25.11.03

It began in Afrika

Depoimento concedido a Rodrigo Brandão (Mamelo Sound System/Zulu Nation)

Atenção! Não perca essa oportunidade única de repassar duas décadas de história da música e da cultura negra, numa viagem guiada por ninguém menos que o papa do hip-hop em si: Afrika Bambaataa. Aliste-se já no Exército do Funk e vai! (que o Retorno é de Jedi).

Raiz Zulu
Em 1975, eu fui pra África pela primeira vez, através da Unicef. Eu tinha o conceito da Zulu Nation antes de ir pra África, por causa do filme Zulu, com Michael Caine - esse filme me inspirou, assim como os ensinamentos do honorável professor Elijah Muhammed, e também o que tava rolando no movimento de direitos civis, com Malcom X, Martin Luther King, os Panteras Negras, o ministro Farrakhan. Eu vi um paralelo da situação dos negros nos EUA com o que acontecia no filme, em que os negros lutavam contra a opressão dos ingleses.

Nessa época, a maioria dos filmes mostrava os negros de uma forma negativa, como em Tarzan, tinha um desenho animado também, Heckle & Jeckle, que tinham lábios grandes de preto, e eram chamados "de cor" ou "crioulos", diziam que a África era o Continente Escuro e nada além disso. Ver esse filme e as lutas na América foram uma grande inspiração, a guerra do Vietnã, e músicos como James Brown, cantando "Say It Loud (I'm Black And I'm Proud!)", e Sly & The Family Stone falando "Stand!", "Everyday People", "You Can Make It If You Try" .

Sly Stone
Eu dou um respeito real pro Sly porque ele quebrou as barreiras entre branco e preto através do funk black com o rock. Jimi Hendrix fez isso também, mas ele ficou mais conhecido no mercado branco, ele tocou com muita gente do soul no começo, mas quando ele começou a tocar blues com a sua guitarra, foram os brancos que abraçaram. Com a Family Stone foi diferente: brancos e os pretos abraçaram Sly. Ele mudou toda a música negra, existe a black music antes e depois do Sly - toda a indústria, a Motown, por exemplo, começou a mudar pro funk psicodélico e pro rock, todo mundo começou a usar as roupas loucas, todo mundo estava fazendo seus instrumentos "falarem" depois do Sly.

No disco Stand! ele tava falando pras pessoas , "Don't Call Me Nigger, Whitey" e ele fez os instrumentos "falarem" isso! Ele fez "Sex Machine" antes do James Brown, é uma música de 16 minutos. Ele falava pras pessoas "I am everyday people" e quando ele fez esse álbum foi muito importante pra mim.

Afrika na África
Aí, em 74, eu ganhei uma viagem pra Índia. Nessa época a gente já fazia as festas Zulu, foi anos antes da gente ter um nome pra cultura hip hop, a gente chamava as festas de "BoingOingOing" ou "Jitterbug", pegando essas expressões da rapaziada que fazia scat [improvisos vocais onomatopéicos criados pelos jazzistas] nos anos 40.

Bom, eu ganhei a viagem mas não fui, porque eu tava ocupado distribuindo flyers das festas Zulu. No ano seguinte, rolou de ir pra Europa e pra África! Lá eu vi que o povo tinha desenvolvido sua própria agricultura, estava controlando seus próprios negócios, suas próprias lojas e na América falavam que os africanos não tavam fazendo nada - era um monte de mentira.

Eu fui também pra Bélgica e outros picos na Europa, Nigéria, pra Lagos, uma cidade enorme e selvagem, com tanta gente e carros, e as pessoas andando no meio dos veículos. Eu vi uma pessoa ser atropelada por um caminhão, vi pretos atacando outros pretos porque eles tinham traços diferentes.

