Dezembro / 2002

Um escritor sem duplos

José Saramago

Por Bárbara Lopes


"Se a rosa não se chamasse rosa, teria outro perfume?", pergunta Julieta a seu amado Romeu na obra de Shakespeare. A importância que o questionamento tem para o escritor português José Saramago pode ser medida por suas declarações de que escreve romances que justifiquem os títulos em que pensou. E se a preocupação está no método, também aparece nos enredos de seus livros, caso de Todos Os Nomes e de O Homem Duplicado, lançado em novembro em Portugal e no Brasil, quando o autor completou 80 anos.

O protagonista desse livro pode se perguntar o que sucederia se ao invés do pomposo e constrangedor nome de Tertuliano Máximo Afonso tivesse outro nome, o de seu duplo. Porque o professor de História descobriu que existe, morando na mesma cidade e na mesma época, outro homem que em tudo lhe é igual, na aparência e na voz. O outro é um ator secundáro de filmes B, e a descoberta aconteceu através de uma dessas películas.

Tertuliano tentará saber se há espaço para dois homens idênticos no mundo. Há muito nos acostumamos com pessoas parecidas e até mesmo com as muitas parecidas conosco. Mas os casos de sósias perfeitos não são comuns. Então, encontrar essa cópia e entender o quanto seus destinos estão ligados, se a mudança em um implica mudança no outro, se nasceram no mesmo instante e se morrerão simultaneamente também.

Talvez não devessem os homens comuns se dedicarem a aventuras tão fantásticas. Pelo menos é o que tentam avisar o Senso Comum ("Quanto mais te disfarçares, mais te parecerá a ti mesmo", alerta em certo momento), que no livro aparece como personagem autônoma, para reivindicar um livro dedicado à sua História, e uma Cassandra moderna, que tenta impedir que os gregos entrem em Tróia.

Mesmo com um narrador crítico e dado a divagações filosóficas, que lhe rende rótulos de barroco a pós-moderno, Saramago escapa da armadilha de ele mesmo esgotar as discussões que propõe, sobre (perda de) identidade, importância das aparências ou, associação tão cara à imprensa, técnicas de clonagem. O narrador se dedica a análises sobre os subtons presentes na fala, uma nova ordem no ensino da História e a natureza do peixe tamboril.

O Saramago militante político está presente no novo livro, de forma mais sutil que em A Caverna ou Ensaio Sobre A Cegueira, ainda que como nesses dois apareça na forma de fábula ou parábola. Mas o escritor vai além disso. À medida em que o livro avança, os fatos começam a acelerar-se, conduzindo para um final alucinante. Há uma ironia constante no texto, que previne a instalação de um discurso político aborrecido.

Os parênteses abertos ao longo da narrativa são, ao lado dos períodos longos, da pontuação e da disposição dos diálogos, caracterizadores da obra do ganhador do Nobel. O que vai de absurdo nas histórias, semelhantes ao realismo fantástico latino-americano, também. Os brasileiros podem se entreter também o sotaque do texto, que na edição da Companhia Das Letras, como já é costume, por exigência do autor, mantém a grafia e as construções originais. Essas reincidências podem ser entendidas como estilo ou repetição de acordo com a boa ou má vontade do leitor. Talvez sejam uma tentativa de manter a identidade quando as fronteiras nacionais e pessoais estão se dissolvendo.

 

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