06.06.04

As estripulias da nova Madonna

Por Vladimir Cunha

Um teclado sinuoso que entra pelos ouvidos e escapole para dentro do cérebro tocando fundo a libido do cidadão, uma linha de baixo estalando os graves na caixa de som e a verdadeira batida perfeita. À frente, entre um gemido e outro, a voz feminina mais promissora do pop anos 00. Britney Spears quer ser Madonna. E de todas as suas discípulas, ela é a única que aprendeu as lições que fizeram a fama da atual Sra. Guy Ritchie. "Toxic", a sua nova "faixa de trabalho", é o melhor hit da temporada.

Demorou, mas Britney sacou que para sobreviver era preciso dar as costas ao passado caipira que ainda lhe assombra e cair de boca na música negra. Assim como o ex-namorado, Justin Timberlake, que parece ter batido com a cabeça na quina da mesa e acordou achando que era Stevie Wonder fase Talking Box, ela se recicla para o novo milênio através do mais manjado recurso da indústria do entretenimento: a apropriação de culturas segregadas, no caso a afro-americana, e sua posterior amplificação para as massas. Uma estratégia que deu ao mundo de Elvis Presley e Jerry Lee Lewis a Jennifer Lopes e Eminem. Britney Spears quer ser, ou pensa que é, uma cantora na melhor tradição do R&B eletrônico norte-americano: sexy, malandra e cheia de ritmo. Sem culpa no cartório e sem moral protestante. É a solução mais óbvia para que ela não se eternize no papel da virgem cor-de-rosa que encantou o mundo no apagar das luzes do século passado. Uma atitude sábia. Pois se a música para crianças deixou de ser um segmento viável até para quem é do ramo, basta ver o fracasso de Xuxa em se firmar como referencial televisivo para as novas gerações, impossível não pensar em Britney correndo o risco de se tornar um item de consumo obsoleto, fonte de embaraço para fêmeas envergonhadas da época em que choravam por ela, pelo elenco inteiro da Malhação e por Kiko, o KLB grandão. Só que a mulher tem as manhas e renasce apoiada em uma sexualidade agressiva e um clipe de um milhão de dólares. Um processo de libertação iniciado no vídeo de "Slave 4 U", com grafia propositalmente roubada de Prince, outro bandoleiro do showbizz, no qual aparece dançando suada ao som de fragmentos de "Pump Up The Jam", do Technotronic.

Há quem diga que "Toxic" é apenas uma boa música perdida em um disco medíocre. Pode ser. Mas é bom lembrar que a emancipação da ex-namoradinha da América apenas começou. Britney ainda tem pelo menos uns dois discos para queimar, para experimentar novos formatos e riscar de vez de nossa memória pop a época em que bailava inocentemente com seus amiguinhos no Clube do Mickey. Depois virá a fase adulta, um dueto com algum rapper de responsa e a cerimônia de posse, na qual Madonna, já cinquentona e cansada de tanta esbórnia, lhe passará a coroa, o cetro, a cinta-liga e os chicotes. Tudo o que Kelly Key poderia ser caso não fosse tão desmiolada e tivesse chamado o Instituto para produzir o seu último disco junto com o DJ Marlboro. Se Alanis Morissete, que antes de descobrir o budismo e o rock alternativo foi durante anos uma espécie de Angélica do Canadá, chegou lá, Britney também consegue. Com a vantagem de ser menos chata, cantar melhor e ter um corpo beeem mais bonito. E enquanto as neuróticas do rock se lamentam pelos cantos e vagam por aí atrás de um modelo de masculinidade completamente inviável, ela continua livre, leve e solta, pronta para conquistar o mundo novamente, desta vez sob o viés da música negra contemporânea. Para algumas pessoas é duro admitir, mas Britney Spears comanda. Vamos dançar, então.

 

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