Fela
Eu tive a benção de ouvir - na grande cidade de Lagos - os sons de Fela Ransome Kuti, e pensei: "soa como o James Brown da África!". Eu toquei muito Fela, principalmente a faixa "Shakara". Depois fui pro Congo, que era bem mais pacífico, porque era controlado pelos muçulmanos. Eles falavam que os negros da África não gostavam dos que nasceram nos EUA, o que é uma puta besteira. O tempo todo que eu tava lá me perguntavam: "E o Muhammed Ali? E o Muhammed Ali?".

Com tudo que eu vi na África e na Europa, voltei pra Nação Zulu hip hop, e introduzi o som do Fela Kuti. Esses eram os tempos da disco, e "Shakara" causou uma reação em cadeia, era só tocar esse som que as pessoas começavam a dançar, até seiscentas, mil de uma vez só, durante os 26 minutos da música do Fela. Eu tocava outros sons dele, do disco Expensive Shit. Esses discos começaram virar hinos da rapaziada do hip hop.

Os DJs da Zulu Nation sempre experimentavam usar discos novos, e, se as pessoas gostassem, outros DJs como Kool Herc, Grandmaster Flash e os outros poucos DJs que apareceram depois, começavam a tocar também. Os outros DJs ficavam tocando "Good Times" por 10 minutos, enquanto que nas festas da Zulu Nation a gente trocava de música a cada 2 minutos!

Funk brasa
Eu ficava fuçando nos sebos pra descolar novas batidas de todos os tipos, e foi assim que tive meu primeiro contato com o groove brasileiro. Era uma capa com um negão no visu do funk. Era o Gerson King Combo, e as pessoas adoraram nas pistas, até que o disco virou um hino do hip hop, um clássico dos breakbeats. Eu encontrei outro e foi a mesma coisa, aí fiquei procurando e nunca encontrei mais nenhum. Eu procurava sons internacionais. Tinha essa loja chamada Downstairs Records, os DJs iam lá procurar as batidas mais loucas, e um disco que podia custar 99 centavos em outro lugar, lá era 40, 50, 100 dólares!

Eles estavam fazendo hits de canções velhas, e vendendo pra todos esses novos e loucos DJs que tavam aparecendo. Tinha espiões nessa época que tentavam descobrir o que a gente tava tocando. Um dia eu tava numa loja e tinha esses caras me seguindo, eu peguei um disco hare-krishna porque eu curto o som "hare-krishna/ hare-krishna". E os caras: "me dá dois desses". E eu: "eu curto todo tipo de som, mas acho que vocês não vão gostar disso". E eles: "não, você tá querendo enganar a gente, não quer que a gente descole a batida!". Foi assim que a gente começou a trazer música diferente pro povo dançar , sons da África, do Brasil e da América Latina, como salsa e reggae.

Caldeirão hip-hop
Nessa época todo mundo no hip hop começou a pirar: Grandmaster Flash apareceu com os cortes rápidos [quick cuttin'] e mixagens, assim como DXT apareceu com seus sons de scratch e o Kool Herc com seu enorme sistema de som que bombava muito - a cultura começou daí. Tinha um pouco de violência, mas a gente sempre tentou resolver os problemas através da Universal Zulu Nation, e colocamos os quatro elementos da cultura juntos, os b-boys e b-girls, os rappers, os DJs e MCs, os grafiteiros. Lá por volta do fim dos 70, eu tava tentando equilibrar um pouco a coisa toda, pra unificar o povo, e resolvi adicionar um novo elemento: a sabedoria. Mais tarde, nos 80, chegamos ao que seria nosso guia pros 90 e pro próximo milênio, que é: sabedoria, cultura e aceitação.

Primeiras gravações
As gravações começaram no ano de 1979, o primeiro disco que saiu foi de um grupo chamado King Dirt - um grupo filhote da Fatback Band. Eles lançaram um disco chamado King Dirt & The Personality Jock, era uma parada mais no estilo disco-rap, então não bateu muito no nosso público. Foi aí que apareceu um grupo de Nova Jersey chamado Sugarhill Gang, [apadrinhados pelo selo Sugarhill, propriedade] de Sidney Robinson, com "Rapper's Delight". Nessa mesma época veio o Kurtis Blow com "Christmas Rap" e muitos dos pioneiros não botavam uma fé nesses sons - "quem são esses caras de Nova Jersey roubando nosso som?!?!!" - e começaram a zoar as festas e coisas assim.

