto fez uma apresentação do que há de mais enfadonho na música popular brasileira: samba com banquinho e violão, evocando standards de bossa nova e do samba-canção em composições insossas. Só não foi uma perda de tempo completa graças a Fernando Catatau (o Cidadão Instigado) e às distorções que saíam de sua guitarra.

Liderados pelo ex-manguebeater Roger Man, o Bonsucesso Samba Clube fez a conexão Olinda-Jamaica, misturando maracatu, embolada e coco com reggae e dub, além de efeitos eletrônicos. Um tipo de sonoridade que se encaixaria melhor na noite Retropycalysta, assim como a apresentação de Curumin casaria mais adequadamente com a idéia de Samb'O'Matyca.

Wado, o "Beck das Alagoas", além de músicas de seus dois álbuns, Manifesto Da Arte Periférica e Cinema Auditivo, trouxe ao público canções inéditas. O show deixou de lado a vertente mais Clube da Esquina de Wado, preferindo apostar na fusão do samba com rock e funk. E até ganhou um "Parabéns a você", cantado por Karine Alexadrino em um momento "Marilyn Monroe". Ele ainda voltou ao palco para cantar com Maria Alcina "Tarja Preta", elevada ao status de hit do festival.

O espaço do teatro ficou pequeno para a explosão que foi o show de Maria Alcina, seu vozeirão, sua presença de palco e seu domínio do público. Ela foi convidada pelo Bojo, que deu a marchinhas como "Alô, Alô Responde" e "Eu Dei" e a "Fio Maravilha" seu "tradicional" tempero eletrônico, que beira o estranho. Maurício Bussab, do Bojo, contou que quando propuseram o encontro a Maria Alcina, disseram que iam mandar um CD para que ela não se assustasse. "Me surpreendam! Eu quero ser surpreendida!", foi a resposta. O que poderia parecer o híbrido mais bizarro funcionou muito bem. O clima de carnaval pós-moderno era tão contagiante que o Alex, já "breaco" como ele admitiu na noite seguinte, não deixava a cantora ir embora. Ela fez dois bis, repetindo o dueto com Wado e a música de Jorge Ben.

Para não dizer que não falei das flores
Além do lado festivo dos anos 70, representado tanto pelo tropicalismo quanto pela explosão da black music no Brasil havia uma vertente com discurso político mais explícito, representada pelas canções de protesto. Neste novo momento, esse papel é desempenhado pelo hip hop. A voz da periferia se fez ouvir com Sobrevivendo No Inferno, dos Racionais. Entretanto, elementos de brasilidade ainda não haviam sido incorporados ao gênero, musicalmente falando.

A parceria do Mamelo Sound System com o Instituto, Naná Vasconcelos e JT Meirelles foi uma boa síntese de como o rap mais tradicional pode se apropriar de outros estilos. O Mamelo segue uma linha mais estanque de hip hop (colocando no máximo alguns grooves em suas melodias), que se enriqueceu no contato com as batidas africanas do arsenal de instrumentos de percussão de Naná e o saxofone cool de Meirelles.

A apresentação do carioca Maurício Negão foi como um cruzamento de Jimi Hendrix com Tim Maia. Com sua guitarra virtuosa, ele mostrou um trabalho consistente, que já está no terceiro disco. Ele mesmo definiu uma das músicas como "uma mistura de Gilberto Gil e Van Halen". E, no fim do show, queimou sua guitarra, em mais uma evocação ao período 60/70, desta vez nos Estados Unidos.

O ápice da noite Black do B foi o impecável show de BNegão & os Seletores de Freqüência, unindo o suíngue de uma excelente banda e o discurso politizado. Além da influência clara de Tim Maia, BNegão fez uma letra para a instrumental "Necessário", do saudoso síndico. A crítica social ganhou aspectos irônicos e bem humorados em "A Verdadeira Dança Do Patinho".

Mas a curiosidade do público em relação ao carioca Adão Dãxalebaradã não foi completamente saciada. O compositor de mais de 500 músicas não pode apresentar nenhuma delas porque estava com problemas respiratórios. Mesmo assim, após a exibição de um clipe, ele fez um discurso, em que justificou a imagem de guru que ele sugere. Falando sobre o crime organizado, colocou o dedo na ferida: "A maior organização criminosa é o sistema financeiro internacional".

A pós-contemporaneidade
"Todas as mentes saudáveis sabem que o tempo se movimenta simultaneamente em todas as direções", diz o manifesto. Os ecos do futuro ressoam nos ouvidos mais atentos. A verdadeira nova vanguarda não é de agora: já vem acontecendo e ainda vai acontecer. Quando um festival consegue reunir tamanha quantidade de artistas, direta ou indiretamente (só para destacar alguns: Gilberto Monte, do tara code tocou com Rebeca Matta; Maurício Takara, do Hurtmold, tocou com o Mamelo, Catatau, o Cidadão Instigado, tocou com Beto Villares e é produtor do disco de Karine Alexandrino), deixar de fora o Trio Mocotó e o DJ Dolores, porque estão excursionando na Europa e ainda ter como opção diversos nomes, como Stela Campos, Flu, Marechal, Gerador Zero, Casino e Stereo Maracanã, um festival assim, com a qualidade que teve, prova que, de fato, alguma coisa está acontecendo.

 

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