19.11.04

Craques da segunda divisão

Por Juliana Zambelo

Em 2002, o Charlatans fez parte da lista de atrações do festival recifense Abril pro Rock. Tocou também em São Paulo, para um Olympia quase vazio. Era uma segunda-feira e os ingressos custavam caro; pouca gente se deu ao trabalho de ir até lá conferir a apresentação de uma banda do segundo escalão do Britpop dos anos 90. Assim como poucas pessoas se darão ao trabalho de escutar Up At The Lake, oitavo disco do quinteto, que saiu há poucos meses.

Uma pena? Que nada. Porque o Charlatans sempre foi uma boa banda irrelevante - ou seria uma irrelevante banda boa? Surgiu em fins da década de 80 na onda das bandas indie dance (Stone Roses, Happy Mondays), passou por tragédias pessoais, discos bons e ruins, mas assim como nunca afundou de vez, também nunca emergiu pra valer. Seu som pouco mudou em mais de dez anos de carreira. Os músicos se aprimoraram, as composições melhoraram bastante, mas a gostosa mescla das influências sessentistas (Rolling Stones e The Kinks) com batidas dançantes segue firme e forte.

A dificuldade que o vocalista Tim Burgess tem de escrever um refrão memorável sempre foi apontada como um dos motivos que manteve o Charlatans na segundona. E não foi dessa vez, ainda, que ela foi vencida. Novamente o grupo preparou um álbum que deixa no ouvinte mais uma sensação completa (de bem estar e uma certa jovialidade) do que a lembrança de canções isoladas. Mas isso pode não ser uma fraqueza. Não cria hits, não vende tantos discos, mas resulta em uma obra consistente; há anos isso tem sido a principal qualidade dos trabalhos desses ingleses.

Up At The Lake volta um pouco atrás em relação ao que tinha sido feito no disco anterior. A pegada soul, simbolizada principalmente pelos falsetes que invadiram o CD Wonderland (de 2002), é abandonada em favor de uma sonoridade mais próxima do rock e das baladas de Us and Us Only (lançado em 1999). Guitarras emprestadas do "renascimento" do rock ("Up At The Lake"), um pouco da eletrônica modernosa ("Feel The Pressure") e a influência de Dylan cada vez mais forte ("I'll Sing a Hymn"), tudo cabe dentro dessas dozes músicas. Diluído, para que não crie conflitos, mas sem ficar aguado, graças à identidade segura da banda.

Seguindo a tendência, o álbum já saiu no Brasil (os últimos dois trabalhos do Charlatans também têm versão nacional). Venderá pouco, é certo. Que seja assim. É provável que a estabilidade da trajetória da banda seja essencial para que a qualidade dos discos também se mantenha no mesmo patamar, ano após ano. Que pena? Nada disso. Um álbum que inspira alegria mesmo nas canções que deveriam ser mais tristes só pode ser fruto de pessoas bem resolvidas. Não temos por que sentir pena.

 

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