Aí o Flash decidiu fazer uma novo grupo, que era o Younger Generation, isso antes do Grandmaster Flash & The Furious Five, e fez um disco chamado We Rap More Mellow , que era uma parada disco também. Disco era o grande som do momento. Eu também não confiei nesse álbum. Mas aí começaram a sair os discos do Spoonie Gee, Treacherous Three, Peter Brown, aí eu pensei: "vou me meter nessa aí também".

Outros caras que estavam em volta nessa época eram Bobby Robinson (que não era parente do Sidney) com a Joy Records e Paul Wembly, que fez a Wembly Records. Esses caras costumavam lançar os discos black nazantiga, como o Jimmy Castor [Bunch]. Fizemos uma faixa com ele chamada "Zulu Nation Throwdown", com Cosmic Force, mas aí a mixagem deixou de um jeito que parecia gravado dentro de um quartinho, as caixas parecendo latas, ficou um disco feio. Aí a gente fez "Soulsonic Force Part 2", que era Miami Bass, com uma banda tocando ao vivo no estúdio. Eu não gostei muito de como ficou a princípio. Mas quando eu fui ver um show grande do Sugarhill no Ritz, vi o DJ tocando o som muito alto, num sistema de som gigante e as pessoas pirando muito, aí comecei a achar legal.

Punk-hop
Tavam rolando as festas ao ar livre no Bronx, alguém contou isso pro Malcolm McLaren e ele colou. Noutra mão, foi Todd Sullivan que apareceu, Arthur Baker também. Todos queriam saber sobre o negão que tava tocando discos de rock pra uma platéia de pretos e latinos no Bronx, então me chamaram pra fazer parte de uma banca de rock. Isso era nos 80. Eu comecei a tocar esses discos obscuros de punk rock, então todos os punk rockers começaram a colar pra me ver no Bronx, me convidaram pra tocar no centro.

Graças ao Fab 5 Freddy [lenda da velha escola que participa de filmes como Wild Style e apresentou o Yo!Raps da MTV por um bom tempo], toquei num lugar chamado Jefferson, daí pro Danceteria, de lá fui pro Roxy e o resto é história. Quando os punk rockers e o hip hoppers se viram face a face foi estranho, mas aos poucos a música amaciou as coisas. Era muito louco, os punks com os cabelos espetados pra cima e um monte de espetos e a rapaziada do hip hop com as correntes de ouro, e todo o visu que rolava na época. Começamos a colocar as culturas juntas, e começou a rolar uma platéia branca pra mim, além dos pretos e latinos. Ia rolar um evento no Brown River, sul do Bronx, a imprensa ficou falando que ia rolar um guerra racial, e foi uma grande festa de choque cultural. A imprensa teve que engolir suas palavras.

Hip-hype
Na época do Roxy todo mundo que era estrela colou no pico, de Mick Jagger aos atores de novela famosos, e todo mundo se acabava na pista ao lado das pessoas normais, sem problema nenhum. Aí rolou a brecha de fazer mais discos, e fiz Jazzy Sensation. Eu tinha um outro disco saindo, com o grupo Cotton Candy, que saiu pela Tommy Boy Records. Eu tinha um conceito novo, porque eu tava tocando um monte de technopop no meio dos meus sets, tipo Gary Numan, Yellow Magic Orchestra, Hugo Montenegro, e a trilha sonora de Halloween que, toda vez que eu tocava, os manos achavam que eu tava ficando louco! Eu tocava também uns comerciais doidos no meio dos sons. Fiquei pensando em como colocar essas paradas em um som que ia chamar electrofunk.

