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25.11.03
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It began in Afrika Depoimento concedido a Rodrigo Brandão (Mamelo Sound System/Zulu Nation)
Atenção! Não perca essa oportunidade única de repassar duas décadas de história da música e da cultura negra, numa viagem guiada por ninguém menos que o papa do hip-hop em si: Afrika Bambaataa. Aliste-se já no Exército do Funk e vai! (que o Retorno é de Jedi).
Nessa época, a maioria dos filmes mostrava os negros de uma forma negativa, como em Tarzan, tinha um desenho animado também, Heckle & Jeckle, que tinham lábios grandes de preto, e eram chamados "de cor" ou "crioulos", diziam que a África era o Continente Escuro e nada além disso. Ver esse filme e as lutas na América foram uma grande inspiração, a guerra do Vietnã, e músicos como James Brown, cantando "Say It Loud (I'm Black And I'm Proud!)", e Sly & The Family Stone falando "Stand!", "Everyday People", "You Can Make It If You Try" .
Sly Stone
No disco Stand! ele tava falando pras pessoas , "Don't Call Me Nigger, Whitey" e ele fez os instrumentos "falarem" isso! Ele fez "Sex Machine" antes do James Brown, é uma música de 16 minutos. Ele falava pras pessoas "I am everyday people" e quando ele fez esse álbum foi muito importante pra mim.
Afrika na África
Bom, eu ganhei a viagem mas não fui, porque eu tava ocupado distribuindo flyers das festas Zulu. No ano seguinte, rolou de ir pra Europa e pra África! Lá eu vi que o povo tinha desenvolvido sua própria agricultura, estava controlando seus próprios negócios, suas próprias lojas e na América falavam que os africanos não tavam fazendo nada - era um monte de mentira.
Eu fui também pra Bélgica e outros picos na Europa, Nigéria, pra Lagos, uma cidade enorme e selvagem, com tanta gente e carros, e as pessoas andando no meio dos veículos. Eu vi uma pessoa ser atropelada por um caminhão, vi pretos atacando outros pretos porque eles tinham traços diferentes.
Fela
Com tudo que eu vi na África e na Europa, voltei pra Nação Zulu hip hop, e introduzi o som do Fela Kuti. Esses eram os tempos da disco, e "Shakara" causou uma reação em cadeia, era só tocar esse som que as pessoas começavam a dançar, até seiscentas, mil de uma vez só, durante os 26 minutos da música do Fela. Eu tocava outros sons dele, do disco Expensive Shit. Esses discos começaram virar hinos da rapaziada do hip hop.
Os DJs da Zulu Nation sempre experimentavam usar discos novos, e, se as pessoas gostassem, outros DJs como Kool Herc, Grandmaster Flash e os outros poucos DJs que apareceram depois, começavam a tocar também. Os outros DJs ficavam tocando "Good Times" por 10 minutos, enquanto que nas festas da Zulu Nation a gente trocava de música a cada 2 minutos!
Funk brasa
Eles estavam fazendo hits de canções velhas, e vendendo pra todos esses novos e loucos DJs que tavam aparecendo. Tinha espiões nessa época que tentavam descobrir o que a gente tava tocando. Um dia eu tava numa loja e tinha esses caras me seguindo, eu peguei um disco hare-krishna porque eu curto o som "hare-krishna/ hare-krishna". E os caras: "me dá dois desses". E eu: "eu curto todo tipo de som, mas acho que vocês não vão gostar disso". E eles: "não, você tá querendo enganar a gente, não quer que a gente descole a batida!". Foi assim que a gente começou a trazer música diferente pro povo dançar , sons da África, do Brasil e da América Latina, como salsa e reggae.
Caldeirão hip-hop
Primeiras gravações
Aí o Flash decidiu fazer uma novo grupo, que era o Younger Generation, isso antes do Grandmaster Flash & The Furious Five, e fez um disco chamado We Rap More Mellow , que era uma parada disco também. Disco era o grande som do momento. Eu também não confiei nesse álbum. Mas aí começaram a sair os discos do Spoonie Gee, Treacherous Three, Peter Brown, aí eu pensei: "vou me meter nessa aí também".
