Abril / 2003

Carta de um velho escritor

Por Fabio Diaz Camarneiro

O escritor Ernesto Sabato
O Escritor E Seus Fantasmas é uma coletânea de reflexões sobre literatura reunidas pelo argentino Ernesto Sabato. No prefácio, o autor avisa: "Este livro se constitui de variações em torno de um único tema, o que tem me obcecado desde que comecei a escrever: por que, como e para que se escrevem ficções?"

No livro, espécie de diário do escritor, Sabato tenta não apenas descobrir as razões que o levaram a escrever como também analisa a tantas vezes anunciada "morte" do romance. Para ele, a resposta é simples: o romance do século XX deve responder às exigências (estéticas, culturais e filosóficas) do seu tempo. Para a frase "o século XIX é o grande século do romance", Sabato acrescenta: "o século XIX é o grande século do romance novecentista".

A intensa relação que Sabato travou com seu século está em sua biografia. Nascido em 1911, em Buenos Aires, teve sólida formação cultural e tornou-se físico. Ganhou uma bolsa para trabalhar no Laboratório Curie, em Paris, onde acompanhou a fissão do átomo de urânio, que poucos anos mais tarde levaria à construção da bomba atômica. Sua crescente descrença na razão ganhou novo ímpeto quando, ainda em Paris, tomou contato com integrantes do movimento surrealista, especialmente Domínguez, Matta e Wilfredo Lam. O resultado de tudo isso foi o abandono da ciência em favor da literatura. Em 1948, lançou seu primeiro romance, O Túnel. O segundo, Sobre Heróis E Tumbas (publicado em 1961, mesmo ano de O Escritor E Seus Fantasmas), é considerado o maior romance argentino do século XX. Além de dezenas de livros de ensaio, escreveu ainda outro romance, Abadon, O Exterminador.

O Escritor E Seus Fantasmas é heterogêneo. De pequenos aforismos a textos publicados na imprensa, de citações de outros autores ao ensaio, Sabato mergulha em alguns temas recorrentes: a crise da arte moderna e a insuficiência da razão. Sobre o primeiro, ele argumenta que não é a arte que está em crise, mas o homem. O único retrato possível desse homem, portanto, seria uma arte que jamais negligenciasse sua crise. Em um curto capítulo do livro:

A literatura de situações limite
O homem de hoje vive em alta tensão, diante do perigo da aniquilação e da morte, da tortura e da solidão. É um homem de situações extremas, chegou aos limites últimos de sua existência ou está diante deles. A literatura que o descreve e o interroga só pode ser, portanto, uma literatura de situações excepcionais.

Ao assinalar a insuficiência do racionalismo, Sabato aproxima-se dos românticos, que também opuseram poesia e razão - uma dicotomia que os surrealistas levaram às últimas conseqüências. Para Sabato, valem as manifestações mais íntimas e pessoais do indivíduo, sendo a grande arte a manifestação última dessa subjetividade. Em alguns trechos do livro, ele elogia Van Gogh, que teria pintado não cadeiras, paisagens ou auto-retratos, mas suas "ansiedades mais profundas e dolorosas".

O argentino tem plena consciência do movimento das gerações artísticas e, como poucos, parece saber se enxergar dentro dessa história. Ele escreve que "por motivos semelhantes aos que fazem uma criança se sentir mais unida a seu avô do que a seu pai, como os filhos se sentem mais próximos dos avós que dos pais, em virtude desses rancores sucessivos, Proust não sai de Balzac, mas de Saint-Simon". Assim, ele rompe com o racionalismo do século XIX, considerando-o insuficiente para resolver as questões do século XX. Elogia os existencialistas, que teriam transformado a filosofia em literatura, ou seja, teriam abandonado as questões gerais do homem (terreno em que a filosofia se aproxima da matemática) e se aproximado do homem real, concreto. Teriam deixado de lado o conceito em favor do indivíduo.