Planet Rock
Pensei em usar o Kraftwerk, peguei também outro disco que as pessoas do mercado dos breakbeats conheciam, I Like It, do BT Express. Tinha este tecladista que colou na minha casa, John Wilk, ele tocava sintetizadores do jeito mais funky que eu já vi, e o resto é história: ele retocou a parada do Kraftwerk e assim nasceu Planet Rock. O disco saiu e os punk rockers piraram, a rapaziada black pirou - foi o hip hop com o maior BPM que já tinha rolado, e as rádios começaram a tocar bastante também.

Nisso começamos a fazer turnês ao redor do país, e eu pensei: "não quero fazer um show como o dos outros, tá todo mundo num visu tipo o do Temptations, quero uma parada mais selvagem. Tenho que colar com um estilo que agrade os punk rockers e os hip hoppers". Então eu comecei a me vestir numa mistura de punk e funk. A gente chegou a usar roupas que custavam até dois mil dólares e isso ganhou a platéia. Nosso visu era mais louco que o do George Clinton e do Sly. Não tinha ninguém do rap fazendo show nessa época, então a gente tava na concorrência com grupos como The Bar-Keys e Cameo. Esses caras pegaram pior ainda pelo fato de a gente se apresentar sem uma banda completa como a deles, só usando os sintetizadores, beat-boxers, toca-discos e os MCs.

Outros projetos
Quando começaram a sair os discos de electro, os músicos ficaram muito putos, falavam: "isso não é música", porque eles ficaram sem trabalho. Muita gente pegou mal, ficou nos odiando, mas muita gente adorou o novo som, então eu pensei que tinha de fazer uma parada que colocasse o electro e os instrumentos juntos. Então eu formei outro grupo chamado Shango, que era orientado pro funk, misturando naipes de metais com sintetizadores. Comecei a trabalhar também pra outro selo, chamado Celluloid, mas a Tommy Boy não gostou, e os selos começaram a brigar entre si!

Aí eu fiz um grupo chamado Time Zone, e um disco chamado Wild Style. Tinha também o disco do filme de mesmo nome, mas meu disco tava vendendo mais que a trilha. Quando assisti um filme sobre Nostradamus narrado pelo Orson Welles, O Homem Que Viu O Amanhã, que mostrava o que ia acontecer no futuro, e pensei: "tenho que fazer uma música a respeito disso". Aí eu escrevi "World Destruction" e liguei pro Bill [Laswell] dizendo: "preciso de alguém louco pra cantar comigo" Quando mostrei a letra, ele logo disse: "eu sei quem é a pessoa perfeita: Johnny Rotten!". Esse foi o primeiro disco de rock com hip hop, muito antes do Run DMC e o Aerosmith fazerem "Walk This Way". O Johnny Rotten era um cara muito louco, numa das versões que gravamos ele xingava tanto a Rainha que não pudemos nunca lançar!

Eu queria trabalhar com outros cantores, aí fiz um disco chamado Ecstasy, com a Nina Hagen, isso foi muita loucura! Também trabalhei com o UB-40, a gente fez "Reckless". Isso foi engraçado porque eu costumo fazer um disco em dois dias, e esses caras levam tipo dois ou três meses!

Nessa época eu já tava alertando as pessoas sobre a Nova Ordem Mundial que ia chegar. Eu escrevi uma música chamada "Racial War" pro governo sul-africano, dizendo que se eles não fizessem alguma coisa a respeito do apartheid, os negros iam começar a matar os brancos em outras partes da África, na Europa e na América. Ia rolar uma guerra racial. O disco teve essa faixa retirada na sua edição sul-africana pelo governo, então as pessoas tiveram que descolar esse som no mercado paralelo. Dos muitos discos políticos que eu fiz, muita gente amou e muita gente odiou. Até mandaram me dizer que se eu colasse na África do Sul iam me matar.

