02.10.03

Começando a cair

Por Juliana Zambelo

O processo é mais ou menos assim: a banda surge no círculo alternativo. Tempos depois, alguma coisa acontece para fazer a sua popularidade aumentar exponencialmente. Nasce então uma divisão tensa de radicais chatos: os dedicados fãs ardorosos versus aqueles que se afastam por não gostarem do sucesso alheio. A partir daí, qualquer pessoa que der uma opinião sobre a banda será encaixada em um daqueles extremos. Não existe meio termo quando se fala sobre uma banda que suscita paixões e ódios.

Apesar da dinâmica ser universal e atemporal, nenhum grupo recente se encaixa melhor nela do que o Belle and Sebastian. Principalmente agora que eles estão para lançar um novo disco que, como já se sabia, vem diferente. O álbum chamado Dear Catastrophe Waitress, primeiro da banda pelo selo Rough Trade, vai ser revelado ao mundo na segunda semana de outubro, mas estava na internet mais de um mês antes disso. Após esse vazamento, a banda não se pronunciou sobre a validade da versão disponível nos programas de troca de música, se seria a mixagem final ou coisa do gênero. Como quem cala, consente, o silêncio trouxe uma certa confiança. A nova fase da banda independente mais adorada e bem sucedida da virada do século já pode enfim ser conhecida sem que se precise esperar a data programada.

Dear Catastrophe Waitress é um álbum difícil de julgar. Porque querendo ou não, quando um artista alcança altos graus de qualidade, não se espera dele menos do que isso, e expectativas nem sempre são boas conselheiras. Porém, está claro: como tinha que acontecer cedo ou tarde, o Belle and Sebastian começa a dar sinais de decadência e esvaziamento criativo. O álbum é cheio de referências pouco digeridas e diluídas, sofre de uma falta aguda de canções novas e usa uma super produção para tentar compensar isso.

Durante todos os seus primeiros quatro álbuns, o B&S era um adolescente nos anos 60. Hoje o grupo cresceu e se tornou um jovem adulto no início nos anos 70. Aqui se ouve influência, na guitarra de Stevie Jackson, nos metais e nos backing vocals marcantes, da black music pop do naipe de Sly & The Family Stone, bem como uns teclados a la Wings de Paul McCartney. Existe também um clima de pop setentista na falsa alegria da maioria das faixas, tal qual a felicidade injustificada que ocupou o vácuo surgido após o fim dos ideais do movimento hippie.

E como na ressaca do flower power, quando o ar festivo foi prolongado à força e o conteúdo revolucionário foi substituído pela moda extravagante e cada vez mais carregada de adornos obsoletos, a produção desse disco exagera a dose. O responsável é Trevor Horn, produtor das antigas que possui nomes como Yes, Pet Shop Boys e George Michael no currículo. Foi a primeira vez que a banda não ficou responsável pela produção do próprio disco, e a mão estranha pode ser percebida sem dificuldade. O som está mais cristalino, e com isso perdeu a sua sutileza. A voz de Stuart Murdoch, que volta a dominar o disco (ele canta 11 das 12 faixas), está mais alta do que nunca, se destacando da música - e ele não tem voz para isso. Também os backing vocals de Sarah Martin e Stevie soam desproporcionais, enquanto os instrumentos, que até o álbum anterior iam entrando nas músicas com delicadeza, aqui parecem se atropelar, enchendo completamente todos os espaços das canções.

Outra surpresa frustrante de Dear Catastrophe Waitress é a quantidade pequena de músicas inéditas. Exatamente metade do disco já era conhecida dos fãs há pelo dez meses: cinco das músicas tinham sido tocadas em diferentes programas do DJ inglês John Peel durante o ano de 2002, e rodaram o mundo pela internet, enquanto "Lord Anthony" é ainda mais antiga. Essa é umas das canções demo do Belle and Sebastian, famosas por terem sido gravadas toscamente em algum café em Glasgow nos tempos em que Murdoch tocava sozinho, antes mesmo de começar a formar um grupo, pelos idos de 1995.

Mas como a decadência em geral vem aos poucos, esse álbum ainda conserva algumas qualidades. As letras continuam acima do padrão, com aqueles pequenos toques especiais que Stuart sempre soube fazer bem: uma observação precisa, um detalhe, uma descrição que pega pelo lado que ninguém costuma prestar atenção.

Além disso, algumas melodias foram feitas com capricho. "If She Wants Me", uma das faixas mais contaminadas pelo ritmo black, acaba fazendo dançar - lembra bastante "Big John Shaft" da trilha-sonora Storytelling, do ano passado. "Wrapped Up In Books" é o momento em que o álbum mais se aproxima do velho B&S, remetendo a Tigermilk, mas é "I'm a Cuckoo" que garante os melhores minutos desse CD. Tem um riff de guitarra grudento, uma ótima letra e uma melodia deliciosa. No site oficial da banda, Stuart chegou a escrever que essa era a canção que mais importava no disco, a que mais esperanças ele tinha de tornar perfeita. Ainda que ele não se mostre satisfeito, acabou dando certo: se DCW vale a pena ser ouvido, sem dúvida é em grande parte por culpa dessa faixa.

"Minhas expectativas eram maiores, meu desapontamento foi maior", escreve ainda o líder loiro do Belle and Sebastian no mesmo texto. Mal sabia ele que estava definindo seu novo trabalho. Dear Catastrophe Waitress poderá agradar a alguns velhos fãs e atrair novos ouvintes, mas quem espera da banda uma seqüência lógica do antigo som vai sair triste dessa experiência. A banda não evoluiu no sentido de processar as influências para fortalecer a própria personalidade; ela apenas deixou pedaços de si mesma para trás (esqueça o folk, as baladas, o piano, o cello e os violinos) em troca de novas bandas favoritas para reverenciar. Acabou realizando um álbum fraco, com mais pontos baixos do que altos. É certo que uma banda que, como o Belle and Sebastian, subiu tudo o que podia ter subido, um dia teria que começar a cair. Mas o conhecimento dessa regra não é suficiente para tornar o choque da queda menos doloroso.

 

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