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Dezembro
/ 2002
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Um escritor sem duplos
Por
Bárbara Lopes
O protagonista
desse livro pode se perguntar o que sucederia se ao invés do pomposo
e constrangedor nome de Tertuliano Máximo Afonso tivesse outro
nome, o de seu duplo. Porque o professor de História descobriu
que existe, morando na mesma cidade e na mesma época, outro homem
que em tudo lhe é igual, na aparência e na voz. O outro é
um ator secundáro de filmes B, e a descoberta aconteceu através
de uma dessas películas. Tertuliano
tentará saber se há espaço para dois homens idênticos
no mundo. Há muito nos acostumamos com pessoas parecidas e até
mesmo com as muitas parecidas conosco. Mas os casos de sósias perfeitos
não são comuns. Então, encontrar essa cópia
e entender o quanto seus destinos estão ligados, se a mudança
em um implica mudança no outro, se nasceram no mesmo instante e
se morrerão simultaneamente também. Talvez não
devessem os homens comuns se dedicarem a aventuras tão fantásticas.
Pelo menos é o que tentam avisar o Senso Comum ("Quanto mais
te disfarçares, mais te parecerá a ti mesmo", alerta
em certo momento), que no livro aparece como personagem autônoma,
para reivindicar um livro dedicado à sua História, e uma
Cassandra moderna, que tenta impedir que os gregos entrem em Tróia. Mesmo com
um narrador crítico e dado a divagações filosóficas,
que lhe rende rótulos de barroco a pós-moderno, Saramago
escapa da armadilha de ele mesmo esgotar as discussões que propõe,
sobre (perda de) identidade, importância das aparências ou,
associação tão cara à imprensa, técnicas
de clonagem. O narrador se dedica a análises sobre os subtons presentes
na fala, uma nova ordem no ensino da História e a natureza do peixe
tamboril. O Saramago
militante político está presente no novo livro, de forma
mais sutil que em A Caverna ou Ensaio Sobre A Cegueira,
ainda que como nesses dois apareça na forma de fábula ou
parábola. Mas o escritor vai além disso. À medida
em que o livro avança, os fatos começam a acelerar-se, conduzindo
para um final alucinante. Há uma ironia constante no texto, que
previne a instalação de um discurso político aborrecido.
Os parênteses
abertos ao longo da narrativa são, ao lado dos períodos
longos, da pontuação e da disposição dos diálogos,
caracterizadores da obra do ganhador do Nobel. O que vai de absurdo nas
histórias, semelhantes ao realismo fantástico latino-americano,
também. Os brasileiros podem se entreter também o sotaque
do texto, que na edição da Companhia
Das Letras, como já é costume, por exigência do
autor, mantém a grafia e as construções originais.
Essas reincidências podem ser entendidas como estilo ou repetição
de acordo com a boa ou má vontade do leitor. Talvez sejam uma tentativa
de manter a identidade quando as fronteiras nacionais e pessoais estão
se dissolvendo. |
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