Guerrilha funk
Quem também teve muito problema foi Ice-T, com Cop Killer, foi até bicado da sua gravadora. Ele tinha uma limusine branca, e uma vez na saída do Roxy emprestou pra galera do Cosmic Force voltar pra casa, e ninguém sabe o que aconteceu direito até hoje, mas de repente, no meio da via expressa, uma outra limusine exatamente igual colou e começou a atirar de metralhadora no carro. Por sorte ninguém morreu, mas um dos caras chegou a levar uma bala na coxa. Devia ser tudo pro Ice-T, por causa do Cop Killer - foi aí que eu vi a realidade da parada.

Mas eu não deixei isso me parar, me juntei com Steve Van Zandt, da banda do Bruce Springsteen e organizamos o United Artists Against Apartheid. Muita gente ajudou, Kurtis Blow, Miles Davis, Yoko Ono e fizemos campanha "Ain't Gonna Play Sun City", com o vídeo e todo mundo tava espiritualmente comprometido com esse movimento. Aí rolou o "United Hip Hop Artists Against Apartheid", levantamos um monte de grana pra essa causa. Teve um show muito importante no Brixton Academy em Londres, eu fui abençoado no palco pela Winnie Mandela, e a platéia ficou louca!

Eu já fiz todo tipo de paradas: políticas, funky, festeiras, organizei e construí a Zulu Nation, tentando espalhar o conhecimento e manter a paz nas ruas e o equilíbrio no hip hop. É muito trabalho, muito trabalho mesmo, indo de país em país. A Alemanha, por exemplo, no começo era estritamente rock, ninguém sabia nada de rap, então eu tive que tocar em todas as diferentes cidades e vilas, nos cafés pequenos, e na França também, até que as festas pequenas começarem a se tornar festas grandes. A primeira vez que fui ao Japão, depois que terminava cada música as pessoas permaneciam sentadas, batendo palmas e eu falei: "com a gente não vai ser assim não". Começamos a pular e dançar de um lado pro outro até eles pegarem o espírito da coisa. Na Itália me falaram: "você não pode pular na platéia", e quando tocamos "Reckless" - essa música era enorme lá - não teve jeito, isso é o funk! A cultura foi sendo disseminada aos poucos nos países da Europa.

Brown
Ah, James Brown, The Godfather of Soul! Eu tinha feito "World Destruction", e com "Unity" eu queria fazer uma gravação dizendo pras pessoas que elas tinham que se unificar, primeiro consigo mesmas, depois com os outros ao redor. Quando eu chamei James pra gravar, muita gente não levou fé, ficaram dizendo que ele não tava mais fazendo um som porque ele tinha acabado de sair da cadeia, que não ia ser um hit. Ele me ensinou uma coisa muito importante: na letra eu começava me lançando de Anti-Cristo, e ele me falou que se eu fizesse isso ia espantar muita gente, todo mundo que curte o Buda, Jesus, todos os outros gurus. Foi muito divertido fazer esse disco, demorou mais ou menos uns três dias pra fazer o som e o vídeo. Muita gente acha que é só curtição fazer um rap, e talvez num primeiro momento, quando você tá em casa gravando, possa ser assim. Mas a partir do momento que você tem que sair pra fazer turnês, indo de um lugar pra outro, é muito cansativo e trabalhoso.

Treta
Já rolaram muitas guerras dentro do rap. LL Cool J e Ice-T, a gente [Zulu Nation] teve que acalmar os ânimos. Num show do Run DMC, o pessoal do Wrex In Effect pegou o Q-Tip do A Tribe Called Quest. O que rolou foi que tinha uma mulher de uma estação de rádio, eu não vou nem dizer o nome dela, que ficou jogando lenha na fogueira, e depois que rolou a pancadaria ela saiu dizendo: "cuidado Wrex In Effects, a Zulu Nation quer pegar vocês", e isso gerou muita violência na cidade.

