26.12.03

Sarcasmo niilista

Por Katia Abreu

O vocalista Bruno Nogueira esperneia em show
"O Abimonismo está ligado à morte do nosso antigo trompetista, o Plínio. Foi ele quem juntou a banda. Estava todo mundo meio brigado, ele nos chamou para um ensaio e foi ótimo. Quando saímos do ensaio, havia um mendigo na porta do estúdio e o Plínio, sempre muito bom, deu uma ajuda pro cara e foi embora de carro, um pouco perturbado porque nós o tínhamos expulsado da banda naquele dia. Aí, ele bateu o carro e morreu. A gente pensou em parar tudo, em não tocar mais. Mas um dia a gente voltou naquele estúdio e o mesmo mendigo estava lá na porta. Quando ele nos viu, começou a gritar: 'o Plínio manda dizer que vocês são abimonistas'". Bruno Torturra Nogueira, o vocalista dos Abimonistas, ensaia a explicação em tom sério, mas nem ele nem seus comparsas - Ângelo Kanaãn (bateria), Felipe Nelson Crocco (guitarra e contrabaixo), Guilherme Garbato (teclados e saxofone), Luiz Miranda (guitarra e baixo) - conseguem segurar o riso. "Ok, essa é a explicação que vamos usar quando ficarmos famosos", confessam.

Na verdade, o nome Abimonismo surgiu sem qualquer significado especial das mentes doentias de Bruno e Guilherme em meados de 1998, quando começaram a formar a banda. Eles explicam que pensaram em uma série de nomes, a maioria sem sentido, como Luscofusco, até que Guilherme veio com essa: "um dia vão falar que isso era Abimonismo, a estética abimonista". "E nem tinha esse papo de Tribalismo na época", brinca Ângelo. "A gente acabou usando o nome, porque ele dava uma sensação de estranhamento e, de certa forma, era confortável, cômodo, porque a gente podia usar para definir qualquer coisa que a gente fizesse", completa Bruno.

Um termo nonsense, portanto, fruto apenas dos delírios desses rapazes. Mas, depois de um tempo, com o devido distanciamento histórico, eles finalmente conseguiram captar algo na tal "estética abimonista" e foram capazes de "elaborar" um conceito que a explique. Bruno revela: "Nada lá muito teórico, mas é uma implacável fé na descrença, tão descrente que não se leva a sério também. Daí nossos temas e discursos, cheios de desgracinhas, famílias disfuncionais, vidas vazias cheias de si e outras tenras barbaridades". Sobre qualquer eventual vinculação do Abimonismo com crenças religiosas, eles avisam que só acreditam em "Fudeus, o deus da pegadinha, filho de Deus com João Kleber".

Os cinco estudaram juntos e tiveram uma banda, nas épocas de colégio, Os Chupins, na qual tocavam rock antigo, tipo Chuck Berry, Rolling Stones e tinham umas poucas músicas próprias, cantadas em inglês. "A banda acabou por uma série de divergências entre a gente. Aí, cada um foi para um lado, começou a fazer coisas diferentes, faculdade. Eu comecei a escrever umas letras. Conversei o Guilherme, que estava fazendo uns quadros e uns arranjos. Depois, o Felipe estava com umas músicas legais também. Achamos que estávamos fazendo coisas que tinham a ver umas com as outras e montamos a banda", lembra o vocalista. De início, a formação ainda não incluía Luiz, que entrou dois anos mais tarde, e Ângelo, que veio quando a banda já estava para gravar o disco, no começo de 2001.

Só O Abimonismo Salva! levou um ano e meio para vir a público (pelo selo Reco-Head). Gravado, produzido e masterizado pelos próprios Abimonistas, no recém montado estúdio EGL, de Guilherme, o álbum traz 17 músicas, incluindo três faixas captadas em MD em ensaios da banda, sendo uma delas (a que abre o disco) um improviso sobre o "Hino Nacional", tocado com narizes (?!), entregando de cara a despretensão da banda. A demora para a finalização de seu début se deve ao fato de eles não estarem familiarizados com o maquinário do estúdio. "Foi complicado achar o som que a gente queria com um equipamento que não conhecíamos. Tivemos que gravar várias vezes algumas coisas. Depois teve a parte de mixagem. Tudo feito pela gente. E a gente não entregou o material pro selo até que ele estivesse exatamente como a gente queria", conta Guilherme.

