Março / 2003

Tríplice aliança

Por Katia Abreu


cartel s.m. 4. COM: acordo comercial entre empresas, visando à distribuição entre elas das cotas de produção e do mercado com a finalidade de determinar os preços e limitar a concorrência; 5. MIL: acordo realizado entre chefes militares beligerantes relativo à troca de interesses, em particular à troca de prisioneiros
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa

A banda Pelvs, do midsummer

No final do ano passado, três dos mais importantes selos da cena indie brasileira anunciaram que estavam se associando para formar o Cartel. Bizarre Records, Monstro Discos e midsummer madness resolveram juntar esforços para promover seus catálogos e intensificar ações conjuntas. A estrutura de cada selo permanece inalterada (ao menos por enquanto), mas agora, oficialmente, eles passam a distribuir discos uns dos outros e somam esforços para conseguir efetivar os planos de cada uma, que passam a ser planos do Cartel, como lançamentos de novos álbuns, shows etc.

"Eu estou nessa há quase 15 anos, o Farinha [Carlos Farinha, um dos sócios da Bizarre] também, com a loja em São Paulo, e o pessoal da Monstro, que é o mais novinho, está nessa há 10 anos. Todos com um trabalho de destaque na mesma área, então, decidimos nos unir", explica Rodrigo Lariú, do midsummer. Não há nesse Cartel qualquer intenção, como sugere a definição da palavra, de regular preços ou eliminar concorrentes. "A nossa intenção é levar todo nosso aprendizado de 'anos toscos' para um outro nível mas sem virar burocrata ou empresa. Trabalhando juntos nós fazemos um serviço às nossas bandas e ao indie nacional amplificando uma cena da qual já fazemos parte há anos", esclarece Lariú.

Os "anos toscos" a que Lariú se refere remontam ao final da década de 80, no Rio de Janeiro, quando ele começou a editar o fanzine midsummer madness - "daqueles toscos, em xerox, com poucas páginas e matérias meio loucas", como o próprio faz questão de lembrar - que mais tarde daria origem ao selo/gravadora. "Desde o começo a gente tentava falar de bandas brasileiras em vez de ficar traduzindo matérias de semanários gringos. Na edição #4 do zine, em 1992, resolvemos editar uma fita cassete com músicas das demos das bandas que a gente mais gostava, a saber: Second Come, Killing Chainsaw e Pin Ups. A fita deu uma repercussão tão boa que fizemos outra na edição #5. Daí, em 1994, estávamos meio de saco cheio e resolvemos parar. Mas as bandas continuavam a mandar fitas e a pedir que a gente as ajudasse a divulgar". No mesmo ano, o zine midsummer se transformou em uma gravadora de fitas cassetes, que eram vendidas pelo correio, por R$4,00, e, a partir de 1997, começaram a circular CDs do midsummer. As bandas que conseguissem vender mais de 300 cassetes, lançavam um CD. "Foi o que aconteceu com o Cigarettes e a Pelvs, por exemplo", recorda Lariú. Ele conta que o modus operandi do selo/gravadora continua o mesmo até hoje, apenas sendo substituídas as cassetes por CD-Rs, que são vendidos pelo site do selo. "Hoje o midsummer tem dois catálogos: o de CD-Rs e o de CDs, ambos intimamente ligados".

