02.10.03

Canções tristes para um verão remoto

Por Juliana Zambelo

Nem 8 nem 80. O Clientele não foi capa de revista antes de ter lançado o primeiro álbum mas também não vive nos cantos de fanzines pouco lidos. Esse trio londrino está lá no meio termo: o dos elogios nas páginas internas de importantes jornais e revistas de música. Um espaço que foi conquistado depois de alguns anos de trabalho.

Alasdair Maclean e James Hornsey se conheceram ainda na escola, quando atravessaram juntos um momento difícil: a separação da adorada banda Felt. Resolveram se consolar mutuamente fazendo música: o primeiro soltou voz e aprendeu guitarra e o outro sobrou com o baixo. Algum tempo depois, já por volta de 1997, Mark Keen foi colocado na bateria e a banda ficou completa.

Não foi difícil para o trio encontrar o seu caminho. Pegaram a beleza e a poesia do Felt e juntaram a alguns cacos da aura climática do Galaxie 500 e à delicadeza melódica de Simon & Garfunkel. Aperfeiçoaram a fórmula durante anos lançando um grande número de singles e EPs, que em 2000 foram reunidos e lançados em um único CD chamado Suburban Light. E só agora, em julho desse ano, colocaram na rua o verdadeiro álbum de estréia, The Violet Hour, lançado na Europa pela Point Records e nos Estados Unidos pela Merge, enquanto no Brasil a Trama prefere deixar para depois.

Como os trabalhos anteriores da banda, The Violet Hour é um lindo álbum. O único som claro aqui é o da guitarra, que escorre solitária carregando a música. O resto - a voz, a bateria, o baixo, os sinos - parece embaçados e fugidios, como se para chegar até nossos ouvidos precisassem percorrer uma distância muito, muito longa em espaço e, acima de tudo, em tempo. O Clientele soa como se fosse uma lembrança desbotada de uma década de 60 melancólica e imprecisa.

Para tentar definir melhor de onde vem essa música, uma opção é perguntar a quem a fez. Alasdair, principal compositor da banda, mandou de Londres por email algumas pistas para se entender a magia do Clientele.

Quando os críticos falam sobre o Clientele, eles sempre mencionam Galaxie 500, Felt, Byrds como referência. Essas são realmente suas maiores influências? Como é que você lida com essas comparações?
Eu gosto dessas bandas, mas para ser honesto atualmente eu quase não as ouço mais. É um pouco maçante ser o tempo todo comparado a elas, porque nós nos concentramos mais em melodias e em fazer canções pop do que o Felt ou o Galaxie 500. Eu acredito que nós temos mais "sensibilidade comercial" que eles. E Byrds era ótimo, mas eles são peças de museu hoje em dia.

Então quais são as bandas que vocês têm ouvido ultimamente?
Quando estávamos gravando Suburban Light, eu ouvia muito pop dos anos 60: Love, Left Banke, The Zombies, Creation, Keith West, junto com um pouco das coisas mais bonitas do indie pop dos anos 80, como Biff Bang Pow, Television Personalities, Felt. Mas nos últimos dois ou três anos, enquanto escrevia o Violet Hour, meu gosto se ampliou, eu comecei a ouvir dub e umas coisas de piano minimalista tipo Eric Satie, Charlemagne Palestine. Ler a respeito das idéias de Satie foi um momento decisivo para mim, quando ele diz que "o tédio pode ser misterioso e profundo"; a idéia de que às vezes você tem que fazer o ouvinte trabalhar, que beleza pode ser tão dolorosa quanto sedutora.

Esse disco de estréia têm sido esperado por um bom tempo. Por que demorou tanto para vocês lançarem The Violet Hour?
Eu passei muito tempo no estúdio refinando o som, juntando idéias. Nós também ficamos um ano em turnê com essas músicas, tocando-as ao vivo. Eu acho que dá para perceber que nós tocamos muito juntos nesse disco, enquanto Suburban Light é mais tenso e a banda flui com mais dificuldade. E isso é só um jeito complicado de dizer que na verdade por um longo tempo nós não tínhamos idéia de como fazer esse disco!

Agora que o álbum está pronto, o que você acha do resultado final?
Por estranho que pareça, eu ainda gosto bastante dele mesmo depois de ouvi-lo tanto enquanto fazíamos a mixagem. Ele ainda soa bem fresco e misterioso, bastante hipnótico. Ele foi feito baseado em quatro versos do poema "A Terra Desolada" do T.S. Eliot - não o poema todo, só essas linhas:

À hora violácea, quando os olhos e as costas
Às mesas de trabalho renunciam,
Quando a máquina humana aguarda
Como um trepidante táxi à espera,

Esses momentos em que você está sentado sem fazer nada e você se sente como se estivesse levemente fora de você mesmo, estranho a si próprio. Para mim, a música muitas vezes consegue captar esse sentimento. Mas na verdade eu não fico ouvindo muito o disco.

Desde os primeiros singles até o novo álbum, sua música sempre sugeriu uma sensação que pode ser descrita como uma fotografia embaçada de uma praia deserta ao pôr-do-sol. Você reconhece sua música nessa imagem? Qual é a sua imagem para o som do Clientele?
Sim, eu reconheço. Eu acho que um bom contraponto visual para a nossa música é o livro Boring Postcards de Martin Parr. É uma coleção de cartões-postais da Grã-Bretanha dos anos 50 aos 70 com imagens de lugares bem tediosos como shoppings, aeroportos, ruas vazias em cores gastas, roxos e azuis e cinzas, um mundo que de um certo modo ainda está entre nós, e ao mesmo tempo está perdido para sempre. Isso é quase doloroso. Essa tensão é o tipo de coisa que eu estou muito interessado em recriar através de música.

Você já disse em entrevistas que a bossa nova é uma influência importante para você. Como você entrou em contato com música brasileira, o que você conhece dela e como isso entra na música do Clientele?
Há alguns anos um amigo da Espanha me deu um CD duplo com gravações do Vinícius de Moraes tocando com amigos, e aquilo me deixou embasbacado, aquele som de violão era a coisa mais incrível que eu já tinha ouvido. Parecia muito mais delicado e mais sensível do que as coisas tipo Astrud Gilberto/Stan Getz que todo mundo conhece. A partir daí eu comprei mais discos; Edu Lobo é o favorito atualmente. Eu amo a liberdade desses músicos, suas invenções rítmicas, é uma grande inspiração para o meu jeito de tocar guitarra embora eles obviamente sejam bem melhores que eu!

A tipo de música que está nas manchetes hoje em dia, o "novo rock", não tem nenhuma relação com o Clientele. Como é para vocês lançar um disco de estréia no meio de uma histeria tão grande comandada pelo que sai na capa do New Musical Express?
O NME publicou uma crítica muito positiva sobre o Violet Hour, o que foi uma surpresa para mim. Eu comprei um exemplar por causa disso, a primeira desde que eles escreveram sobre o Suburban Light em 2000. Mas eu senti um cinismo tão desanimador no jeito que eles têm escrito sobre tudo que fiquei constrangido de estar na revista. Eu acho que muita gente sente a mesma coisa e cada vez menos pessoas no Reino Unido têm usado a imprensa mainstream como guia para o que ouvir.

O que existe então de melhor na música britânica no momento?
A música independente está passando por um momento ruim, mas eu amo o novo disco do Saloon, If We Meet In The Future, e os dois álbuns do Mongolfier Brothers. Eu também adoro Boards of Canada e Autechre. Mas eu tenho a impressão de que a música britânica mais excitante atualmente está sendo feita dentro de pequenos clubes.

 

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