A Zulu Nation então teve que organizar uma reunião, veio todo mundo, gente de todas as partes da cidade. A reunião demorou mais de seis horas, mas a Suprema Força Criadora baixou e bateu forte, todo mundo se ligou que era tudo bobagem. Aí a gente fez um piquete na frente da rádio, não deixávamos ninguém entrar nem sair e desse jeito a gente obrigou a radialista a pedir desculpas publicamente pra todo mundo, e esclarecer que a treta só rolou por causa dela.

Hip-hop real?
Quando as coisas chegam no ponto de nego dizer "isso é que é hip hop real, e essa outra parada não é" é muito ruim, isso é um fruto do circuito do rap, e hip hop é mais que isso. Acho errado o que KRS fez atacando o PM Dawn, eu amo a música dos dois e é tudo hip hop, seja comercial ou não. É o mesmo caso do MC Hammer quando fez "U Cant' Touch This"- muita gente gostou, não só os pretos, mas muita gente começou a odiar ele. Ele nunca se lançou como o melhor rapper, ele é um ótimo entertainer e Hammer é a única pessoa na história do hip hop que encheu um estádio sozinho - nem o Run DMC conseguia isso, tinha que ter mais uns 10 grupos junto no dia pra ele lotar um lugar tão grande. Ele ajudou o hip hop muito mais que a maioria das pessoas que ficaram apavorando ele. Foi nessa época que surgiram muitos grupos underground, mas o que acontece quando um grupo underground como o Wu-Tang Clan vende muito e vira comercial? O som continuou igual! Eu sou uma pessoa que reconhece todos os tipos de hip hop, não só uma vertente ou outra. Essa parada de hip hop real é uma merda! As estações de rádio especializadas só tocam discos de rap, não tocam electro-funk, Miami Bass, soul e os discos de breakbeat ou de DJs, cheios de scratches.

Eu não tô falando mal dos discos de rap, eu amo discos de rap, mas estou cansado das pessoas falando que só isso é hip hop. Blackbyrds era hip hop, James Brown é hip hop, e até os Rolling Stones, que são uma banda de rock, se você tocar os breakbeats das músicas deles é hip hop, Bob James é jazz, mas os breakbeats de "Mardi Grass" são hip hop, Gerson King Combo é funk brasileiro, mas se você tocar os breaks é hip hop.

Get-a-funky!
Tentaram matar o hip hop, bombando a house, aí chegou uma época que todos os grupos tiveram que mudar e começar a fazer hip house, pra poder sobreviver. Isso fez os grupos se afastarem do funk. Foi quando apareceram dois grupos barra-pesada, o Getto Boys do Texas e o N.W.A., e as bases dessa rapaziada eram funk de verdade, apesar das letras serem sobre assassinatos e coisas assim. Eu fui a primeira pessoa a tocar "Straight Outta Compton" em NY, todo mundo falava: "porque você tá tocando essa merda?", e eu respondia: "porque é funky". Foi muito bom quando eles disseram "Fuck Tha Police" porque muita gente tinha medo de dizer isso, e bateu muito.

Aí Nova York começou a rolar de novo, e tinha muitos raps com mensagens políticas saindo, como o X-Clan, Native Tongues, Queen Latifah, Jungle Brothers, Public Enemy, que é o grupo com os melhores breakbeats na história do rap, com muito barulho por cima. Imagens de Malcom X e Elijah Muhammed aparecendo nos vídeos, as pessoas começaram a ficar com medo, então os meios de comunicação começaram a bombar muito o gangsta, e a coisa mudou totalmente. Existe muito segredo por trás da indústria musical, muita manipulação, com gente pagando jabá e esse tipo de coisas.

Clonagem
Noutra época, os DJs quase desapareceram - todos os rappers tavam cantando com DATs ou cd players. Queriam transformar a cultura hip hop em apenas rap. As pessoas de outros países têm que parar com essa merda de copiar os grupos americanos, o lance é você fazer o seu rap do seu jeito, com a sua língua nativa.

 

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