Os outros dois terços do Cartel têm uma gênese parecida. Tanto a Monstro quanto a Bizarre começaram como lojas de disco que evoluíram "naturalmente" para selos. "A estréia da Bizarre foi também estréia do Space Invaders, em 2001. Mas a história é mais antiga. A Bizarre, como loja de discos em São Paulo há mais de 15 anos, sempre trabalhou com música independente e alternativa, olhando de perto o que acontecia na cena local. Lançar discos foi uma evolução natural. A prateleira de discos independentes nunca ficava cheia e a gente achou que podia ajudar a mudar isso do nosso jeito", comenta Guilherme Barrella, um dos sócios da Bizarre. Léo Bigode, mentor da Monstro, conta uma história semelhante para explicar o nascimento de seu selo, em 1998: "Eu tinha uma loja de discos e já estava envolvido com bandas e festivais em Goiânia. Recebia sempre discos em vinil de selos gringos e sempre tive vontade de lançar vinil colorido de bandas brasileiras. Na verdade a idéia era lançar vinil , compactos e LPs de bandas de rock., com um cuidado especial com capa, design... coisas às vezes esquecidas e/ou deixadas de lado no esquema underground ... Aí a Monstro começou como produtora de shows e selo independente e depois as coisas foram se organizando."

Promovendo a cena
Ainda que com uma estrutura simples e, por que não dizer, precária, os três selos têm sua parcela de "culpa" na promoção da cena indie. Em especial a Monstro, que conseguiu através de suas ações cunhar o apelido de "Manchester Brasileira" a Goiânia e promover em uma cidade fora do eixo óbvio de produção cultural do país dois importantes festivais de rock: o Goiânia Noise Festival e o Bananada. "O lance dos festivais e de alavancar a cena veio como uma conseqüência benéfica do lance todo. O selo e as produções de shows aqui em Goiânia e os Festivais acabaram fomentando a cena e contribuindo e muito para as coisas aqui", explica Bigode.

Monokini, do selo Bizarre

E a cena cresceu, o reconhecimento pelo trabalho veio, mas o principal problema, tanto da Monstro, quanto da Bizarre e do midsummer, ou de qualquer gravadora independente, sempre foi a distribuição. A filosofia punk, o "do it yourself" funciona muito bem até determinado momento, quando chega a hora de fazer os álbuns chegarem ao público. Compras pelos sites, ou nas lojas dos próprios selos e em algumas outras poucas... e não muito mais do que isso. Por mais que se argumente que o mercado indie é pequeno e sabe procurar as coisas nos lugares certos, é inegável que um esquema de distribuição decente é necessário e imprescindível.

Quando o Cartel se formou, essa preocupação logo veio à tona. E a primeira ação concreta do Cartel foi tratar de arranjar alguém que fosse capaz de distribuir seu catálogo. Fecharam com a Tratore, que agora se encarregará de fazer com que os disquinhos cheguem ao maior número de pessoas possível. "Estávamos buscando distribuidoras e negociando com algumas. A Tratore achou bacana nossa idéia de juntar os selos independentes e não se importou de fechar isso através do Cartel", conta Barrella. A Tratore existe há pouco mais de seis meses e já distribui um bom número de selos independentes, como YBrasil, Outros Discos, Barulhinho e Universo Paralelo, mas ainda não tinha um catálogo forte de rock, por isso topou o contrato com o Cartel. Apesar do pouco tempo da distribuidora, a Tratore já tem uma estrutura razoável com 13 representantes atuando em 18 cidades brasileiras, e tenta fazer com que a produção independente seja vista tanto em pontos de venda alternativos como livrarias, cafés, cinemas, lojas de design etc, quanto em grandes sites de comércio eletrônico como Submarino e Som Livre.

Mas muito se engana quem acredita que o Cartel significa, de alguma forma, que os selos estão querendo "competir" com as majors ou se tornarem tão grandes quando elas. Lariú ressalta que a preocupação com a qualidade da música acima de tudo continuará sendo o foco dos trabalhos do Cartel: "É um erro comum de algumas bandas, da imprensa e até de alguns selos confrontar o nosso trabalho com o das majors. Nosso foco sempre foi a música, o deles, dinheiro - e nenhum dos dois está errado ou certo. Nós não somos 'o resto, a raspa do tacho'; nem eles são o que há de mais importante na música no Brasil. São simplesmente dois modelos diferentes. Nossa idéia é ser bom naquilo que fazemos e não grandes. Nós queremos continuar lançando o que achamos legal, na melhor filosofia fanzineira. Pensando assim, seremos tão 'grandes' quanto nosso público permitir."

