Março / 2003

Cura e libertação

Capa do disco

Por Bárbara Lopes

O líqüido escuro que costumeiramente escorre dos discos da Cat Power se tornou mais ralo no recente You Are Free. Ainda é a mesma bílis negra, a mesma melan khole de Hipócrates, cujo excesso causa humor triste, estado mórbido, abatimento.

A bílis negra vertia caudalosamente dos anteriores What Would The Community Think e Moon Pix. Os dois discos moldaram o que se conhece da cantora e compositora. As melodias são tristes, com ela ao violão ou ao piano e pouco acompanhamento instrumental. Sua voz soa às vezes contida, às vezes desesperada (à maneira de PJ Harvey). As letras fazem referências cifradas, beirando o abstrato. Dessas letras, emergem temas recorrentes a cada um dos discos - a dica é o nome do álbum -, de forma que uma música se relacione com a outra. No primeiro, de 1996, a água, a inadequação. Moon Pix, de 1998, fala sobre a noite e a solidão. Os dois têm uma fixação com a morte e uma visão religiosa sobre o assunto (termos como "céu" e "inferno" permeiam quase todas as músicas do Moon Pix).

É essa atração pela morte que Cat Power (ou Chan Marshall) começa a negar em You Are Free, seu primeiro álbum de músicas inéditas desde então (em 2000, lançou The Covers Record). Agora ela assume um papel de Cassandra moderna, às avessas. Vem anunciar que "coisas boas estão vindo" (em "Shaking Paper"), "todos podemos ser livres" (em "Maybe Not"). O tema da liberdade, mais uma vez anunciado no nome do álbum, é o mote da vez. Além de em "Maybe Not", "Free" dá nome a uma música, e ainda aparece em "Baby Doll". Isso pra falar nas referências diretas. Indiretamente, a questão da possibilidade de escolhas está em quase todas as faixas.

O reflexo disso é um punhado de canções mais animadas, mais rock mesmo, como "Free" e "He War". A banda que a acompanha ganhou peso, importância e a participação muito especial de Dave Grohl, tocando bateria. Além dele, outro grunge histórico está no disco: Eddie Vedder, que faz backing vocal para "Evolution". Não por acaso, You Are Free foi produzido por Adam Kaspar, que também é responsável pelos trabalhos do Foo Fighters (One By One) e do Pearl Jam (Riot Act).

Dito isso, podemos ir ao jogo das especulações. Além de toda essa gente de Seattle figurando no disco, há, talvez, o fantasma do mais importante deles. Sites andam especulando que a primeira música de You Are Free, a bela balada ao piano "I Don't Blame You", é dedicada a Kurt Cobain. A letra diz "Da última vez que te vi, você estava no palco / Seu cabelo estava selvagem, seus olhos, vermelhos /.../ Mas você não queria tocar / E eu não te culpo /.../ Que preço cruel você achou que tinha que pagar / Por toda aquela merda no palco /.../ Disseram que você era o melhor / Mas eles eram apenas moleques /.../ Só porque eles sabiam seu nome / Não significa que sabiam de onde você veio / Que triste truque você pensou que tinha que tocar / E eu não te culpo". Cat Power não conta quem é o personagem da música. "Não é sobre mim. Eu não quero mencionar quem é a pessoa porque há muita bobagem a respeito dela", disse a cantora em entrevista ao site Nude as the News.

Seja sobre quem for, a música faz par com outras duas. Logo na seqüência, entra "Free", que também trata de músicos e música. "Não se apaixone pelo autógrafo / Só se apaixone quando gritar essa canção". A outra é a linda e triste canção ao piano "Names". Aqui, Chan Marshall lembra histórias de colegas das escolas por onde passou. Crianças que sofreram abuso e violência - porque ainda que em menor quantidade, o caldo negro continua correndo em You Are Free. Mas esses pequenos e grandes dramas parecem ter despertado um alarme em sua cabeça, ter provocado uma espécie de reação, o que explicaria o tom menos depressivo, mais enérgico desse álbum. Mais livre.

 

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