Dezembro / 2002

O que é que as baianas têm?

nancyta e os grazzers

Por Katia Abreu


Uma mulher no palco, dança feito uma louca. Não pára de pular um segundo, quase sempre rodando seus cabelos trançados. E quando conversa com o público, não consegue conter a simpatia e o sotaque baiano. Não. Não se trata de Daniela Mercury, nem de Ivete Sangalo ou semelhantes "divas" (?) da Axé Music. Falamos de uma moça "insana" que lidera uma ótima e emergente banda do cenário underground: nancyta e os grazzers.

Esqueça dancinhas irritantes, letras péssimas e bailarinos ridículos. Nancyta e Os Grazzers é rock. Mesclam à boas melodias e distorções, muito hard-core e metal. Um som pesado, muito pesado, capaz de agradar headbangers (ok, das "facções" menos conservadoras). Capaz também de "ensurdecer" o público durante apresentações em lugares pequenos e fechados, como no show de lançamento do primeiro álbum da banda, Nancyta e os Grazzers, dia 28 de novembro, na casa noturna paulistana Funhouse.

Nancyta, ex-vocalista da CraC! (importante grupo alternativo baiano dos anos 90) e sua banda esbanjam energia. O registro em estúdio dava boas pistas disso. É daqueles que ouvimos ouvir no volume máximo, com o prazer de adolescente rebeldes que querem incomodar os pais. O peso da bateria de Rex, o baixo bem marcado de CH e a sensacional guitarra de andré t (que também assina a produção do disco) e, claro, a voz um tanto rouca de Nancyta, ao vivo não decepcionam. Conseguem ser ainda mais eletrizantes. Nancyta interpreta suas canções, olhando nos olhos da platéia, fazendo caras e bocas. Na insólita "Coqueiro", canta como se estivesse conversando de fato com uma planta imaginária: "esse coqueiro quer falar comigo, irmão".

O metal de "I Don't Know" (com letra em inglês, português e espanhol - para que amarras lingüísticas, não é mesmo?) e o hard-core surreal de "Minhoca Azul de Gude" (em que Nancyta fala de uma "minhoca" que quer ser "astro pop" e que as "revistas de fofoca são mais legais que os intelectuais") mantêm o povo pulando. E mesmo "Possessed Me", que supostamente seria uma "balada", ao vivo é uma pauleira só. Na apresentação, tocaram ainda uma cover de outro roqueiro baiano (um dos fundadores do rock brasileiro, diga-se): "Fuck You", de Raul Seixas.

A sonoridade de nancyta e os grazzers, se aproxima muito de Rage Against The Machine, especialmente em "Apheganistix", que prima ainda por uma percussão um tanto "regionalizada". "Negra Melodia" é uma balada (tal "Possessed Me"), com linha melódica suave, que flerta com a MPB. Em "Minimoney" e "Remember" bits eletrônicos e scratches de hip hop recobrem um rock bastante cru, enquanto em "Capas de Celular" são o reggae e o funk quem dão o tom. Sem falar nas distorções a la Sonic Youth, presentes na maioria das canções, graças à guitarra de andré t.

Bad girl

Capa do disco Garotas Boas...

O guitarrista andré t acompanha (e produz) outra baiana "arretada". Rebeca Matta ganhou o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) em 99, por seu disco Tantas Coisas, lançado um ano antes. Nesse registro, ela oscila entre o pop e a MPB com arranjos eletrônicos. Sempre com letras inteligentes, femininas (sem ser feministas) e essencialmente sensuais. Na faixa título do álbum, ela canta: "São tantas coisas que eu procuro ver/ nos teus olhos de moleque/ nos teus cabelos mau cortados/ tua barba/ os meus desejos de mulher/ são os meus anseios/ teus longos dedos nos meus seios".

Esse primeiro trabalho de Rebeca revela um caldeirão sonoro bastante diversificado. Além das composições próprias, algumas versões bastante interessantes. A "Barracão", clássico do cancioneiro popular, composto por Luiz Antônio e Odemar Magalhães, em 1953, pouco acrescenta. "Nada Será Como Dantes", de Milton Nascimento vira uma boa mistura de rock com trip-hop. Em "Mar", do grupo português Madredeus e "O Meu Amor", de Chico Buarque, arranjos eletrônicos soturnos emolduram a poesia quase declamada pela cantora. Tom Zé, influência declarada de Rebeca, é homenageado em "O Amor é Velho - Menina", que ganha vocais líricos e um certo tom sacro, entremeado a guitarras e a levada tradicional das composições de Tom. Mas nada, nada se compara a bizarrice de ver a medíocre "Como Uma Onda No Mar", de Lulu Santos, declama, ou melhor, sussurrada com carga dramática por Rebeca, sobre bits eletrônicos arranjados por andré t.

Garotas Boas Vão Pro Céu, Garotas Más Vão Para Qualquer Lugar, segundo registro da cantora, lançado em 2000, mostra um lado mais agressivo de Rebeca: mais guitarras, mais rock (embora ainda haja MPB em algumas canções, como nas versões de "Ronco Da Cuíca", de Adir Blanc e João Bosco, e "Na Cadência Do Samba", de Ataulfo Alves). A faixa que dá nome ao álbum poderia muito bem estar tocando em qualquer rádio dita rock deste Brasil, um refrão (e toda a letra, na verdade) que "pega" o ouvinte logo nas primeiras audições. Ou a calminha "Um Beijo No Escuro", na mesma linha (com a ressalva de ser mais bem elaborada), digamos, "meiga" que alçou outra banda baiana, Penélope, ao grande público.

Aliás, Garotas... é o tipo de disco que tem tudo para dar certo: excelente produção (do mesmo andré t), melodias bem pop (no sentido bom da palavra), boas doses guitarras e distorções, boas letras... Pop/rock adulto, sabe? Pois é. Uma boa resposta para a total acefalia que domina a produção pop nacional hoje em dia.

 

Também nesta edição:

Weird War e Comet Gain são os novos representantes do rock como força interventiva

Artistas como Stela Campos podem salvar a MPB do elitismo e da pretensão

Caixa com oito DVDs traz de volta à vida Frankenstein e outros monstros

Com irreverência e energia, Libertines são a resposta britânica aos Strokes

Eletrônica é apenas mais um atrativo nas belas canções de Moisés Santana

Baterista do Interpol comenta a cena nova-iorquina e disco de estréia da banda

Dias De Luta: ascensão e queda da geração roqueira dos anos 80

Perda de identidade ronda O Homem Duplicado, novo livro de José Saramago

Soderbergh volta às telas com Full Frontal, uma piada para Hollywood

Rouge reacende polêmica sobre mensagens satânicas ocultas em músicas

Aos 10 anos, Festival Mix Brasil se firma como um dos mais importantes do gênero

Os pouco exibidos "homofilmes" mostram outra face de Andy Warhol