Próximos passos
Muito pouca coisa muda em relação ao que Bizarre, Monstro e midsummer já faziam antes da formação do Cartel. Pelo menos por enquanto. A maior conquista, talvez, da junção dos três selos seja o fato de poderem negociar melhor com fornecedores, por exemplo. "Estamos negociando preços mais em conta com as fábricas de CDs, porque agora em vez de 1000 discos, passamos a falar de no mínimo 3000", conta Lariú. "Com o Cartel nossas ações são multiplicadas por três e os custos divididos por três", acrescenta. "Praticamente todos os projetos que estamos desenvolvendo com o Cartel seriam muito mais difíceis de serem feitos por conta própria", complementa Barrella.

Eles planejam em breve, um catálogo unificado do Cartel, show conjuntos das bandas que hoje pertencem a cada um dos selos, festivais itinerantes e asseguram que muito mais virá pela frente, como novos associados ao Cartel. "A gente não vai parar por aqui. Passada a euforia inicial, novos selos já estão sendo convidados a se juntar a nós. A idéia é unir e não segregar. A motivação para criar o Cartel foi por razões óbvias: juntos fazemos mais barulho e temos um maior poder de negociação", afirma Barrella. "Estamos trabalhando em um site para o Cartel, nos catálogos, enquanto negociamos distribuição internacional e acordos com fabricantes. O Cartel também apoiará ações de seus integrantes, como a turnê da banda alemã Stereo Total, que a Bizarre promoverá em maio. Estão confirmadas apresentações em São Paulo, Goiânia e Rio de Janeiro, além de outros locais", complementa. Além disso também há uma preocupação com a divulgação dos produtos. "Estamos agitando algumas coisas pra atuar direto nas lojas, que é o alvo principal do Cartel. Cartazes, adesivos, catálogos, site, anúncios estão sendo providenciados", enfatiza Bigode.

Enquanto as ações conjuntas da Cartel ainda estão apenas começando, Bizarre, Monstro e midsummer continuam seus "trabalhos solo". O selo paulistano, além de trazer o Stereo Total em maio, deve lançar os discos da banda alemã por aqui também, além de grupos como Jerssons, Club 8, Blue Afternoon, Les Sucettes, Romulo Fróes, Objeto Amarelo, Tetine, Golden Shower, Ultrasom, Le Hammond Inferno, Space Invaders e outros já contratados da Bizarre. "Bizarre pretende ainda lançar um sub-selo para trabalhos mais experimentais, organizar dois festivais e quem sabe lançar um ou outro livro sobre música", conclui Barrella.

A Monstro segue organizando seus famosos festivais e, segundo Bigode, se prepara para lançar, ainda esse semestre, o vinil 12" de Frank Poole, CDs do Prot(o), NEM e Ambervisions, além de um tributo ao Ultraje a Rigor; vídeo e trilha sonora do documentário Música De Trabalho (sobre a cena independente brasileira) e o DVD VIII Goiânia Noise Festival.

O midsummer prepara o lançamento de uma coletânea do Telescopes, que pode se desdobrar em outros dois lançamentos da banda inglesa. No sentido contrário, o selo também irá exportar algumas de suas bandas. "Os contratos para levar bandas daqui para outros países que estão certos são com a EMI em Portugal para The Gilbertos, e a Clairecords e Alison para Pelvs, Casino, The Gilbertos e Stellar na Europa e EUA. Estamos em conversações no Japão e Espanha para o Luisa Mandou Um Beijo". Além disso, devem lançar as estréias de Valv e Luisa Mandou Um Beijo em CD, uma caixa com três CDs da Pelvs e o segundo disco do The Gilbertos e relançar álbuns fora de catálogo, como os do Second Come.

 

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