23.02.04

Uma estrela entre porões e trincheiras

Por Juliana Zambelo

Nick Hornby e Helen Fielding são ótimos entertainers. Seus livros são deliciosos de ler e possuem estofo suficiente para não soarem superficiais. Mas por enquanto, dessa geração (a mais recente leva de escritores britânicos), só existe um autor que conseguiu deixar o rótulo de literatura pop totalmente para trás: o irlandês Roddy Doyle. E o passo decisivo se deu com o romance Uma Estrela Chamada Henry.

Nascido em Dublin em 1958, Doyle - assim como Hornby - amargou alguns anos como professor antes de conseguir tirar seu sustento da literatura. Hoje, no entanto, é um dos autores contemporâneos que mais vende livros na Grã-Bretanha e na Irlanda. E, ao mesmo tempo, completa uma equação bastante incomum ao ser um dos preferidos da crítica.

Ele faz sucesso desde a publicação do popíssimo The Commitments (1987), sobre a formação de uma banda de soul na Irlanda, e O Furgão, também cheio de referências à cultura popular atual, com menções a ícones da música, cinema, esporte, televisão, porém suavemente mais profundo. Logo Doyle escreveria Paddy Clarke Ha Ha Ha, obra que lhe rendeu o Booker Prize, prêmio mais importante da literatura britânica, em 93. Paddy tem 10 anos e cresce na Irlanda dos 60's enquanto testemunha o casamento dos seus pais começar a ruir. E o grande mérito desse livro, qualidade que mereceu a premiação, é a sensibilidade da narração, que faz qualquer leitor entender e se envolver com a realidade de um moleque mesmo que nunca se tenha sido um. Na seqüência, The Woman Who Walked Into Doors, não traduzido no Brasil, aborda a violência doméstica e o alcoolismo em mais um avanço na qualidade do trabalho de Roddy.

Mal sabiam aqueles que lhe concederam o Booker que o melhor estava por vir. Uma Estrela Chamada Henry é um deslumbre. Foi publicado em 1999 e chegou ao Brasil dois anos depois para contar a história de Henry Smart, um menino que nasceu em uma família pobre e passou pelos porões mais fétidos da Dublin para, aos 14 anos, juntar-se a um movimento que começava a tomar forma no país: o IRA.

A primeira parte do livro, portanto, assemelha-se à autobiografia que virou filme As Cinzas De Angela e seu retrato da miséria irlandesa. Nessa realidade, Smart cresce muito rápido. Se por um lado as lembranças dessa época vão se enraizando nele de forma tão definitiva que nunca param de assombrá-lo, por outro, ao viver nas ruas, ele logo abandona a infância e aprende a ser esperto para sobreviver. Logo deixamos o pequeno Henry sozinho e desolado em uma página para, na seguinte, nos encontrarmos com ele anos depois no interior do correio central de Dublin junto a outros rebeldes republicanos no que foi, em 1916, a primeira tentativa de independência do país.

O livro então segue esse anti-herói (violento, um pouco egoísta) nas entranhas do IRA e do Sinn Féin (o partido político republicano, braço desarmado do IRA), trazendo à tona as falhas, preconceitos e as piores intenções do movimento de independência, assim como a coragem e a inteligência de pessoas que fizeram parte dele. Doyle proporciona uma visão minuciosa do Exército Republicano Irlandês e de todo o processo de libertação nacional. Porque Henry está quase sempre lá, participando de momentos históricos, no papel do lutador anônimo. Era ele quem estava ao lado do herói quando foi tirada a foto famosa, era ele um dos preferidos do outro mito, foi dele o ato crucial que desencadeou uma série de acontecimentos. Porém sua origem humilde nunca permitiu que ele ganhasse prestígio - porque a independência não era realmente para o povo, a maior das suas desilusões.

Tal qual Spielberg trazendo a lama e o sangue da guerra para as barbas do espectador em O Resgate Do Soldado Ryan, a narração em primeira pessoa coloca o leitor no chão de Dublin ou nos campos do interior, sentido as balas passando a poucos centímetros da cabeça. Mas Roddy Doyle não é Ernest Hemingway e Uma Estrela Chamada Henry não é Por Quem Os Sinos Dobram. Aqui fala-se sobre revolução e luta armada, mas o romance está tão cheio de sentimentos que uniformes e atentados são, na maior parte do tempo, apenas um pano de fundo. O personagem é o centro da obra e ao redor dele orbitam amores, saudades, melancolias, dúvidas e certezas, que Doyle explora com delicadeza, criando imagens belas e momentos tocantes. Além disso, ele constrói figuras ímpares, como o rascunho de Michael Collins que vai rabiscando ao longo da história ou a avó Nash, sempre carregando pilhas de livros, lendo ao mesmo tempo duas páginas de um romance, com um dedo correndo por cada uma delas.

Com esse livro, Doyle conquista, sem sombra de dúvidas, a alcunha de bom escritor. Só não conseguiu - provavelmente porque não quis - encerrar a trajetória do seu herói em um único livro, por isso ele hoje trabalha na continuação, a segunda parte do que deve ser uma trilogia. Sua intenção é escrever um pedaço da história do século XX através dos olhos de Henry Smart. Em uma entrevista, Doyle afirma brincando que não pretendia tornar isso público para não deixar as pessoas esperando pelo que "poderia ser meia década". Pois meia década será completada esse ano, e ainda não se sabe quando será lançado o próximo volume. Que venha quando estiver pronto, e certamente será bem vindo.

 

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