Sabato elogia Nietzsche, Husserl, Heidegger. Na literatura, exprime sua admiração por Faulkner, Kafka, Proust, Sartre etc. Define Dostoievski como o ponto de partida da aproximação entre literatura e filosofia, e critica em Joyce (que também admira) certo jogo gratuito de palavras. Ao seu amigo pessoal Jorge Luis Borges, dedica um ensaio chamado "Os Dois Borges", em que faz veladas críticas ao excesso de racionalização do seu conterrâneo. Em outro ensaio mais longo, Sabato critica no francês Robbe-Grillet (e em todo o nouveau roman) sua obsessão pela objetividade. Para o argentino, o que mais vale na arte é a subjetividade, tão explícita em Van Gogh e nos surrealistas. Mais tarde, Sabato desenvolveria essas questões em um livro intitulado Robbe-Grillet, Borges, Sartre (1968).

Romancistas e revoluções
O escritor de ficções profundas é, no fundo, um anti-social, um rebelde, e por isso é, com freqüência,, companheiro de roda dos movimentos revolucionários. Mas quando as revoluções triunfam, não é estranho que volte a ser um rebelde.

Sabato também exagera um pouco no romantismo. Para ele, o escritor é um eterno "outsider", à parte da sociedade que o engendra. Até certo ponto isso é verdade, já que apenas certo distanciamento do mundo pode criar a visão crítica necessária ao artista. Mas isso não justifica que Sabato escreva: "Se recebemos dinheiro por nossa obra, tudo bem. Mas escrever para ganhar dinheiro é uma abominação. Essa abominação se paga com o abominável produto que assim se engendra."

Apesar de sua admiração pelos surrealistas, em seus romances Sabato se afasta de vários dos procedimentos do movimento -a escrita automática, por exemplo. Ele está menos interessado na forma e mais interessado na idéia dos surrealistas, a crítica contra a razão que o homem da ciência Ernesto Sabato conhecia tão bem. Nas palavras de Hölderlin, "o homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa".

Aos naturalistas, filhos bastardos do positivismo que buscavam uma literatura "científica" que se aproximasse da tese sociológica, Sabato contrapunha os limites da ciência. Ele explica que um triângulo desenhado numa lousa é uma representação falha de um triângulo ideal. A ciência e a matemática lidam bem com idéias, mas o mundo real depende da arte e da subjetividade para ser satisfatoriamente retratado. Por motivos semelhantes, Sabato também combate as literaturas engajadas, pois a arte que bem expressa o indivíduo também bem expressa o seu tempo.

O escritor fôra membro do Partido Comunista na juventude. Em O Escritor E Seus Fantasmas, ele critica os marxistas (que muitas vezes querem transformar arte em panfleto) ao mesmo tempo em que demonstra admiração por Karl Marx (um grande filósofo). Apesar de não conseguir confraternizar com os partidários de plantão, Sabato nunca deixou de demonstrar intensa preocupação social. Em 1983, foi eleito presidente da Comissão Nacional de Desaparecidos Políticos, que publicou o informe Nunca Mais (também conhecido como "Informe Sabato"), sobre os crimes contra os direitos humanos praticados pelos governos militares na Argentina de 1976 a 1983.

Certa vez Sabato comentou os três grandes choques de sua vida. Primeiro, a crença no socialismo desabou após o stalinismo. Depois, sua crença na ciência foi abalada com a construção da bomba atômica. Por último, o contato com os surrealitas lhe abriu novas possibilidades para compreender o mundo e lidar com a perda de suas antigas utopias. Desses três choques, aliados a um vasto conhecimento literário, surge O Escritor E Seus Fantasmas.

A condição mais preciosa do escritor
O fanatismo. É preciso ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se a sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante pode ser feito.

Hoje, aos 92 anos e praticamente cego, Ernesto Sabato vive em Buenos Aires.

O Escritor E Seus Fantasmas, Ernesto Sabato
Tradução: Pedro Maia Soares. Companhia Das Letras, 204 p., R$ 29,50

 

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