Outros caras que estavam em volta nessa época eram Bobby Robinson (que não era parente do Sidney) com a Joy Records e Paul Wembly, que fez a Wembly Records. Esses caras costumavam lançar os discos black nazantiga, como o Jimmy Castor [Bunch]. Fizemos uma faixa com ele chamada "Zulu Nation Throwdown", com Cosmic Force, mas aí a mixagem deixou de um jeito que parecia gravado dentro de um quartinho, as caixas parecendo latas, ficou um disco feio. Aí a gente fez "Soulsonic Force Part 2", que era Miami Bass, com uma banda tocando ao vivo no estúdio. Eu não gostei muito de
como ficou a princípio. Mas quando eu fui ver um show grande do Sugarhill no Ritz, vi o DJ tocando o som muito alto, num sistema de som gigante e as pessoas pirando muito, aí comecei a achar legal.
Punk-hop
Graças ao Fab 5 Freddy [lenda da velha escola que participa de filmes como Wild Style e apresentou o Yo!Raps da MTV por um bom tempo], toquei num
lugar chamado Jefferson, daí pro Danceteria, de lá fui pro Roxy e o resto é história. Quando os punk rockers e o hip hoppers se viram face a face foi estranho, mas aos poucos a música amaciou as coisas. Era muito louco, os punks com os cabelos espetados pra cima e um monte de espetos e a rapaziada do hip hop com as correntes de ouro, e todo o visu que rolava na época. Começamos a colocar as culturas juntas, e começou a rolar uma platéia branca pra mim, além dos pretos e latinos. Ia rolar um evento no Brown River, sul do Bronx, a imprensa ficou falando que ia rolar um guerra racial, e foi uma grande festa de choque cultural. A imprensa teve que engolir suas palavras.
Hip-hype
Planet Rock
Nisso começamos a fazer turnês ao redor do país, e eu pensei: "não quero fazer um show como o dos outros, tá todo mundo num visu tipo o do Temptations, quero uma parada mais selvagem. Tenho que colar com um estilo que agrade os punk rockers e os hip hoppers". Então eu comecei a me vestir numa mistura de punk e funk. A gente chegou a usar roupas que custavam até dois mil dólares e isso ganhou a platéia. Nosso visu era mais louco que o do George Clinton e do Sly. Não tinha ninguém do rap fazendo show nessa época, então a gente tava na concorrência com grupos como The
Bar-Keys e Cameo. Esses caras pegaram pior ainda pelo fato de a gente se apresentar sem uma banda completa como a deles, só usando os sintetizadores, beat-boxers, toca-discos e os MCs.
Outros projetos
Aí eu fiz um grupo chamado Time Zone, e um disco chamado Wild Style. Tinha
também o disco do filme de mesmo nome, mas meu disco tava vendendo mais que a trilha. Quando assisti um filme sobre Nostradamus narrado pelo Orson Welles, O Homem Que Viu O Amanhã, que mostrava o que ia acontecer no futuro, e pensei: "tenho que fazer uma música a respeito disso". Aí eu escrevi "World Destruction" e liguei pro Bill [Laswell] dizendo: "preciso de alguém louco pra cantar comigo" Quando mostrei a letra, ele logo disse: "eu sei quem é a pessoa perfeita: Johnny Rotten!". Esse foi o primeiro disco de rock com hip hop, muito antes do Run DMC e o Aerosmith fazerem "Walk This Way". O Johnny Rotten era um cara muito louco, numa das versões que gravamos ele xingava tanto a Rainha que não pudemos nunca lançar!
Eu queria trabalhar com outros cantores, aí fiz um disco chamado Ecstasy, com a Nina Hagen, isso foi muita loucura! Também trabalhei com o UB-40, a gente fez "Reckless". Isso foi engraçado porque eu costumo fazer um disco em dois dias, e esses caras levam tipo dois ou três meses!