O resultado é um disco em que pairam influências especialmente dos anos 60 e 70. Psicodélico, digo. Eles retrucam: "O nosso som é bem heterogêneo. A gente não pensa em influências quando compõe", diz Bruno. "Meio que junta o que todo mundo escuta e, se você for levar isso a fundo, vai ter até música erudita no meio", complementa Guilherme. Têm alguma razão. De fato, há em Só O Abimonismo Salva! toques de jazz, de soul, de rock clássico, de blues e do que mais quisermos enxergar ali. Mas o clima geral - muito por culpa dos teclados e de alguns timbres de guitarra - é psicodélico. Quer bons exemplos? Ouça "Varas E Cruzes" (moog dando o tom na música inteira) e "Obstinação Em Suas Veias" (com direito a guitarras wah-wah). "Tem a ver. Mas hoje parece que associam mais psicodelia com algo visual, e a gente não se liga muito nisso", pontua Bruno, se referindo aos terninhos bem cortados das bandas ditas de influência sessentistas/setentista em oposição à desatenção dos Abimonistas quanto aos figurinos.

Se formos mais longe na definição de psicodelia, associando-a a um certo surrealismo sonoro (e não só), a fluidez das canções, não há porque não empregar o rótulo. Ainda mais com uma capa tão bem cuidada e tão absurda como a que apresenta este álbum. Uma família, com cabeças de bigornas, desenhadas por Guilherme. Bigornas? "Vem da banalização da figura da bigorna, algo pesado, mas vazio de significado, que sempre cai na cabeça de alguém nos desenhos animados", teoriza o tecladista.

A família é tema de algumas canções. Mas, obviamente, não retratam a família feliz das propagandas de margarina. "Furo Na Testa" narra a história de um homem que se cansa de sua vidinha e um dia resolve que não vai trabalhar nem voltar para a casa da mulher; "Varas e Cruzes" fala de um garoto que foi levado pelos pais para o colégio interno onde foi abusado pelas freiras; "Jonas" é sobre um rapaz que foi abandonado pelo pai e passou a viver numa caverna. O sarcasmo não pára por aí. "A gente faz letras pesadas, falando de tabus, de famílias disfuncionais, perversões, pedofilia, prostituição, conformismo. Por exemplo, uma letra que fala de uma criança que sofreu abuso. Não tem nenhuma piada, mas as pessoas acham graça. É meio natural pra mim escrever sobre coisas pesadas, mas eu não consigo fazer isso de maneira séria", comenta Bruno.

Também parece natural a maneira escrachada como Bruno interpreta as músicas, tanto no disco quanto no palco. Quem vê o cara na rua não imagina que por trás da aparência normal, se esconde um ser insano, que grita em show coisas como "é por isso que eu acho deus filho da puta", devidamente acompanhado por uma platéia formada por fiéis seguidores do Abimonismo. Segundo ele, a música, que não está no disco, chama-se "Eu Não Tenho Pinto" e o título justifica o refrão. "Eu não vou fazer uma música falando 'eu te amo', ou de sol, praia. A gente até tem canções românticas. A história que a gente conta em 'Mil Razões Que Explicam Um Pouco Por Que Eu Te Amo Tanto' de fato existe. Foi tirada de uma carta de amor que o chefe de um amigo nosso mandou pra noiva. É uma música de amor sincera, mas parece que está tirando um sarro. O próximo disco [que começa a ser gravado no começo de 2004] vai ser mais leve. Mas a gente quer sempre evitar esse lado piegas da músicas de amor," conclui o vocalista.

 

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