Nessa época eu já tava alertando as pessoas sobre a Nova Ordem Mundial que ia chegar. Eu escrevi uma música chamada "Racial War" pro governo sul-africano, dizendo que se eles não fizessem alguma coisa a respeito do apartheid, os negros iam começar a matar os brancos em outras partes da África, na Europa e na América. Ia rolar uma guerra racial. O disco teve essa faixa retirada na sua edição sul-africana pelo governo, então as pessoas tiveram que descolar esse som no mercado paralelo. Dos muitos discos políticos que eu fiz, muita gente amou e muita gente odiou. Até mandaram me dizer que se eu colasse na África do Sul iam me matar.
Guerrilha funk
Mas eu não deixei isso me parar, me juntei com Steve Van Zandt, da banda do Bruce Springsteen e organizamos o United Artists Against Apartheid. Muita gente ajudou, Kurtis Blow, Miles Davis, Yoko Ono e fizemos campanha "Ain't Gonna Play Sun City", com o vídeo e todo mundo tava espiritualmente comprometido com esse movimento. Aí rolou o "United Hip Hop Artists Against Apartheid", levantamos um monte de grana pra essa causa. Teve um show muito importante no Brixton Academy em Londres, eu fui abençoado no palco pela Winnie Mandela, e a platéia ficou louca!
Eu já fiz todo tipo de paradas: políticas, funky, festeiras, organizei e construí a Zulu Nation, tentando espalhar o conhecimento e manter a paz nas ruas e o equilíbrio no hip hop. É muito trabalho, muito trabalho mesmo, indo de país em país. A Alemanha, por exemplo, no começo era estritamente rock, ninguém sabia nada de rap, então eu tive que tocar em todas as diferentes cidades e vilas, nos cafés pequenos, e na França também, até que as festas pequenas começarem a se tornar festas grandes. A primeira vez que fui ao Japão, depois que terminava cada música as pessoas permaneciam sentadas, batendo palmas e eu falei: "com a gente não vai ser assim não". Começamos a pular e dançar de um lado pro outro até eles pegarem o espírito da coisa. Na Itália me falaram: "você não pode pular na platéia", e quando tocamos "Reckless" - essa música era enorme lá - não teve jeito, isso é o
funk! A cultura foi sendo disseminada aos poucos nos países da Europa.
Brown
Treta
A Zulu Nation então teve que organizar uma reunião, veio todo mundo, gente de todas as partes da cidade. A reunião demorou mais de seis horas, mas a Suprema Força Criadora baixou e bateu forte, todo mundo se ligou que era tudo bobagem. Aí a gente fez um piquete na frente da rádio, não deixávamos ninguém entrar nem sair e desse jeito a gente obrigou a radialista a pedir desculpas publicamente pra todo mundo, e esclarecer que a treta só rolou por causa dela.
Hip-hop real?
Eu não tô falando mal dos discos de rap, eu amo discos de rap, mas estou cansado das pessoas falando que só isso é hip hop. Blackbyrds era hip hop, James Brown é hip hop, e até os Rolling Stones, que são uma banda de rock, se você tocar os breakbeats das músicas deles é hip hop, Bob James é jazz, mas os breakbeats de "Mardi Grass" são hip hop, Gerson King Combo é funk brasileiro, mas se você tocar os breaks é hip hop.
Get-a-funky!
Aí Nova York começou a rolar de novo, e tinha muitos raps com mensagens políticas saindo, como o X-Clan, Native Tongues, Queen Latifah, Jungle Brothers, Public Enemy, que é o grupo com os melhores breakbeats na história do rap, com muito barulho por cima. Imagens de Malcom X e Elijah Muhammed aparecendo nos vídeos, as pessoas começaram a ficar com medo, então os meios de comunicação começaram a bombar muito o gangsta, e a coisa mudou totalmente. Existe muito segredo por trás da indústria musical, muita manipulação, com gente pagando jabá e esse tipo de coisas.
Clonagem |
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